O que deixamos para trás quando o ano vira

À beira de 2026, quatro histórias revelam os pesos, os medos e as certezas que cada um decide abandonar para seguir mais leve

Alexandra Cavaler

Professora da Educação Infantil, mãe da pequena Maria Eduarda e empresária ao lado do marido, Ronaldo Mafioletti, e em meio a lápis de cor, mochilas coloridas e sorrisos de dentes de leite, Maiara Martins encerra 2025 com uma certeza: tudo o que ela aprendeu neste ano — como professora, mãe e empresária — passa, inevitavelmente, pelo afeto. Ela diz que hoje equilibra a docência na educação infantil, a maternidade da pequena Duda, de quatro anos, e ainda divide com o marido a gestão de um pub em Criciúma, onde a rotina é feita de noites longas, conversas rápidas e decisões importantes. É nesse entrelaçar de mundos que Maiara encontra o que deseja deixar para trás quando os ponteiros do relógio tocarem a meia-noite.

Maiara fala com a convicção de quem vive diariamente a essência da infância. Para ela, é urgente que 2025 leve consigo uma ideia ultrapassada: a de que escola boa é escola silenciosa, rígida, previsível. “Deixar para trás os paradigmas de que a escola não pode ser brincante e lúdica, e de que precisa seguir padrões e métodos prontos, é essencial”, diz. Ainda segundo ela, o brincar precisa reassumir o lugar que lhe pertence — o de linguagem da criança, a ponte natural entre imaginação e aprendizado. E isso só acontece quando a escola entende que correr, fantasiar, experimentar, explorar texturas e inventar histórias não é perda de tempo, mas currículo vivo.

Ao romper com modelos engessados, Maiara enxerga espaço para uma prática mais criativa e humana, capaz de acolher as singularidades de cada criança. “Na educação infantil, antes de tudo é preciso ser um ser humano sensível, que acolhe, compreende e cuida das necessidades emocionais das crianças. Só assim a aprendizagem acontece de forma significativa.”

Ao lado da filha e do marido, Maiara diz que todo o aprendizado de 2025 passou pelo afeto

A culpa materna que não segue para 2026

No campo íntimo da maternidade, Maiara reconhece outro peso que não deseja carregar adiante: a culpa. A culpa por não estar sempre presente, por não corresponder a expectativas sociais, por tentar ser muitas ao mesmo tempo: mãe, mulher, profissional, empreendedora.
“Neste ano, aprendi que preciso deixar para trás a culpa constante de não estar fazendo o suficiente”, afirma, com a sinceridade de quem equilibra amor e autocobrança diariamente. E para 2026, ela quer priorizar presença, não a presença marcada pela pressão de estar o tempo todo disponível, mas aquela que realmente importa: atenção plena, diálogo, afeto, escuta atenta. “Quero fortalecer uma relação leve e segura com a minha filha, valorizando os momentos simples, criando vínculos verdadeiros, com paciência, carinho e tempo de qualidade”

O desafio empresarial que encerra no dia 31

Além da docência e da maternidade, Maiara e o marido também vivem o desafio de tocar um negócio próprio. O pub, que movimenta noites e exige disponibilidade constante, trouxe aprendizados e exaustões. O que o casal deixa para trás em 2025? A sobrecarga silenciosa que transformou lazer em reunião e casa em extensão do trabalho. “Queremos encerrar a dificuldade de separar o tempo do trabalho da vida pessoal. É preciso equilíbrio”, completa.

Biólogo e defensor da Mata Atlântica urbana

Vitor quer deixar para trás a idéia de que a natureza é obstáculo ao desenvolvimento

Para o biólogo Vitor Bastos, a virada de 2025 para 2026 precisa marcar o fim de uma visão que ainda sustenta muitas decisões equivocadas: a ideia de que a natureza é um obstáculo ao desenvolvimento. “Enquanto áreas verdes, cursos d’água e animais forem tratados como entraves e não como patrimônio coletivo, continuaremos repetindo erros movidos pela ganância”, afirma.

Ele destaca que o hábito mais urgente a transformar é a postura passiva diante dos problemas ambientais. Separar o lixo ou economizar água ajudam, mas, segundo Vitor, não bastam. “É preciso engajamento, cobrança por políticas públicas, defesa ativa dos espaços naturais. A floresta é a moeda mais importante do planeta — e ainda assim tratamos como se fosse descartável”.

Entre tudo o que viu em 2025, foi a Mata Atlântica urbana que mais o marcou. Em Criciúma, pequenos fragmentos seguem resistindo dentro da cidade, abrigando bugios, felinos e tantas outras espécies que insistem em existir apesar da pressão urbana. “É um símbolo de resiliência, mas também um reflexo da nossa negligência. Quero abandonar a normalização da perda e renovar a defesa desses refúgios”, enfatiza o biólogo.

