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segunda-feira, agosto 10, 2026

Três pais, três histórias e um sentimento que atravessa gerações

Professor aposentado e avô, um pai que construiu a família entre Brasil e Estados Unidos e um educador que transforma o esporte em ferramenta de formação mostram que a paternidade se fortalece nos exemplos

Ser pai não é uma experiência que se resume a um único caminho. Ela se transforma com o tempo, acompanha as mudanças da família e ganha novos significados em cada fase da vida. Neste Dia dos Pais, o especial apresenta três histórias que, embora muito diferentes entre si, têm um ponto em comum: a dedicação em formar pessoas por meio do exemplo, do cuidado e da presença. Um professor aposentado que hoje também vive a alegria de ser avô, um mineiro que construiu parte da família entre o Brasil e os Estados Unidos, e um educador esportivo que encontrou nas quadras uma forma de acolher centenas de crianças revelam que a paternidade vai muito além dos laços de sangue.

A história de Marcelo Speck da Rosa é marcada por diferentes formas de viver a paternidade. Professor aposentado, pai, padrasto que se tornou pai de coração e avô, ele descobriu ao longo dos anos que os vínculos mais fortes não são construídos apenas pelo sangue, mas pela convivência, pelo cuidado e pela presença diária.

Nova realidade

Ao formar uma nova família, Marcelo precisou se adaptar a uma realidade diferente. Vieram novos hábitos, rotinas e desafios, mas também uma oportunidade de construir relações baseadas no diálogo e no respeito. “Tive que me reinventar para uma nova vivência. Falando pouco, escutando muito e observando todos no dia a dia”, relembra. Para ele, a construção familiar exigiu equilíbrio: “Saber orientar quando necessário, reconhecer os próprios erros e compreender que cada pessoa tem seu tempo. A experiência mostrou que ser pai também é aprender constantemente. Erramos muito tentando acertar”, afirma.

“O maior presente foi me chamarem de pai”

Essa relação construída com os filhos da esposa ganhou uma das maiores demonstrações de afeto em 2019, quando as duas meninas fizeram um pedido que emocionou Marcelo. “Elas queriam acrescentar meu sobrenome às certidões de nascimento, oficializando um laço que já existia no coração. De pronto, em prantos, lógico que disse que sim. Na manhã seguinte fomos para o cartório oficializar o presente”, conta.

Antes disso, uma frase já havia revelado o significado que ele tinha conquistado na vida delas: a de que Marcelo era alguém em quem elas poderiam se espelhar, admirar e ter como referência. Para o professor aposentado, saber que os filhos podem contar com ele em qualquer situação representa uma das maiores conquistas da paternidade. A ligação entre educar em casa e ensinar em sala de aula também acompanha sua trajetória. Durante décadas como professor, Marcelo levou para a escola valores que também cultivava na família: respeito, responsabilidade e incentivo para que cada criança e adolescente pudesse construir o próprio caminho.

Foto: Nilton Alves/TN Sul

Além da transmissão e entrega de vivências

“Em casa temos o dever de orientar, educar para que tenham um crescimento sadio, nos estudos, respeitosos a todos e equilibrados mentalmente”, explica. Segundo ele, a missão de um educador vai além da transmissão de conhecimento, principalmente diante das diferentes realidades encontradas dentro da sala de aula. Marcelo lembra que muitos estudantes carregam histórias de dificuldades e que, nesses casos, o papel da escola ultrapassa os livros.

“O estudo vai além do prato de comida, mas juntando alimento, conhecimento teórico e carinho, podemos dizer que o que proporcionei valeu a pena”, destaca. Com os filhos adultos e uma família que cresceu com a chegada de genros, nora e netos, a preocupação de pai permanece. O que mudou foi a forma de viver esses momentos. Se no passado a rotina de trabalho deixava menos tempo para os filhos, hoje ele valoriza cada encontro. Um simples almoço em família, segundo ele, se transforma em um grande acontecimento.

Os netos

A chegada dos netos trouxe uma nova experiência, mas não diminuiu o sentimento de cuidado. Marcelo brinca que a ideia de que os avós têm mais tranquilidade é “uma grande mentira”. Para ele, a preocupação continua a mesma: acompanhar, saber como estão e estar presente sempre que necessário. Ao olhar para toda a trajetória, ele aponta que o maior desafio enfrentado foi vencer as doenças. A recompensa, porém, está em tudo o que construiu ao lado da esposa Janete, dos filhos, netos e familiares. “Isto não tem preço, é gratidão sempre”, resume acrescentando que a essência da paternidade está na certeza de que todo amor dedicado retorna multiplicado. “Eu vivo por eles, e me cuido por eles”, afirma.

