Setembro Amarelo reforça a importância do acolhimento ao próximo

Durante todo este mês, campanha alerta sobre a prevenção do suicídio através de diálogo, apoio emocional e tratamento multiprofissional

Foto: Guilherme Cordeiro/ TN

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Criciúma

Acolhimento e apoio emocional pautam o Setembro Amarelo, já reconhecido em todo o país pela campanha de prevenção ao suicídio. O período reforça a importância da conscientização e diálogo sobre o tema, sobretudo, após o início da pandemia e a exigência do isolamento social no mundo. Em Criciúma, o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS III) é um dos instrumentos mais ativos, responsável por oferecer tratamento adequado e multiprofissional aos pacientes que necessitam de amparo.

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“A gente trabalha com uma equipe multiprofissional e o psicólogo é um desses integrantes, mas também existem outros profissionais que falam sobre o tema. Estamos levando a questão do suicídio como doença mental, e não é isso. Precisamos desmistificar, porque hoje ele está acontecendo muito mais por determinantes sociais, em função de como a sociedade está se reorganizando e os fatores de risco”, explica a coordenadora municipal de Saúde Mental, Ana Losso.

Em Criciúma, desde o início da pandemia, estima-se que a procura por ajuda tenha aumentado 30%. “O isolamento causado pela pandemia, a mudança de hábitos e excesso de atividades on-line, tudo isso têm influenciado no sofrimento das pessoas. Os acolhimentos aumentaram muito, no CAPS Infantil e nos outros CAPSs para os adultos e, inclusive, no Núcleo de Prevenção de Violência, porque o suicídio é uma violência autoprovocada, então ele é tratado nesse âmbito”, acrescenta Ana.

Desde a implantação do CAPS III em Criciúma, mais de cinco mil pessoas já passaram pelos cuidados do projeto. Atualmente, 375 estão ativas e frequentam a unidade. Uma das pacientes, que não será identificada na reportagem, deu início ao tratamento quando era jovem, aos 22 anos. Hoje, aos 45, permanece cuidando da vida com o apoio de profissionais. “A ajuda me trouxe esperança, para ver meus filhos crescerem, se formarem, terem uma família”, comenta.

O histórico de problemas psicológicos na vida da paciente iniciou cedo, aos 17 anos. “A gente vai deixando, amenizando, achando que vai melhorar. Eu encontrei um namorado, nós noivamos, e através disso, começaram muitas brigas, ofensas e agressões. Com 19 anos, eu engravidei e tive meu primeiro filho. Mas sempre com brigas e apanhando. O processo só regredia e eu não procurava um médico”, relata a mulher.

Aos 22 anos, a paciente engravidou pela segunda vez. Com abusos psicológicos, dois filhos pequenos e agressões constantes, viver tornou-se um fardo. “Eu fiquei casada por 14 anos. Mas eu não procurava médico, achava que era uma fase. Só que era cada vez pior, minha mente foi ficando fraca. Ao invés dele [esposo] me ajudar, só colocava a culpa em mim”, acrescenta. “Depois, quando vi que não tinha mais saída, eu procurei ajuda sozinha, porque comecei com pensamentos suicidas e depressão profunda”, completa.

A mulher só entendeu que precisava de ajuda, quando não havia mais saída. “Eu não sorria mais, não tinha amizades. Tudo aquilo acabou”, lamenta. “O ser humano precisa de um momento de elogios, mas eu nunca tive isso, nem um abraço. Tudo a culpa era minha”, acrescenta. Hoje, a paciente sabe que não está sozinha e que tem amparo para seguir em frente. “Temos altos e baixos, mas a vida continua. Já somos vitoriosos buscando ajuda de um profissional. Acredite em si mesmo, porque a vida está aí para ser vivida”, enfatiza.

Para a mulher, três pontos são fundamentais para o acolhimento do próximo: um sorriso, abraço e elogio. “A pessoa tem que querer e se ajudar. É um dia após o outro. Existem muitas dificuldades, não podemos desistir”, finaliza.

Atendimento 24 horas no CAPS III

De acordo com a coordenadora do CAPS III, Mariana Darolt Côrrea, a unidade fica aberta 24 horas e está à disposição da população. “Estamos disponíveis para receber pessoas com intenção de suicídio, tentativa e transtorno depressivo grave. A gente acolhe e todos os profissionais são capacitados para o atendimento. A partir desse acolhimento, discutimos em equipe multiprofissional, qual o melhor acompanhamento”, explica.

