Alexandra Cavaler
Criciúma
O futuro não começa quando o jovem recebe o primeiro salário, abre uma empresa ou decide qual profissão seguir. Ele começa muito antes, quando uma pergunta desperta uma ideia, quando um problema vira desafio e quando alguém descobre que também pode criar soluções para transformar a realidade ao seu redor. É essa mudança de olhar que o Clube Jovem Empreendedor busca provocar entre estudantes de Criciúma.
Mais do que apresentar o empreendedorismo como caminho profissional, a iniciativa leva para dentro da escola habilidades que acompanham o jovem em qualquer trajetória: criatividade, tomada de decisão, trabalho coletivo, pensamento analítico, capacidade de resolver problemas e percepção de oportunidades. Em uma parceria entre a Secretaria Municipal de Educação, a Associação Empresarial de Criciúma (Acic) e o Sebrae, por meio do Programa Cidade Empreendedora, estudantes deixam de ser apenas espectadores e passam a experimentar, na prática, como uma ideia pode nascer, ganhar forma e se transformar em projeto.
“Mais do que empreendedores, queremos formar agentes de transformação”
Aos 12, 13, 14 ou 15 anos, muitos jovens ainda estão tentando descobrir o que gostam, quais caminhos desejam seguir e que lugar pretendem ocupar no mundo. É justamente nessa fase de descobertas que o Clube Jovem Empreendedor entra em cena. Criado em 2022, a proposta partiu de uma constatação simples, mas com consequências profundas: era preciso aproximar a escola do mundo do trabalho e do ecossistema empreendedor do município.
A ideia, entretanto, nunca foi transformar salas de aula em pequenas empresas ou fazer do empreendedorismo sinônimo de lucro. O propósito é mais amplo. “Mais do que formar futuros empresários, buscamos desenvolver protagonismo, criatividade, autonomia, liderança, comunicação, trabalho em equipe, resolução de problemas e consciência cidadã. A ideia é que o estudante perceba que pode ser agente de transformação da realidade em que vive”, explica Rúbia Acordi, coordenadora do Clube Jovem Empreendedor.
Desde a primeira edição, o projeto também passou por um processo de amadurecimento. Em 2022, o Desafio de Inovação Empresarial envolveu 21 escolas e 280 estudantes do 8º e 9º ano. No ano seguinte, a equipe fez uma pausa para planejamento, formação e aprimoramento da proposta. A retomada, em 2024, trouxe uma nova abordagem, voltada à Sustentabilidade e ao Meio Ambiente, reunindo 13 escolas e 210 estudantes do 6º e 7º ano.
Em 2025, o empreendedorismo ganhou uma dimensão ainda mais social, com o trabalho voltado às Campanhas de Voluntariado e Mídias Digitais. Foram 13 escolas e 195 estudantes envolvidos. Agora, em 2026, o projeto chega à proposta GerAção Empreendedora, com 11 escolas e aproximadamente 175 alunos, principalmente dos 8º e 9º anos.
A mudança de temas ao longo dos anos não representa uma perda de identidade. Pelo contrário. É justamente o que permite ao Clube ampliar o conceito de empreendedorismo e colocá-lo em contato com diferentes desafios da sociedade. “Essa trajetória mostra que o Clube não ficou preso a um único conceito de empreendedorismo. A cada ano procuramos ampliar as experiências dos estudantes, trabalhando inovação, sustentabilidade, voluntariado, mídias digitais, responsabilidade social e desafios reais”, afirma Rúbia.
A escolha das escolas também busca contemplar diferentes regiões de Criciúma. Os estudantes são convidados pelas próprias unidades e a participação não é obrigatória. Interesse, disponibilidade e vontade de aprender, participar e compartilhar experiências estão entre os principais critérios. A lógica é que o envolvimento voluntário ajude a transformar a experiência em algo mais significativo. “Não trabalhamos com uma participação obrigatória. O interesse do estudante é um elemento importante para que ele se envolva efetivamente com as propostas”, explica a coordenadora.