Sem diferenças

Neste Dia dos Pais, a mensagem que deixa é justamente aquela que resume sua própria história: não existe diferença entre filhos de sangue e filhos do coração. “Traga todos para seu colo, repreendendo quando necessário e amando incondicionalmente. Uma família se faz de união, amor e, principalmente, respeito”.

Entre países e recomeços: estar perto das filhas

A trajetória de Fernando Henrique Soares é marcada por mudanças de caminhos, mas com uma certeza que permaneceu em todas as fases: a família como ponto de equilíbrio. Mineiro de nascimento, ele viveu por anos nos Estados Unidos, onde nasceu a filha mais velha, Anna Clara, antes de retornar ao Brasil e construir uma nova etapa da vida em Criciúma ao lado da esposa Carol e das filhas.

A chegada da primeira filha em outro país trouxe uma experiência intensa. Longe da família e dos vínculos que sempre fizeram parte da sua história, Fernando precisou lidar com os desafios de exercer a paternidade em um ambiente diferente. “Com muito amor e muita responsabilidade, criar uma filha longe de toda nossa família no começo foi bem difícil. Por este motivo resolvemos vir para o Brasil quando a Anna tinha apenas três meses”, relembra.

Apoio da família

Para ele, a presença da família sempre foi fundamental. Mais do que proximidade física, representa apoio, segurança e força para enfrentar decisões importantes. Foi pensando também em oferecer um ambiente tranquilo e seguro para as flhas que ele e a esposa construíram a vida em Criciúma, cidade de origem da família materna. Hoje, ao lado de Anna Clara e Linda, Fernando vive a realização de um sonho antigo. Ele conta que sempre desejou ser pai, e que imaginava a chegada de meninas. “Elas me ensinam todos os dias a ser mais amoroso, respeitoso e muito orgulhoso das mulheres maravilhosas que elas estão se tornando”, afirma.

Dedicação e compromisso

A profissão exige cuidado, paciência e atenção aos detalhes na transformação e preservação de veículos, também influencia a forma como vê a educação das filhas. Para Fernando, os valores aplicados no trabalho fazem parte da construção familiar: dedicação, responsabilidade e persistência. “Valores são importantes para o crescimento e aprendizado. Tento sempre ensinar para elas o caminho correto, guiado por Deus e orientado por nós, pais”, destaca. Ao longo da vida, entre Minas Gerais, Estados Unidos e Santa Catarina, Fernando percebeu que os lugares mudam, mas aquilo que realmente importa permanece.

A família, segundo ele, continua sendo a base para todas as escolhas, mesmo quando existem dificuldades pelo caminho. Uma das imagens que mais representa a paternidade está nos momentos simples da infância das filhas. O abraço depois de um machucado, o colo que traz segurança e a certeza de que, naquele instante, o pai é o lugar onde elas encontram proteção. “O abraço do pai é o lugar no mundo que elas se sentiam seguras”, conta.

Mesmo com a rotina intensa, ele busca preservar momentos exclusivos com as filhas. Para ele, a presença não do tempo, mas da qualidade da atenção dedicada. Almoçar juntos, levá-las para a escola ou simplesmente reservar um tempo em que elas tenham toda a atenção do pai fazem parte dessa construção diária.

Foto: Divulgação

Legado é a memória de ser atuante

Para Anna Clara e Linda, o legado que ele deseja deixar vai além de conquistas materiais. Fernando espera que as filhas cresçam carregando valores como empatia, respeito e capacidade de ouvir o próximo, mas principalmente que reconheçam o próprio valor. “Que aprendam com o meu cuidado a ter amor próprio, sabendo exatamente o valor que possuem e não aceitando menos do que merecem”, afirma.

Coração inteiro

Neste Dia dos Pais, a mensagem de Fernando resume a forma como ele enxerga a paternidade: presença é o maior presente que um filho pode receber. “Para os nossos filhos, nós não somos o cargo que ocupamos ou o dinheiro que trazemos para casa. Nós somos o tempo que dedicamos a eles”, diz completando: “Estar presente não exige o dia todo, exige o coração inteiro. A infância deles passa num sopro, mas a memória de um pai presente dura para sempre”.

