A crise interna no Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou novos contornos nesta semana. Antes mesmo da tumultuada sessão desta terça-feira (15), ministros da Corte já protagonizavam discussões duras em conversas privadas, com cobranças, acusações e respostas em tom elevado.
Mensagens divulgadas inicialmente pelo Metrópoles e confirmadas pela Folha de S.Paulo mostram embates de Gilmar Mendes com Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. Em um dos diálogos mais tensos, o decano do STF afirmou a Nunes Marques: “Assumam que estão ferrados” e cobrou que ministros mencionados no caso Master deixassem processos relacionados ao episódio.
Nunes Marques reagiu: “Me respeite, Gilmar. Isso não é postura”.
A discussão não parou por aí. Gilmar respondeu afirmando que não respeitava “quem não se dá respeito”, cobrou a abertura das contas de Nunes Marques e ainda declarou que o ministro deveria deixar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do qual é presidente.
Nunes Marques afirmou que prestava contas de sua vida como magistrado havia 15 anos e, posteriormente, bloqueou Gilmar Mendes no WhatsApp. As conversas ocorreram na semana anterior à sessão extraordinária desta terça-feira e em meio às disputas internas relacionadas ao caso do Banco Master.
Fux manda Gilmar “não encher meu saco”
Luiz Fux também entrou em confronto com Gilmar Mendes.
Em mensagens divulgadas nesta terça-feira, Gilmar questionou a atuação de Fux na presidência da Segunda Turma e cobrou o que classificou como “postura institucional”.
Fux reagiu dizendo que ninguém diria a ele como agir. Depois de nova mensagem de Gilmar pedindo que o colega cuidasse de sua atuação como presidente da Turma, veio uma resposta ainda mais direta:
“Cuide de não encher meu saco!”
A discussão tinha como pano de fundo divergências sobre decisões tomadas no caso Master e o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Gilmar questionava a atuação de Fux, André Mendonça e Nunes Marques naquele julgamento.
Caso Vorcaro coloca Supremo sob pressão
A divulgação das mensagens ocorreu justamente quando o STF se preparava para analisar um relatório da Polícia Federal envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Segundo o próprio Supremo, a Petição 16.662 tem origem em relatório elaborado pela PF a partir de informações extraídas do celular de Vorcaro e aponta supostos diálogos relacionados a Moraes.
Outras mensagens extraídas do aparelho também passaram a citar pessoas ligadas a integrantes do Supremo, incluindo familiares de Nunes Marques e Fux. Os ministros negam envolvimento em irregularidades.
O clima reservado dos aplicativos acabou se repetindo diante das câmeras.
Durante a sessão desta terça-feira, Gilmar Mendes e André Mendonça protagonizaram um forte bate-boca sobre a condução das apurações. A sessão extraordinária havia sido convocada pelo presidente do STF, Edson Fachin, justamente para tratar da situação envolvendo Moraes e Vorcaro.
Sessão termina sem decisão sobre Moraes
Apesar de horas de discussão, o Supremo não chegou ao mérito da questão e, portanto, não decidiu se Alexandre de Moraes poderá ou não ser investigado.
Antes disso, os ministros passaram a discutir uma questão preliminar: se o caso de Moraes deveria ser analisado juntamente com outro procedimento relacionado à atuação de André Mendonça no caso Master.
O placar estava em 4 votos a 3 quando Flávio Dino pediu vista e suspendeu o julgamento. Com isso, não há data definida para a retomada dessa análise.
O próprio STF informou oficialmente que o mérito da Petição 16.662 não chegou a ser examinado.
O resultado foi uma das sessões mais tensas da Corte nos últimos tempos: acusações diante das câmeras, divergências sobre a condução dos processos e, agora, a revelação de que os confrontos entre os ministros já vinham acontecendo longe do plenário.




