Criciúma
Os conteúdos sobre corrida estão em todos os lugares. São dicas de tênis, análises de pisada, treinos compartilhados e milhares de pessoas registrando os quilômetros percorridos e mostrando para todos. Correr virou o esporte do momento, a “academia a céu aberto” que conquista multidões. Mas existe um detalhe que quase ninguém comenta: a corrida pode ser tão transformadora quanto destrutiva, dependendo de como é praticada.
No embalo da “moda”, muitos iniciantes começam a correr sem orientação, sem preparo físico adequado e, principalmente, sem estratégia. Resultado: dores, lesões e frustração.
O médico Francisco Saracuza comenta que o crescimento das comunidades de corrida não é à toa. O esporte é democrático, acessível, barato e oferece benefícios que vão desde a melhora cardiovascular até o alívio de sintomas de ansiedade e depressão. “Ao mesmo tempo em que o movimento ganha força, também cresce um fenômeno perigoso: a exaltação de práticas que podem comprometer a saúde”, adverte o médico.
Influenciadores digitais exaltam desafios de longas distâncias, estimulam treinos diários sem descanso e promovem o consumo de géis de cafeína como se fossem solução milagrosa. O problema? Esse “pacote pronto” raramente considera as particularidades do corpo de quem está do outro lado da tela.
Nutrição: o combustível esquecido
Correr não é só sobre colocar o tênis e ir. A performance e a prevenção de lesões também começam no prato. Os carboidratos são a principal fonte de energia. Quem corta radicalmente os carboidratos tende a sofrer quedas bruscas de rendimento.
Já as proteínas são fundamentais para recuperação muscular. Sem elas, cada treino deixa microlesões que se acumulam em dor e cansaço. As gorduras boas fornecem energia sustentada e auxiliam no equilíbrio hormonal. Hidratação: Beber apenas quando sente sede é um erro. A desidratação pode reduzir a performance em até 20% e aumentar o risco de câimbras e fadiga.
A polêmica dos géis de cafeína e taurina
Os sachês de energia se tornaram praticamente um “kit obrigatório” nas corridas de rua. Mas, usados sem critério, podem ser mais inimigos do que aliados. Caféina: Em doses baixas, pode aumentar foco e retardar a fadiga. Mas o excesso provoca taquicardia, insônia, ansiedade e até arritmias. Taurina: Auxilia na contração muscular e pode melhorar a resistência. Porém, sem acompanhamento, o consumo exagerado pode sobrecarregar fígado e rins.
O erro comum: Muitos iniciantes acreditam que o gel substitui a alimentação, quando na verdade ele deve ser apenas um recurso pontual para treinos ou provas longas.
Como começar na corrida do jeito certo
Apesar dos riscos, começar a correr pode ser uma das melhores decisões para a saúde e o bem-estar, desde que feito com consciência. Francisco aponta alguns pilares essenciais. “É importante começar devagar. Progredir gradualmente é o segredo. Aumentar distância e intensidade rápido demais é o principal erro dos iniciantes”, diz.
O médico ainda cita outros pontos importantes para correr corretamente. “Priorize o descanso: a adaptação do corpo acontece no repouso, não durante o treino. Associe à musculação: O fortalecimento muscular é o que protege articulações e melhora o desempenho na corrida. Alimente-se bem: Carboidratos são combustível, proteínas ajudam na recuperação e a hidratação é indispensável. Busque orientação médica e profissional: Avaliar saúde cardiovascular e estruturar treinos individualizados evita que o entusiasmo se transforme em problema”, pontua.
A corrida pode ser um divisor de águas para quem busca qualidade de vida, energia e clareza mental. Mas ela só cumpre esse papel quando praticada com estratégia. Caso contrário, o que começa como motivação pode terminar em exaustão. “No fim das contas, a corrida não precisa ser só sobre performance ou sobre ‘curtidas’. Pode ser sobre saúde, constância e prazer. Mas, para isso, é preciso lembrar: a linha de chegada mais importante não está em uma prova, mas no próprio bem-estar”, finaliza Francisco.
Os riscos da modalidade que ninguém mostra
Excesso de treino: Sem descanso, músculos e articulações entram em sobrecarga, aumentando o risco de inflamações e lesões por esforço repetitivo.
Alimentação desequilibrada: Treinar em déficit energético ou exagerar em suplementos pode provocar queda de energia, desmaios e até problemas gastrointestinais.
Ausência de treino de força: Ignorar a musculação enfraquece músculos de suporte, deixando joelhos, tornozelos e quadris mais vulneráveis a impactos.
Romantização da exaustão: Correr cansado todos os dias não é disciplina, é sinal de que o corpo está em débito e pode entrar em colapso.