Mais do que números, a equipe procura acompanhar aquilo que acontece com os estudantes durante o percurso. Criatividade, autonomia, protagonismo, liderança, comunicação e oratória, trabalho em equipe, pensamento crítico e resolução de problemas estão entre as competências trabalhadas. Educação financeira, sustentabilidade, mídias digitais e inovação social também fazem parte das atividades.
A avaliação, nesse caso, não cabe apenas em uma planilha. É feita de maneira qualitativa e processual, por meio de observações pedagógicas, registros de participação, relatos e feedbacks de professores, estudantes e famílias, além dos relatórios produzidos a partir de oficinas, atividades e feiras. Reuniões pedagógicas e conselhos de classe também ajudam a identificar mudanças no desenvolvimento dos participantes.
E é justamente nesse ponto que o projeto começa a revelar uma dimensão que vai muito além do empreendedorismo.
Ideias que ganham vida
Quando a mudança começa no estudante
Há transformações que não aparecem imediatamente em números, mas podem ser percebidas na maneira como um jovem passa a se posicionar diante dos outros — e diante de si mesmo. Para a coordenadora, um dos resultados mais importantes do Clube está justamente nessa mudança de comportamento.
“Um aspecto muito significativo é observar estudantes que inicialmente tinham dificuldade de se comunicar ou de se expor e que, ao longo das experiências, passam a apresentar mais confiança para falar, apresentar suas ideias, trabalhar coletivamente e assumir responsabilidades”, relata Rúbia.
A evolução pode aparecer em uma apresentação diante dos colegas, na defesa de uma ideia, na capacidade de ouvir opiniões diferentes ou na coragem para propor uma solução. São competências que podem acompanhar o estudante independentemente da profissão que escolher no futuro. “Temos registros e relatos de maior autonomia, protagonismo, criatividade, capacidade de comunicação e trabalho em equipe”, destaca.
As atividades também estimulam os jovens a olhar para o próprio território. Projetos relacionados à sustentabilidade, ao voluntariado e a problemas identificados no cotidiano aproximam a aprendizagem de questões concretas. O estudante passa a perceber que empreender não necessariamente significa criar uma empresa: pode significar identificar uma dificuldade, pensar em uma alternativa e mobilizar pessoas para enfrentá-la.
É uma concepção que a coordenadora considera fundamental. “Para nós, empreender não significa somente abrir uma empresa. Significa também ter iniciativa, identificar problemas, pensar em soluções, trabalhar coletivamente, tomar decisões, assumir responsabilidades e buscar transformar uma realidade”.
A definição ajuda a explicar por que as temáticas escolhidas pelo Clube ultrapassam o universo dos negócios. Meio ambiente, sustentabilidade, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), voluntariado, mídias digitais e responsabilidade social também são territórios de aprendizagem empreendedora.
Em 2025, por exemplo, o projeto trabalhou o conceito de “empreendedorismo do bem”, utilizando as mídias digitais e as campanhas voluntárias como ferramentas para discutir impacto social. “O nosso objetivo é formar jovens protagonistas, críticos, participativos e conscientes, que possam contribuir para a comunidade independentemente de seguirem ou não uma trajetória empresarial”, resume Rúbia.
Da sala de aula para o mundo real

Se a escola é o ponto de partida, o mundo real entra pela porta por meio das empresas parceiras. A aproximação com o setor produtivo é uma das características que diferenciam a experiência do Clube e permite que os estudantes tenham contato direto com profissionais, empreendedores e ambientes que, muitas vezes, ainda fazem parte de um universo distante de seu cotidiano.
As empresas parceiras “apadrinham” as escolas participantes e ajudam a construir uma ponte entre o conhecimento desenvolvido em sala e a realidade profissional. Por meio da ACIC, os estudantes podem conhecer empreendimentos, participar de mentorias, conversar com empresários e apresentar seus projetos. O Sebrae também participa com materiais, oficinas, capacitação e apoio técnico.
“O empresário compartilha sua trajetória, seus desafios e aprendizados, enquanto os estudantes apresentam suas ideias, projetos e perspectivas. A parceria também conta com o SEBRAE, que oferece materiais, oficinas, capacitação e apoio técnico”, explica a coordenadora.
