Nesta segunda-feira, 17, dia em que completa 69 anos, Luiz Ernesto Cavalcanti de Albuquerque mantém uma tradição que começou há cinco décadas: transformar o próprio aniversário em um momento de ajudar o próximo. Há mais de 50 anos, ele mantém uma rotina de cerca de quatro doações por ano e faz questão de reservar uma delas para o próprio aniversário, como uma forma de transformar a celebração em um gesto de solidariedade.
Morador do bairro Linha Batista, em Criciúma, Luis é do tipo sanguíneo A+ e mantém o hábito da doação desde 1975, quando ainda morava no Rio de Janeiro.
Ao longo dos anos, ele começou a doar sangue e plaquetas por aférese, além de se cadastrar como doador de córneas e órgãos. Há 12 anos e meio, desde que se mudou para Criciúma, o Hemosc passou a fazer parte dessa trajetória.
A história dele com a doação de sangue começou depois de uma reportagem sobre o tema. Ele conta que, em 1975, enquanto estava em uma barbearia, leu em uma revista uma matéria sobre o Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, que falava sobre a doação de córneas e as dificuldades enfrentadas por crianças que precisavam do procedimento.
Sensibilizado, ele decidiu se cadastrar para ser doador. A primeira doação aconteceu no Banco de Sangue Natal, em Madureira, no Rio de Janeiro. Na época, segundo ele, o serviço ainda era pago. Depois, Luis passou por diferentes centros de coleta e manteve a frequência de doar a cada três ou quatro meses, sempre com uma data especial no calendário.
“Aí eu passei a doar no Instituto Nacional do Câncer, o INCA, e no Hospital do Estado, lá na Praça Mauá, no Rio de Janeiro. Eu doava a cada três, quatro meses, mas sempre priorizei a doação no meu aniversário, dia 17 de agosto”, conta.

A aférese: Um novo capítulo na história de Luis
A trajetória de Luis como doador ganhou uma nova etapa quando ele foi convidado a fazer uma doação especial no HemoRio. Foi quando passou a doar plaquetas por aférese, procedimento que realiza regularmente até hoje.
“Fiquei durante um tempo nesse sistema, e passei a fazer a aférese lá no Rio, quando esse procedimento chegou ao estado. Na aférese eu doo normalmente uma vez a cada 40 ou 50 dias, e de lá para cá sempre faço isso”
Ao chegar a Criciúma, Luis conheceu o Hemosc e continuou com a rotina de doações. “Descobri o Hemosc, e virei ‘cliente’ de carteirinha por aqui”, brinca.
Segundo a operação do Hemosc, a doação de plaquetas por aférese passa por uma seleção e avaliação do doador. São considerados fatores como tipagem sanguínea, acesso venoso, altura, peso, hemoglobina e quantidade de plaquetas. Antes do procedimento é realizado um exame para verificar a quantidade de plaquetas disponível e definir quanto poderá ser retirado com segurança.
Durante a doação, o sangue passa por uma máquina que separa as plaquetas e devolve as hemácias ao organismo. O procedimento pode durar entre uma e duas horas, dependendo do volume de plaquetas do doador.
As plaquetas são utilizadas principalmente em cirurgias cardíacas, no atendimento oncológico e em situações de hemorragia. Como possuem validade curta, a manutenção de doadores regulares é importante para garantir a disponibilidade do hemocomponente.
O Hemosc explica ainda que a quantidade de plaquetas obtida por aférese é maior do que a coletada em uma doação convencional de sangue. Enquanto uma bolsa de sangue pode exigir vários doadores para atender à necessidade de um paciente, a coleta por aférese permite obter uma quantidade maior de plaquetas de um único doador.