Entre as quadras e a família: maior legado é formar pessoas

Para Jean Reis, coordenador do Projeto Anjos do Futsal, treinador e pai de Lucas e Ana Júlia, a missão de educar ultrapassa os limites da própria família. Há anos dedicando a vida ao esporte de base, ele concilia a paternidade com a responsabilidade de orientar centenas de crianças e adolescentes, sempre guiado pelos mesmos princípios. “Ser pai do Lucas e da Ana Júlia e, ao mesmo tempo, ser referência para outras crianças e adolescentes é uma grande responsabilidade, mas também um privilégio. Eu procuro agir da mesma forma dentro e fora de casa, transmitindo valores como respeito, disciplina e dedicação”, afirma.

Para ele, os filhos cresceram acompanhando o trabalho desenvolvido no Anjos do Futsal e entendem que o tempo dedicado ao projeto também faz parte de uma missão maior. “Esse é o maior legado que posso deixar, tanto para os meus filhos quanto para cada criança e adolescente que passa pelo projeto”, destaca.

Confiança

Ao longo da trajetória como treinador, Jean ouviu inúmeras vezes que era considerado um “segundo pai” por atletas. O reconhecimento, segundo ele, representa uma das maiores recompensas da profissão. “Ser chamado de ‘segundo pai’ é uma das maiores honras que um treinador pode receber. Isso demonstra que o trabalho vai muito além de ensinar fundamentos do futsal. Conseguimos conquistar a confiança dessas crianças e de suas famílias, sendo referência nos momentos de alegria, de dificuldade e de crescimento”, comenta. No Anjos do Futsal, ele ressalta que o principal objetivo nunca foi apenas formar atletas. “Nem todos os meninos vão se tornar jogadores profissionais, mas todos podem se tornar homens de caráter, responsáveis e preparados para a vida”, completa.

Foto: Érik Borges/TN Sul

Experiência ganhou significado especial

A experiência também ganhou um significado ainda mais especial quando o filho passou a seguir os seus passos no esporte. Jean conta que procura separar claramente os papéis de pai e treinador. “Dentro da quadra, procuro tratá-lo como trato qualquer outro atleta, cobrando dedicação, disciplina e respeito às regras. Já fora da quadra, volto a ser apenas pai, apoiando, orientando e mostrando que o amor não depende de vitórias, derrotas ou desempenho”, afirma.

Segundo ele, o maior desejo não é que Lucas siga carreira no esporte, mas que carregue para a vida os valores aprendidos dentro dele. Depois de tantos anos acompanhando crianças desde os primeiros passos nas quadras, Jean se emociona ao reencontrar antigos alunos que construíram histórias de sucesso. “É gratificante encontrar ex-atletas que hoje são pais de família, professores, trabalhadores e cidadãos que fazem a diferença em suas comunidades. Quando vejo uma criança aprender a respeitar o colega, superar uma derrota ou acreditar no próprio potencial, tenho a certeza de que estamos cumprindo o nosso propósito”, relata.

Histórias

Entre as histórias que mais marcaram sua trajetória está a de Ricardo Vieira dos Santos, ex-atleta do projeto que realizou o sonho de ingressar no Corpo de Bombeiros após conquistar oportunidades por meio do esporte e da educação. “Histórias como a dele mostram que o esporte abre portas, cria oportunidades, transforma vidas e permite que crianças e jovens enxerguem novos caminhos por meio da educação, da disciplina e da dedicação”, destaca Jean acrescentando que os ensinamentos do esporte caminham lado a lado com aqueles transmitidos dentro de casa. “Respeito, responsabilidade, comprometimento, coragem e trabalho em equipe fazem parte tanto da formação de um atleta quanto da missão de um pai”.

Esporte x tecnologia

Ele também acredita que, em uma época marcada pelo uso constante da tecnologia, o esporte se torna uma ferramenta essencial para fortalecer os vínculos familiares. “Quando os pais acompanham os treinos, incentivam os filhos, estão presentes nas competições e celebram cada pequena conquista, eles constroem lembranças que ficarão para a vida toda. A tecnologia pode ser uma aliada, mas ela nunca substituirá um abraço depois de uma partida ou o orgulho estampado no olhar dos pais”, observa.

Neste Dia dos Pais, Jean deixa uma mensagem baseada na experiência que vive diariamente, tanto em casa quanto nas quadras. “O maior presente que um pai pode oferecer aos filhos é a presença. Estar na arquibancada, acompanhar um treino, incentivar depois de uma derrota e comemorar cada pequena conquista vale muito mais do que qualquer medalha ou troféu. Os campeões não são aqueles que levantam mais troféus, mas os pais que conseguem formar filhos de caráter, preparados para a vida e conscientes de que nunca caminharam sozinhos. Esse, sem dúvida, é o maior legado que um pai pode deixar”.

Leia esta matéria especial na edição deste fim de semana do jornal impresso Tribuna de Notícias.

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