As visitas às empresas cumprem papel importante nesse processo. Ao entrar em um empreendimento e observar sua rotina, o estudante começa a compreender que, por trás de uma marca, de um produto ou de um serviço, existem pessoas e decisões.
“Quando o estudante visita uma empresa ou conversa diretamente com um empreendedor, ele começa a compreender que por trás de um negócio existem pessoas, escolhas, dificuldades, planejamento, trabalho em equipe, criatividade e tomada de decisões”, afirma Rúbia.
O Café com o Empreendedor segue a mesma lógica. A iniciativa coloca empresários e estudantes frente a frente para que trajetórias profissionais sejam compartilhadas sem a maquiagem de um discurso pronto. Os jovens conhecem histórias, erros, dificuldades, escolhas e caminhos que levaram cada profissional até onde está. “Buscamos apresentar trajetórias reais, mostrando que o caminho profissional é construído por diferentes experiências e que os desafios fazem parte desse processo”, conta.
E existe uma via de mão dupla nessa relação. Segundo Rúbia, os próprios empreendedores relatam que aprendem com os estudantes, especialmente a partir das perguntas e perspectivas trazidas pelos jovens.
A experiência pode, inclusive, ultrapassar o período formal de participação no Clube. Ainda não existe um acompanhamento longitudinal estruturado capaz de medir sistematicamente o impacto do projeto nas escolhas profissionais dos ex-participantes. Mas alguns encontros já deram à equipe uma pista sobre o potencial dessa aproximação. “Em visitas às empresas parceiras, por exemplo, já encontramos ex-clubistas trabalhando nesses espaços, o que foi muito significativo para nós”, revela.
O episódio reforça uma das principais compreensões construídas pela equipe ao longo dos anos: ampliar horizontes também é uma forma de preparar para o futuro. “O contato com empresas, empreendedores e diferentes profissionais permite que os estudantes conheçam realidades e oportunidades que muitas vezes não fazem parte do seu cotidiano. Ao mesmo tempo, desenvolvem competências como comunicação, autonomia, trabalho em equipe, criatividade, responsabilidade e capacidade de resolver problemas”, afirma.
Para Rúbia, o próximo passo é justamente compreender ainda melhor o que acontece depois que o jovem deixa o Clube. Um acompanhamento ao longo dos anos permitiria identificar de forma mais sistemática como as experiências influenciam escolhas profissionais, continuidade dos estudos e relação com o mundo do trabalho.
Enquanto esse acompanhamento não existe, a equipe mantém o olhar sobre aquilo que já consegue enxergar: jovens que chegam com determinadas dificuldades e saem mais confiantes para falar; estudantes que descobrem novas possibilidades profissionais; grupos que aprendem a trabalhar juntos; e ideias que deixam o papel para ganhar forma.
O desafio agora é crescer sem perder o propósito

Para o futuro, a meta é ampliar gradativamente o número de escolas e estudantes e consolidar o Clube Jovem Empreendedor como um espaço permanente de formação empreendedora dentro da rede municipal. A intenção é manter e fortalecer a parceria com as empresas, o Sebrae, a ACIC e a Casa do Empreendedor, ao mesmo tempo em que novas possibilidades sejam incorporadas ao projeto.
Tecnologias digitais, inovação, sustentabilidade, projetos sociais e desafios relacionados à realidade dos próprios estudantes estão entre os caminhos que podem ganhar ainda mais espaço.
Mas existe uma preocupação em meio à perspectiva de crescimento: não transformar expansão em mera contagem de participantes. “Mais do que aumentar números, nosso desafio é qualificar cada vez mais a experiência”, ressalta Rúbia.
E é nessa frase que se concentra boa parte da filosofia do projeto. O sucesso do Clube não está apenas em quantos jovens passaram por suas atividades, quantas escolas participaram ou quantos projetos chegaram à feira. Está na capacidade de fazer com que cada estudante saia da experiência levando consigo uma nova percepção sobre aquilo que é capaz de fazer.
“Queremos fazer com que o estudante não seja apenas alguém que participa de uma atividade, mas alguém que desenvolve ideias, toma decisões, apresenta soluções, trabalha com os outros e percebe que pode transformar o lugar onde vive”, conclui a coordenadora.
