Antes mesmo de o dia começar para boa parte dos criciumenses, equipes da Assistência Social já circulam pela cidade em abordagens a pessoas em situação de rua. Entre ações como essa e o acolhimento de mulheres vítimas de violência, acompanhamento de crianças, adolescentes e idosos e atendimento a famílias em vulnerabilidade, a rotina da secretária Dudi Sônego é marcada pelo contato com diferentes realidades.
À frente da Secretaria de Assistência Social e Habitação há um ano e nove meses, Dudi conhece esses trabalhos de diferentes pontos de vista. São 24 anos de atuação na área, período em que passou por serviços de habitação, Cadastro Único, CRAS, acolhimento de crianças e adolescentes e coordenação de serviços. Agora, como secretária, acompanha a rede responsável por atender milhares de famílias e diferentes públicos em situação de vulnerabilidade em Criciúma.
Entre as ações destacadas pela atual gestão estão a ampliação das vagas para tratamento de dependência química, a criação do programa Criciúma Recomeça, a abertura de um abrigo para mulheres vítimas de violência, a implantação do Família Acolhedora e a ampliação da estrutura destinada ao atendimento especializado.
Os resultados e os desafios, porém, aparecem em meio a uma demanda que continua grande. Atualmente, aproximadamente 13 mil famílias estão cadastradas no Cadastro Único no município, enquanto cerca de 5 mil recebem o Bolsa Família. Já o diagnóstico mais recente da população em situação de rua identificou aproximadamente 170 pessoas que vivem nessa realidade.
Por trás desses números estão histórias de rompimento de vínculos, violências, dependências químicas, abandono… mas também de pessoas que conseguiram reconstruir parte de suas trajetórias com o apoio da rede. É nesse cenário que Dudi e cerca de 100 trabalhadores da Assistência Social atuam diariamente, distribuídos entre os serviços de proteção social básica e especial.
170 pessoas em situação de rua
O atendimento à população em situação de rua é um dos principais desafios da Assistência Social de Criciúma, segundo Dudi. O diagnóstico realizado recentemente pelo município traçou um perfil desse grupo. O resultado apontou que cerca de 80% das pessoas são homens e 20% são mulheres. Outro dado que chama a atenção é que aproximadamente 90% fazem uso ou abuso de álcool e outras drogas.
Os motivos que levam as pessoas às ruas, porém, são variados. O levantamento mostrou que 40% chegaram à situação de rua principalmente por questões relacionadas às drogas, enquanto 35% foram para as ruas por algum tipo de conflito ou rompimento familiar.
Ainda segundo o levantamento, o bairro Pinheirinho concentra aproximadamente 43% das pessoas em situação de rua identificadas no município, enquanto outros 35% estão na região central. De acordo com a secretária, a concentração no Pinheirinho já era conhecida e apenas foi confirmada pelo diagnóstico. A região reúne fatores que favorecem a permanência dessas pessoas, incluindo questões relacionadas ao tráfico de drogas.
Abordagens a pessoas em situação de rua
A abordagem feita pelas equipes não segue um modelo único. Cada pessoa é avaliada de acordo com sua realidade e recebe um encaminhamento diferente. Quem deseja retornar à cidade de origem, por exemplo, pode receber passagem. Pessoas que aceitam tratamento para dependência química são encaminhadas pela Assistência Social para vagas disponibilizadas pela Secretaria de Saúde. Em casos de rompimento de vínculos familiares, a equipe do Centro POP também pode atuar na tentativa de restabelecer o contato com familiares.
“Cada pessoa tem um perfil, tem uma necessidade diferente e uma situação a ser trabalhada com as suas individualidades. Então, não dá para botar todos numa bolha e tratá-los da mesma forma. A gente precisa identificar cada um na sua situação”, pontua.

Tratamento e programa de recomeço
Segundo Dudi, quando a atual gestão assumiu, no início de 2025, uma das primeiras ações diante do crescimento da demanda foi a ampliação das vagas para tratamento de dependência química. De acordo com ela, o número de vagas foi triplicado.
A ampliação, porém, trouxe outra necessidade: garantir o acompanhamento das pessoas depois do tratamento. Por isso, a equipe do Centro POP também foi ampliada para acompanhar quem passa pela recuperação e trabalhar possibilidades de retorno à família ou de construção de uma nova trajetória.
Para pessoas consideradas em situação crônica de rua, que romperam os vínculos familiares e não têm para onde retornar depois do tratamento, o município trabalha na implantação de uma estrutura chamada Central do Recomeço. A proposta pretende garantir acolhimento e encaminhamento ao mercado de trabalho.