Se pudesse pedir que cada pessoa deixasse um gesto para trás, ele escolheria a indiferença. “O silêncio e o ‘não é problema meu’ estão entre os maiores inimigos da biodiversidade”, ressalta acrescentando que na sua própria caminhada também faz sua escolha de fim de ano: deixar para trás a expectativa de que a conscientização ambiental seja rápida. “A natureza me ensina que tudo é processo. Assim como uma floresta se regenera devagar, o trabalho de educação e conservação exige paciência, persistência e compromisso contínuo. É isso que levo para 2026”.

Microempresária, mãe e mulher em reconstrução

Maiara aprendeu que delegar e confiar nas habilidades de outras pessoas não diminui sua competência

Para Maiara Machado, microempresária, 2026 começa com um gesto simples e poderoso: deixar de tentar fazer tudo sozinha. Depois de um ano marcado por acúmulos e autocobrança, ela decidiu abandonar a ideia de que precisa dominar todas as áreas da loja para ser uma boa empreendedora. Aprendeu que delegar, planejar e confiar nas habilidades de outras pessoas não diminui sua competência, ao contrário, devolve sua energia, sua criatividade e a leveza que o excesso de funções havia consumido.

Na vida de mãe, o que fica em 2025 é a culpa de querer resolver o mundo para os filhos. “O amor liberta”, ela diz, ao reconhecer que segurar demais impede que cada um siga com sua própria bagagem e autonomia. O ano também ensinou que a autoexigência exagerada não é sinônimo de qualidade. Muitas vezes, o suficiente já é acolhido, já atende, já basta. “Os excessos roubam o brilho das relações saudáveis”, resume.

Entre família e trabalho, 2025 trouxe um espelho incômodo: a carreira vinha sempre antes; e as vitórias, apesar de grandes, eram comemoradas quase sozinha. Agora, ela entende que felicidade completa também é ter com quem dividir o caminho. Em 2026, quer abrir espaço: do seu tempo, da sua vida e de si mesma. E se pudesse deixar um recado a outras mulheres que empreendem e cuidam da família, Maiara não hesita: abandone o medo e a cobrança infinita. “Não vamos ser perfeitas, e ainda assim seremos amadas. Priorize o que realmente importa: a saúde, a família, os amigos, a paz. É isso que sustenta qualquer final feliz”, ressalta.

Professora de Arte e alma da Dinda e Dindo Magia

Ao lado do namorado, Ana decidiu deixar em 2025 o medo de errar

Para Ana Cláudia, professora de Arte no ensino fundamental e animadora de festas ao lado do namorado, Jefferson Claudino Filho, 2026 começa com um alívio silencioso: deixar para trás o peso de achar que precisa segurar o mundo sozinha. Depois de um ano intenso, marcado por comportamentos desafiadores e inseguranças na escola, ela decidiu abandonar a autocobrança e o medo constante de errar. “Quero confiar mais no meu preparo, na minha sensibilidade e no propósito que Deus me confiou”, diz.

Na Dinda e Dindo Magia, onde transforma festas infantis em pequenas histórias inesquecíveis, o que ela deseja encerrar é a sobrecarga emocional de sempre precisar estar forte e animada. Em 2026, Ana quer viver o trabalho com mais leveza, entendendo que nem tudo precisa ser perfeito para ser especial, e que imprevistos não definem a alegria do momento nem a parceria que constrói com Jefferson.

Do convívio diário com as crianças, seja na sala de aula ou no brilho de um aniversário, veio o maior aprendizado de 2025: o essencial é simples. Elas não cobram perfeição; elas pedem presença, afeto, verdade. Por isso, Ana deixa no passado a rigidez, a pressa e as expectativas irreais. E leva para o novo ano a leveza do brincar, a espontaneidade e a coragem de recomeçar todos os dias.

Equilibrar dois trabalhos e a vida afetiva não é fácil, e Ana sabe bem. Por isso, ela escolhe abandonar a ansiedade de controlar tudo e o hábito de antecipar problemas que nem existem. Quer viver a parceria com mais diálogo, confiança e descanso emocional: “Somos um time no trabalho e na vida”. E se pudesse deixar um único sentimento na virada, ela escolheria a sensação de estar atrasada, como se a vida tivesse caminhos que ela deveria ter percorrido antes. Em troca, ela leva para 2026 a energia da restauração e da esperança. “Quero caminhar com fé e paz, sabendo que Deus continua escrevendo minha história no tempo certo”, destaca afirmando que está no caminho certo.

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