Um novo jeito de enxergar o amanhã
Aos 15 anos, Giovanna Borte Ferreira já começou a construir uma visão mais concreta sobre o caminho que pretende seguir. Estudante da Escola Filho do Mineiro, ela entrou no Clube Jovem Empreendedor em 2023 justamente porque queria chegar mais preparada ao mercado de trabalho. No projeto, encontrou não apenas informações sobre profissões, mas um espaço para desenvolver habilidades e descobrir o próprio potencial.
“Meu nome é Giovanna Borte Ferreira, tenho 15 anos e estudo na Escola Filho do Mineiro. Entrei no Clube em 2023 porque tinha vontade de me preparar e estar pronta para entrar no mercado de trabalho. Além disso, o Clube me fez compreender a importância da sustentabilidade, do voluntariado e das mídias digitais no nosso dia a dia, além de ensinar sobre os regimes e propostas de trabalho que posso considerar futuramente. É um ambiente dinâmico, em que podemos ser protagonistas, ter liberdade para sermos nós mesmos e investir nas nossas habilidades. Nossa oratória é treinada e estamos sendo preparados para o mercado de trabalho, para usar a criatividade e ter consciência dos direitos e deveres que temos ao empreender”, relata sugerindo: “Por isso, acho que todos deveriam participar do Clube Jovem Empreendedor”.
Estudantes relatam experiências
“O Clube me fez pensar diferente sobre as profissões”
Guilherme dos Santos Arrojo chegou ao Clube em 2025 por um convite dos amigos. O que começou como um incentivo para experimentar uma atividade diferente acabou ampliando a maneira como o estudante, hoje com 15 anos, enxerga o próprio futuro. Entre os aprendizados, ele destaca a descoberta de diferentes profissões e a preparação para as escolhas que virão.
“Meu nome é Guilherme dos Santos Arrojo, tenho 15 anos e estudo na Escola Filho do Mineiro. Comecei no Clube em 2025, porque meus amigos me incentivaram a participar. O Clube me fez pensar diferente sobre o futuro, sobre o trabalho e sobre as diferentes profissões que existem. Acho que o Clube ajuda muito na oratória e na criatividade e também prepara a gente para o mercado de trabalho, ensinando sobre nossos direitos, deveres e até sobre as escolhas relacionadas aos regimes de trabalho”, relata.
“Passei a enxergar o mercado de trabalho de outra forma”
Para Pablo, de 14 anos, a porta de entrada para o Clube Jovem Empreendedor também foi aberta por alguém próximo. Uma amiga o convenceu a participar e, depois de um ano de atividades, a experiência acabou mudando a maneira como ele olha para o mundo profissional. Hoje, ele associa o projeto não apenas ao conhecimento sobre profissões, mas ao desenvolvimento de habilidades que considera importantes para qualquer futuro.
“Também sou estudante da Escola Filho do Mineiro e estou no Clube Jovem Empreendedor há um ano. Fui convencido por uma amiga a participar. O Clube mudou minha visão sobre o mercado de trabalho. Acho que os alunos devem participar para aprender mais sobre profissões, mercado de trabalho e desenvolvimento de habilidades, como oratória, criatividade e protagonismo”, ressalta.
“Com o Clube, comecei a olhar para o futuro”
Manuela Joaquim Alves entrou no Clube neste ano buscando aprender algo novo e ampliar as próprias oportunidades. Aos 14 anos, a estudante da Escola Filho do Mineiro encontrou nas atividades uma oportunidade para começar a pensar com mais clareza sobre o futuro, inclusive sobre aquilo que deseja ser.
“Tenho 14 anos, meu nome é Manuela Joaquim Alves. Entrei no Clube este ano para aprender algo novo e ter mais oportunidades. O Clube me fez aprender e explorar o mercado de trabalho, além de conhecer os direitos e deveres do trabalhador. Também me fez pensar sobre o futuro e sobre o que eu quero ser. No Clube, aprendemos diferentes caminhos para a nossa vida, despertamos nossa criatividade e nos tornamos protagonistas. Com o Clube, comecei a olhar para o futuro”, comemora.
Parceiros da iniciativa

Participantes e tema anuais
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2025

2026





