Criciúma: mais de 4,5 mil famílias vivem em situação de extrema pobreza

Maíra Rabassa
Criciúma

Às margens da ferrovia, por onde passa um rio poluído, uma ponte torta de madeira liga a entrada de uma comunidade. Entre montanhas de entulhos de lixos, naquele pequeno beco, com casebres paupérrimos, encontra-se um bar de chão batido, que no meio da pobreza serve como referência para os moradores da rua Mariano Ferreira, no bairro Renascer, em Criciúma. Conhecida como a “Rua do Adão”, o simples bar é de propriedade de Adílio Monteiro dos Santos, 78 anos. O povo dali tem ele como base na hora do caos, já que seu Adão aluga algumas meias águas na região. “A vida não está fácil, moça”, desabafa o homem sentado em frente ao seu “negócio”.

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Seu Adão mora no local há 28 anos e está nas estatísticas. Assim como a família do idoso, outras 4,5 mil fazem parte da linha de pobreza extrema em Criciúma. Os dados foram revelados pelo setor de Assistência Social do município. Com a pandemia e novo cálculo de
distribuição de renda per capita, um aumento nesse número foi registrado entre 2020 e 2022, quando cerca de 1,5 mil famílias criciumenses entraram para a situação de extrema pobreza, uma alta de 48%.

Sobrevivência
E para sobreviver, essas pessoas buscam no lixo o sustento. “Aqui a maioria vive de reciclagem. Pessoal se vira como pode”, revela Adão. Como é o caso de Paulo de Souza, 49 anos. Sem luvas ou qualquer outra proteção individual, ele caminhava no meio de entulhos de lixos em busca de latas de alumínio para vender na reciclagem. “Não está fácil”, sussurrou enquanto revirava o lugar à procura de latas.

Natural de São Paulo e criado em Minas Gerais, Paulo é separado e, segundo ele, deixou a casa para a ex-mulher e o filho. “Estou desempregado. Não tinha como pagar pensão. Então a casa ficou para eles. Assim ficam seguros”, conta. Desde então, há quatro anos, ele não tem residência fixa. “Estou em situação de rua”, afirma. Perguntado sobre sua saúde, ele diz não saber, pois não lembra quando foi a última vez que esteve num médico.
“Acho que estou bem por enquanto. Não lembro quando fui em um médico”, aponta o catador.

Paulo conta que num dia muito bom consegue até R$ 80,00 com a reciclagem. E com o pouco que ganha tenta sobreviver às ruas da cidade. “Moro há 25 anos em Criciúma e vou
seguindo vivo com o que recolhi do lixo na região. Desde que sendo com honestidade, a gente vai levando como dá”, diz Paulo.

Ajuda vem de doações e benefícios
Para não passar fome, muitos moradores contam com doações das comunidades, benefícios do poder público e trabalhos temporários (bicos). Aos 35 anos, Nani Nascimento mora com mais dois colegas de quarto em uma meia água de assoalho de terra batida,
sem geladeira, com alguns móveis precários e muitas vezes sem ter o que comer.

Desempregada e sem qualificação profissional, Nani conta que vive de doações de alimentos dos amigos e às vezes faz alguns trabalhos de faxina. “Trocou R$50,00 não sobra nada. Faço uns bicos de faxina às vezes. Contamos com a ajuda dos amigos para ter alimento e quando temos, algumas pessoas acabam vindo aqui para comer. O poder público nem sabe que a gente existe”, conta Nani.

A idosa Maria Zeli Nascimento Silva, de 75 anos, avisa que sobrevive com ajuda de auxílios
dos governos. Analfabeta, Maria mora na localidade há 12 anos. “Vim para cá pois minhas filhas se casaram com moradores da cidade. Estou me virando com um salário que recebo do governo”, ressalta a idosa.

Além disso, ela comenta que também quando pode, capina terrenos em troca de dinheiro.
“Tenho meus bichinhos para cuidar que não vou jogar fora. Tenho problemas de saúde e os
remédios estão muito caros”. Gaúcha de Caxias do Sul, Maria ressalta que não consegue
buscar as cestas básicas nas entidades por não ter como pagar o transporte. “As coisas estão muito caras. Às vezes me trazem comida, mas não é sempre. E não consigo ir até os locais, pois aqui o transporte é complicado”, acrescenta.

FAMÍLIAS CADASTRADAS NO CRAS DE CRICIÚMA:

ABRIL DE 2020
Total: 8.387
Extrema pobreza (per capita até R$ 89,00): 3.101
Pobreza (per capita de R$ 89,00 até R$ 178,00):
934

MAIO DE 2022
Total: 10.807
Extrema pobreza (per capita até R$ 105,00): 4.595
Pobreza (per capita de R$ 105,00 até R$ 210,00):
1.105

CADÚnico é a porta de entrada
O Cadastro Social Único é um instrumento que identifica e caracteriza as famílias de baixa
renda, permitindo que o governo conheça melhor a realidade socioeconômica dessa população. Nele são registradas informações como: características da residência, identificação de cada pessoa, escolaridade, situação de trabalho e renda, entre outras.

Desde 2003, o Cadastro Único se tornou o principal instrumento para a seleção e a inclusão
de famílias de baixa renda em programas federais, sendo usado obrigatoriamente para
a concessão dos benefícios do Programa Bolsa Família, da Tarifa Social de Energia Elétrica,
do Programa Minha Casa Minha Vida, entre outros.

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