Um presente diferente
Mesmo com a passagem dos anos, Luis mantém o dia 17 de agosto como uma das principais datas para doar. “Eu doo todos os anos, principalmente no dia 17 de agosto, porque é o meu presente, a satisfação de doar, a boa sensação de ajudar o próximo”, conta.
A motivação, segundo ele, está na consciência de que, enquanto está doando, existem pessoas do outro lado precisando de ajuda. “Porque atrás daquela porta tem pessoas que precisam muito. Naquela cama, naquele quarto de hospital, tem pessoas que sofrem muito”.
Uma lembrança vivida durante uma das doações no HemoRio também ficou marcada. Luis conta que, ao conversar com uma médica, foi até um setor do hospital e encontrou o pai de uma criança que estava internada em situação delicada. Ao saber que ele era doador, o homem o abraçou.
“Apareceu um pai, que soube que eu era doador, me abraçou, e eu vi a filhinha dele numa situação muito difícil e aquilo me tocou muito. Eu gosto de ajudar, e queria que as pessoas tivessem mais essa consciência também”, explica.
O hábito que chegou à família
Desde que iniciou o hábito, há mais de 50 anos, Luis costuma avisar outras pessoas quando vai doar e faz um convite para que elas o acompanhem.
O incentivo à doação também passou para dentro da família. Quando um dos filhos de Luis completou 18 anos, decidiu começar a doar e os dois foram juntos ao banco de sangue, em um momento especial entre pai e filho.
“A minha intenção é incentivar para que venham doar sangue, porque isso é necessário. Se eu conseguir deixar esse legado para alguém aqui, eu ficaria muito feliz”, pontua.

Nova regra permite doação de sangue após os 70 anos
Luis chegou aos 69 anos com uma preocupação: a possibilidade de precisar interromper as doações ao completar 70. A regra anterior estabelecia um limite de idade, mesmo entre pessoas que já tinham o hábito de doar regularmente.
Uma mudança recente no regulamento técnico da hemoterapia no Brasil, porém, permite que doadores regulares continuem contribuindo após os 70 anos, desde que permaneçam saudáveis e sejam considerados aptos na avaliação clínica realizada pelo serviço de hemoterapia, respeitando os intervalos e a frequência definidos para essa faixa etária.
“Como mudou a regra, então depois do dia 17 de agosto do ano que vem, eu posso doar, porque sou um doador contínuo. Tendo boa saúde, posso continuar a doar”, conta Luis.
Antes da mudança, mesmo quem mantinha uma rotina de doações precisava interrompê-las ao completar 70 anos. A atualização considera o aumento da expectativa de vida e o envelhecimento da população brasileira, permitindo que pessoas idosas e saudáveis continuem contribuindo para o atendimento de pacientes que precisam de transfusões.
As novas regras foram estabelecidas pela Portaria GM/MS nº 11.685/2026, publicada em 3 de julho, e entram em vigor em outubro, 90 dias após a publicação.
O regulamento também trouxe mudanças para pessoas que ficam temporariamente impedidas de doar. Para quem passou por endoscopia ou utilizou anabolizantes sem prescrição médica, por exemplo, o prazo de espera passa de seis para quatro meses.
No caso de tatuagem, maquiagem definitiva e procedimentos estéticos, como aplicação de botox, preenchimento e microagulhamento, a doação poderá ocorrer após sete dias quando o procedimento for realizado em local que cumpra as normas de segurança. Quando essa avaliação não for possível, o prazo permanece em quatro meses. Para piercing na boca ou na região genital, a doação poderá ser feita quatro meses após a retirada.
Outra mudança envolve o prazo de validade do concentrado de plaquetas, que poderá passar de cinco para até sete dias quando forem adotadas as medidas de controle de qualidade exigidas. A alteração busca reduzir perdas e ampliar a disponibilidade do hemocomponente, utilizado principalmente no atendimento de pessoas com câncer, pacientes submetidos à quimioterapia, pessoas com doenças hematológicas e outras condições que exigem transfusões frequentes.

Doações no Brasil
Segundo dados do Ministério da Saúde, o Sistema Único de Saúde registrou 3.264.138 coletas de sangue em 2025, com uma taxa de 15,29 doações por mil habitantes. O número foi o maior desde o período da pandemia e mostra uma recuperação gradual das doações após a redução registrada em 2020.
Para doar sangue, é necessário estar em boas condições de saúde, pesar pelo menos 50 quilos, estar descansado e alimentado e apresentar documento oficial com foto, que também pode ser apresentado em formato digital. Adolescentes a partir de 16 anos podem se candidatar à doação, desde que tenham autorização do responsável.