No CAPS III, várias áreas da saúde são trabalhadas com os pacientes, como psicologia, psiquiatria, enfermagem, farmacêutica e assistência social.  “Essa visão multiprofissional que é o diferencial do Centro, já está descrita em muitos artigos, esse fator protetor que o CAPS tem diante da preservação da vida e da prevenção do suicídio”, comenta. “Nós contamos, dentro desse trabalho interdisciplinar e multiprofissional, com a ressignificação do cotidiano da pessoa, fortalecimento de vínculo afetivo, inserção social e a parte da medicação com todas as orientações”, acrescenta Mariana.

O objetivo, portanto, é dar apoio e oferecer acompanhamento às pessoas que estão nessa situação. “Esse trabalho faz com que a gente seja um dispositivo protetor, no sentido de prevenção de suicídio e em favor da vida. O suicídio é multifatorial, então como equipe multi, nós conseguimos atingir todos os fatores e fazer essas intervenções. Qualquer pessoa pode chegar aqui, de forma espontânea, encaminhada por alguém da família ou pelas unidades de saúde, assistência e escola. Estamos de portas abertas”, finaliza.

Entidades que atuam em prol da vida

A pandemia trouxe à tona vários problemas a serem enfrentados pela população. Um deles é o isolamento social, que limitou a liberdade de ir e vir das pessoas. A solidão causada pelas restrições acendeu o alerta para a saúde mental e a relevância do tema a ser discutido. Entidades como a Rede de Proteção à Vida (RPV) e o Centro de Valorização à Vida (CVV), que atuam voluntariamente em prol de quem precisa de apoio emocional através de uma conversa, viram os atendimentos crescerem expressivamente.

O Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias. Já a Rede de Proteção à Vida, atua em grupo, de forma multidisciplinar, com profissionais ligados à saúde mental, espiritual e física, educação, esporte, mídia, força policial, bombeiros e outros, cujo objetivo é a valorização da vida, promoção da saúde e também a prevenção do suicídio.

“Antes mesmo da eclosão da pandemia da Covid-19, o mundo já vivia, e não há pouco tempo, um cenário de pandemia emocional. De suicídios. E quem classificou a situação foi a Organização Mundial da Saúde, que se fundamentou em números gravíssimos. São cerca de 800 mil a um milhão de pessoas que, anualmente, tiram a vida no mundo. Mais ou menos, uma vida a cada 40 segundos”, explica o secretário-geral da RPV e também voluntário da CVV, Roberto Caldas.

Todos os problemas que surgiram junto com o início da pandemia tornaram-se ainda mais evidentes com o passar do tempo. “A situação agravou-se, afinal de contas, a pandemia apresentou uma conta alta, do ponto de vista econômico e financeiro, com o desemprego e, da saúde mental, com o distanciamento social, a solidão. Transtornos que antes já existiam acabaram sendo potencializados e isso se refletiu no relacionamento entre as pessoas, nas famílias, nas empresas, em toda a sociedade”, enfatiza Caldas.

Com base nisso, as duas entidades acabaram assumindo, mais do que nunca, papéis essenciais para a vida em sociedade. “No Sul, temos vários postos do CVV, em Criciúma são cerca de 35 voluntários. É o maior posto na região. Já a RPV, que tem base também em Criciúma, tem 21 voluntários. Mas é importante registrar, é pouco. Nós precisamos de mais voluntários. Esse trabalho, nem todos conseguem contribuir da maneira que gostariam”, finaliza.

CONTATOS PARA APOIO:

CVV – Centro de Valorização da Vida / 188

CAPS II – Centro de Atenção Psicossocial / (48) 3445-8735

CAPS III – Centro de Atenção Psicossocial /(48) 3403-3450

SPAE – Serviço de Psicologia Aplicada Esucri / (48) 3431-3775

NUPREVIPS – Núcleo de Prevenção às Violências e Promoção da Saúde UNESC / (48) 3431-2764

CERES – Associação Criciumense de Apoio à Saúde Mental /(48) 3437-3655 | Horário: 13h30 às 17h30 www.ceressaudemental.org.br.

AA – Alcoólicos Anônimos /(48) 3433-0964

 

 

 

 

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