Criciúma: Há 12 anos, projeto semeia esperança

Sediado nos bairros Boa Vista e Rio Maina, o Sementes Para o Futuro já colaborou, em mais de uma década de existência, com o desenvolvimento de quase 1000 crianças em situação de vulnerabilidade social

Tiago Monte

Criciúma

Há 12 anos, em outubro de 2014, o ex-jogador de futebol Marcelo David, o Marcelinho, de 49 anos, inaugurava o projeto Sementes Para o Futuro. Com o intuito de auxiliar no desenvolvimento de crianças e adolescentes –  e, principalmente, tirá-los do caminho das drogas e do crime – o criciumense deixou a coordenação de um Centro Terapêutico para se dedicar aos pequenos. “A gente tem trabalhado muito forte a formação do cidadão, do homem e da mulher, oferecendo alguns trabalhos. Eu trabalhava com homens com problema de álcool e droga e o índice de recuperação é muito baixo. Como sou ex-atleta, disse: ‘cara, porque não trabalhar com esporte, criança, prevenção?’ Então, fui lá para o Boa Vista, em 2014, nas escolas, e comecei a fazer a divulgação”, lembra Marcelinho.

O sucesso foi mais rápido do que ele esperava. “Por se tratar de futebol, trabalho social de graça, na primeira semana já vieram 80 alunos. De lá para cá, a gente vem desenvolvendo, semana a semana, mês a mês, naquela ideia que a gente teve lá atrás, que é formar cidadão – e isso a gente não abre mão. Atleta, eu sei que nem todo mundo vai ser, porque eu estive lá dentro dos 8 até 27 e eu sei que precisa de muita coisa, mas dentro do esporte, se consegue formar cidadão”, comenta o fundador.

Desde 2014, quase 1000 crianças já passaram pelo projeto. Hoje, ele atende crianças entre 5 e 15 anos. Porém, aqueles que passam da idade máxima podem continuar no projeto, mas como uma espécie de auxiliares. “Nós entendemos, ao longo desses anos, que essas crianças e famílias só precisam de uma oportunidade e ter um mínimo de dignidade. Para competição, a gente trabalha até, no máximo, 15 anos. Hoje, para levar um menino de 15 anos a um clube, ele tem que estar pronto. Tem menino estourando até antes, já com pré-contrato. O Profissional já usa meninos com 14, 15 anos. Tem que estar pronto. Mas sempre tem um caso ou outro que fica ali porque gosta. E eu vou mandar embora? Não vou, né? Melhor estar ali comigo do que pela rua”, defende Marcelinho. “E aí vão atingindo a idade e seguindo as vidas. Vão para o primeiro emprego, como menor aprendiz, e eu fico feliz, porque, não deu na carreira do esporte, mas está encaminhado como cidadão. Eu tenho meninos com 18, 19 que são ex-aluno e estão ali me ajudando. Eles praticam as atividades e são praticamente um auxiliar, mas porque gostam. Eles têm amigos porque chegaram no primeiro ano de projeto. Eu fico feliz e celebro ”, completa.

Atualmente, são 140 crianças atendidas, em dois núcleos: Boa Vista e Rio Maina. Além disso, o fundador ampliou também a oferta de esportes. “Eu também entendi que nem todo mundo gosta de bola, por incrível que pareça, e a gente precisa democratizar também o trabalho. O jiu-jitsu é um esporte que está muito em evidência e ajuda muito as crianças com problema de atenção, hiperatividade. O Jiu-Jitsu ele trabalha isso: a individualidade, concentração, disciplina, respeito… Como todas as artes marciais. Então veio agregar muito no meu trabalho”, destaca.