Enquanto o complexo não é concretizado, o município colocou em funcionamento o programa Criciúma Recomeça, que está há cinco meses em atividade. A iniciativa oferece capacitação e qualificação e permite que pessoas que estavam em situação de rua participem de atividades de zeladoria do município. Elas recebem uma bolsa equivalente a um salário mínimo, sem vínculo empregatício com a Prefeitura.
O programa possui 30 vagas e, atualmente, todas estão preenchidas. Segundo a secretária, há participantes que passaram a receber o benefício do aluguel social e outros que conseguiram retornar para suas famílias. A iniciativa também inclui atividades recreativas e esportivas nos fins de semana, como partidas de futebol, com o objetivo de contribuir para a ressocialização.
A questão habitacional também faz parte dos encaminhamentos, além do aluguel social, a Secretaria atua com regularização fundiária e trabalha na implantação do programa Casa Catarina, do Governo do Estado. Criciúma deve receber 43 unidades habitacionais pelo programa, em formato de casas. A iniciativa ainda está em tramitação burocrática.
Internações involuntárias
A Assistência Social também atua em conjunto com a Secretaria de Saúde nos casos em que há necessidade de internação involuntária por dependência química. A identificação pode ocorrer durante as abordagens nas ruas, quando a equipe percebe que uma pessoa não consegue mais discernir a necessidade de tratamento.
Antes de chegar à internação, são buscadas outras alternativas, como atendimento pelo Consultório na Rua, encaminhamento para CAPS e tratamentos voluntários. Quando essas possibilidades são esgotadas, a avaliação e o laudo para uma eventual internação involuntária ficam sob responsabilidade médica.
Segundo Dudi, o município já realizou três internações, com pacientes que permaneceram em tratamento por dois meses antes de receber alta. Posteriormente, foram realizadas outras três internações. A secretária explica que o procedimento tem custo elevado porque precisa ocorrer em estrutura hospitalar, diferentemente das internações voluntárias, que contam com 150 vagas mencionadas por ela.
Abrigo para mulheres vítimas de violência
Outra mudança importante que ocorreu na atual gestão, destacada pela secretária, foi a reabertura do abrigo para mulheres vítimas de violência, que estava fechado há cerca de 10 anos.
A nova unidade começou a funcionar no fim de agosto deste ano e, após um mês de atividade, já havia acolhido quatro mulheres.
Antes da abertura do espaço, mulheres que precisavam deixar suas casas por medida de proteção e não tinham familiares ou pessoas próximas que pudessem acolhê-las eram encaminhadas para quartos de hotel. Segundo Dudi, embora houvesse acompanhamento da equipe do CREAS, o formato não oferecia a estrutura considerada adequada para esse tipo de atendimento. O novo abrigo funciona em uma casa adaptada, com equipe técnica permanentemente no local.
“O abrigo é uma casa, diferente dos quartos de hotel que usávamos antes. A equipe não precisa ser chamada quando precisa, porque ela já está lá dentro, e é mais seguro para as mulheres e para as crianças também. Porque no hotel a gente teve situações do agressor tentar se hospedar no mesmo lugar que a vítima”, comenta.
A proposta é que o acolhimento seja temporário. As crianças continuam frequentando a escola e as mulheres são incentivadas a manter ou buscar trabalho. Para aquelas que não possuem emprego, a equipe atua no encaminhamento ao mercado de trabalho.
Segundo a secretária, as mulheres também estão entre o público prioritário do aluguel social, um benefício que pode auxiliar durante os seis primeiros meses após a saída do abrigo, período em que a mulher busca recuperar a autonomia e estabelecer uma nova moradia com os filhos.
A intenção do município é, futuramente, disponibilizar vagas para mulheres de outras cidades da região, já que, segundo Dudi, outros municípios também enfrentam a necessidade de acolhimento e muitas vezes utilizam hotéis para atender esses casos.
70 crianças e adolescentes estão acolhidos em Criciúma
Outro importante serviço executado pelo município e que passou por mudanças foi a rede de acolhimento para crianças e adolescentes. Quando Dudi assumiu, havia três serviços de acolhimento: o Nossa Casa, o Lar Azul e o Florescer. No início da gestão, foi necessário abrir o Florescer 2, que começou com 20 vagas e rapidamente atingiu a capacidade máxima.
