Região Sul conta com 8,7 mil cirurgias eletivas em espera

Érik Borges

Criciúma

A situação de milhares de pessoas na região, ao aguardar pelo Governo do Estado, é desanimadora. São anos de espera por cirurgias eletivas que não têm previsões, enquanto novas cirurgias são marcadas e se acumulam as 8,7 mil já em espera no Sul do Estado, que compreende os municípios das regiões Carbonífera (Amrec), Extremo Sul (Amesc) e Laguna (Amurel).

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Na tentativa de diminuir a fila de espera, entre os dias 18 e 24 de fevereiro deste ano o Governo do Estado promoveu a realização de 249 cirurgias na região. Mas isso não interferiu muito na gigantesca fila de mais de oito mil pacientes aguardando ansiosamente.

Como é o caso de Marilete de Souza Bitencourt Pedro, de 50 anos, que já está há três aguardando por uma cirurgia nos rins, por conta de um cálculo renal grave. “As pedras nos rins estão calcificadas e não tem como dissolver. Só é possível com cirurgia especializada, em Florianópolis, onde já há encaminhamento”, conta Marilete.

Ela tem acompanhamento com médico da região, mas não há mais nada o que fazer sem que antes seja feita a cirurgia nela. E essa espera que já dura três anos é acompanhada de uma dor diária que só alivia com morfina.

“Sinto dor o dia inteiro  e tenho que ficar a maior parte do tempo deitada ou sentada. Também não posso pegar muito peso. Eu vomito direto e a situação está bem critica. Parece que a casa dia  piora mais” acrescenta Marilete.

Marilete tem seis cálculos renais e busca por uma previsão de quando a cirurgia será realizada. “Só dizem que está na fila de espera, em caráter emergencial, mas não dão um prazo”, diz Marilete. A reportagem do TN tentou entrar no site, criado pelo do Governo do Estado, com o intuito de divulgar a fila de espera dos pacientes com cirurgias eletivas. Porém, ele está fora do ar há mais de uma semana.

Sofrimento

“Eu não sei mais nem onde recorrer. Tem dia que dá até um desespero, porque é muito sofrido. Ainda essa semana eu tive que ir na UPA no Rio Maina para receber soro em razão do estado debilitado que eu estava”, lembra Marilete, que mora no Rio Maina, em Criciúma.

Das vezes que ela procurou UPA ou hospital, foi informada que a única solução para o caso dela é uma cirurgia. “Só me dão medicação e vou embora. Depois passa o efeito da medicação e volta tudo de novo a dor”, revela Marilete.

Consequências

O problema que acomete os rins da paciente está causando consequências graves. Marilete conta que já desenvolveu quadro de depressão por conta do sofrimento nós últimos anos causado pelos cálculos renais e pelo longo período de espera para a cirurgia.  “Também tomo remédio para pressão arterial, tudo por conta da dor nos rins, que é muito forte. Tomo remédio para dormir e também para controlar a ansiedade”, pontua Marilete.

Ministério Público

A 33ª Promotoria de Justiça da Capital, com atribuição estadual na área da saúde, tem inquéritos civis instaurados para apurar a fila de espera por cirurgias de doenças específicas. Há apuração sobre demanda reprimida de cirurgia para retirada de pedra da vesícula (colecistectomia); na realização de procedimentos cirúrgicos neurológicos para remoção de tumor (câncer); para tratamento renal; de angioplastia intraluminal de casos dos pescoços ou troncos supra-aórticos (com stent não recoberto); e sobre a morosidade da fila de consulta/procedimento cirúrgico na especialidade de urologia.

O Promotor de Justiça Fabrício José Cavalcanti está avaliando a possibilidade de instaurar um procedimento único para apurar a situação de todas as filas de espera de âmbito estadual para cirurgias de todas as especialidades.

Preocupação dos deputados estaduais

O grande número de pessoas que aguardam por uma cirurgia eletiva na rede pública ganhou destaque também na Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Segundo informações levantadas pelo Ministério Público Estadual, mais de 140 mil catarinenses esperam por uma cirurgia eletiva.

O deputado Neodi Saretta, presidente da Comissão de Saúde na Alesc conta queo grande gargalo é a questão das cirurgias eletivas. “Tem gente que está há quatro anos esperando, a fila aumentou na pandemia, os leitos de UTI estavam ocupados, mas é preciso que se analise também a questão de que não basta ter vontade e disponibilizar recursos. É preciso ver a forma de contratação também dessas cirurgias”, diz Saretta.

O secretário-adjunto da Secretaria de Estado da Saúde, Alexandre Fagundes, reafirmou o compromisso em propor ações para diminuir a fila de espera pelas cirurgias eletivas em uma audiência pública realizada na Alesc em fevereiro deste ano.

“A secretaria de Estado tem feito uma força-tarefa desde o segundo semestre do ano passado. Nós conseguimos colocar um ritmo satisfatório realizando em torno de 12 mil cirurgias de agosto a dezembro e estamos buscando manter essa produção no início deste ano. Estamos com várias ações, fazendo com que os planos operativos sejam de fato disponibilizados para que a população tenha acesso, e estamos destacando convênios com a rede hospitalar para cirurgias eletivas para ter uma oferta maior”, afirma Fagundes.

Sofrimento

A moradora de Içara, Larissa Vieira Pinto, de 25 anos, descobriu que tinha pedras na vesícula em 2019. De lá para cá, ela passou por consultas e exames que resultaram em um  encaminhamento para passar pelo cirurgião.

“Em 2021 eles me chamaram para uma consulta em março, quando eu cheguei lá na consulta, eles cancelaram sem avisar. Em novembro de 2021 me chamaram novamente para a consulta com o cirurgião, agora estou aguardando para ser chamada para a cirurgia”, diz Larissa.

Nesses três anos de espera, ela emagreceu 17 quilos, por que nem muita água pode tomar, para evitar as dores na vesícula. “Estou há quase três anos esperando por essa cirurgia. Já fui muitas vezes no pronto-atendimento sentindo fortes dores”, pontua Larissa.

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