Acompanhamento total nas atividades escolares

O fundador do projeto não abre mão de acompanhar de perto a vida escolar dos integrantes do Sementes Para o Futuro. E cobra boas notas. “É uma prestação de conta. Um dos requisitos para estar ali é ter bom rendimento e comportamento na escola e em casa. É uma forma que, no bom sentido, a gente encontrou de puni-los. Se não tiver uma nota boa, não vai pro jogo. Se tiver reclamação do pai, do professor, tu vai ficar uma semana pensando. Pode ser o craque do time. Eu digo: vou te dar um prazo. Chamo ele de cantinho, para não expor, e digo ‘Eu vou te dar um prazo. Tens um mês para melhorar, depois vamos conversar de novo’. É dessa forma. Eu sei porque tenho filhos. Se tu não colocar limite e tocar naquilo que gosta… Não anda”, conta. E a cobrança dá resultado. “Imagina: falar que não vai pro jogo, que não vai pro treino. É a paixão deles”, diz Marcelinho.

O fundador diz que os relatos de mães e de professores são altamente positivos, após os alunos ingressarem no projeto.“Melhorou o comportamento e o rendimento das crianças. Então, isso tudo para mim é ganho e eu celebro, porque esse é o meu trabalho: é poder contribuir de alguma forma para esses meninos. Eu entendo que a gente precisa de uma sociedade melhor e o melhor caminho ainda é prevenção, educação e esporte. Embora eu entenda que esse tempo pode ser pouco para nós, mas aquilo que a gente realiza é gigante”, pontua.

Marcelinho dedica os finais de semana para acompanhar a rotina das famílias dos alunos. “Essa é outra coisa que eu entendi: a gente precisa fazer esse paralelo, porque, às vezes, tu prega uma coisa no campo, chega em casa, na realidade é outra: o pai tá preso, tu não tem nem comida na mesa. Daí a mente da criança fica meio confusa”, comenta.

Doações não precisam ser apenas financeiras

Marcelinho ressalta que as doações não precisam ser, necessariamente, financeiras. “Por exemplo, de vez em quando, vai um atleta do Criciúma e, para um menino, ter contato com um jogador, é o máximo. Às vezes, fazer uma visita, dar uma palestra, doar o teu trabalho. Psicólogo é importante: fazer uma terapia com o menino, visitar o pai. Então, às vezes, não é só dinheiro, que é importante. Às vezes, pode ser uma cesta básica, uma fruta para os meninos, porque outra coisa que eu celebro é que ninguém sai de barriga vazia. Ninguém. Seja um lanche ou uma fruta. Eu sei que tem criança lá que não duas refeições. Então, como é que vou cobrar do menino um trabalho de potência e de futebol?”, comenta.

O fundador diz que o programa está inscrito no Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA). E recebe doações de colaboradores espontâneos. “Por nosso projeto estar redondinho, vem uma verba que é do Fundo da Infância e Adolescente. Então, vem uma verba para 22 instituições, é rateado, e, anualmente, a gente tem ali 15, 20 mil que é pra investir em materiais esportivos. A gente conseguiu comprar um veículo próprio também com uma verba dessas, mas a maioria são colaboradores espontâneos, que me conhecem diretamente. Não é uma receita fixa, mas é o que me manteve até aqui em 10 anos”, ressalta.

Além disso, Marcelinho ressalta que os meninos têm muitos benefícios. “Corte de cabelo, porque tem gente que faz permuta. Agora, no último mês, nós fizemos uma ação no bairro com exames gratuitos de oftalmologia e, dentro desses exames, seis alunos não passaram nos exames ou apontaram algum tipo de problema. E aí, no segundo modo, nós levamos em clínicas particulares aqui da cidade e, posteriormente, finalizamos com a entrega dos óculos, numa parceria que nós temos com a Guzzatti. Então, isso é dignidade. O que o meu filho tem, o acesso que o meu filho tem, o meu aluno tem. São benefícios que somando vão agregar na formação”, finaliza.

Dias e horários das aulas

Futebol

Boa Vista – quarta e sexta

Rio Maina – terça e quinta

Jiu-Jitsu

Boa Vista- quintas-feiras à noite

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