Atualmente, 70 crianças estão acolhidas pelo município. A rede possui 69 vagas em abrigos, todas preenchidas, além de crianças e adolescentes acolhidos por famílias cadastradas no serviço Família Acolhedora.
Essa iniciativa foi implantada pela Secretaria em julho de 2025 e, hoje, Criciúma possui três famílias acolhedoras, embora o número já tenha chegado a cinco desde a criação do serviço. A modalidade permite que crianças e adolescentes sejam acolhidos temporariamente dentro de um ambiente familiar, em vez de permanecerem em uma instituição.
Para participar, a família precisa ter pelo menos 21 anos, morar em Criciúma, ter a concordância de todos os integrantes da família e disponibilidade para acompanhar a criança ou adolescente em atividades como escola e demais encaminhamentos. A família também passa por cursos de capacitação e acompanhamento psicossocial para preparar os integrantes para receberem os acolhidos. Caso a família seja avaliada como apta, ela recebe mensalmente um subsídio equivalente a um salário mínimo.
A secretária ressalta, porém, que o processo exige disponibilidade e preparo emocional para lidar com crianças e adolescentes que podem chegar ao acolhimento após situações de violência e outros traumas.

Mais de 60 idosos em instituições
Outro serviço que, segundo a secretária, recebe menos visibilidade mas é igualmente essencial, é o acolhimento de idosos. Atualmente, mais de 60 idosos são atendidos pelo município em diferentes Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs).
São pessoas que estavam em situação de abandono ou cujas famílias não possuem condições de oferecer os cuidados necessários. Em alguns casos, os familiares precisam trabalhar e não conseguem deixar o emprego para cuidar do idoso, enquanto também não têm condições financeiras para contratar um cuidador particular.
O encaminhamento pode ocorrer após uma solicitação da própria família, mas também a partir do acompanhamento realizado pelo CREAS. A equipe técnica avalia cada situação e pode identificar a necessidade de acolhimento.
Segundo Dudi, uma das mudanças adotadas pela gestão foi ampliar a atuação da equipe técnica nesses casos. Antes, segundo ela, havia situações em que o acolhimento era realizado somente mediante determinação judicial. Atualmente, quando a equipe identifica uma situação de violência ou vulnerabilidade que exige acolhimento, o município pode agir sem necessariamente aguardar uma decisão judicial.

Nova sede do CREAS
Outra mudança está em andamento: a transferência do CREAS para uma sede própria e mais ampla. O serviço funcionava até então onde ficava a antiga Prefeitura, na região dos Camelôs.
O novo espaço fica no bairro São Luís, em uma estrutura que anteriormente funcionava como creche. A mudança está em andamento e a previsão apresentada pela secretária é de que a nova sede comece a funcionar ainda neste ano.
Resultados visíveis
Para Dudi, a experiência acumulada ao longo de 24 anos trabalhando na área contribuiu para identificar necessidades da rede. Ela começou a atuar na Assistência Social em 2002, como estagiária na área de habitação, e desde então passou por setores como habitação, Cadastro Único, CRAS, acolhimento de crianças e adolescentes e coordenação de serviços.
À frente da Secretaria há um ano e nove meses, ela aponta a ampliação dos serviços e, principalmente, a valorização do olhar técnico das equipes como algumas das mudanças da gestão.
Apesar dos avanços, Dudi considera que a falta de um orçamento próprio é um dos principais desafios da Assistência Social. Segundo ela, enquanto a educação possui garantia constitucional de 25% do orçamento e a saúde de 15%, a assistência social ainda luta para garantir pelo menos 1%. Atualmente, aproximadamente 90% dos serviços oferecidos pelo município são custeados com recursos próprios, enquanto 10% vêm de recursos estaduais e federais.
Para a secretária, os resultados aparecem principalmente quando os serviços conseguem ajudar uma pessoa a reconstruir vínculos e recuperar a autonomia.
Questionada sobre os casos que mais a marcaram nesse tempo à frente da Secretaria de Assistência Social, Dudi se emocionou ao lembrar de situações em que mulheres conseguiram deixar contextos de violência doméstica e também os de pessoas em situação de rua que retornaram para suas famílias.
“É muito marcante o depoimento das mulheres do abrigo, que não sabiam que tinha uma rede de proteção e achavam que iam morrer daquele jeito e chegaram ali no abrigo e falaram ‘aqui eu tenho paz, aqui eu não tô sozinha’. É muito bom saber que elas acharam uma luz e que elas podem recomeçar a sua vida sem esse agressor. […] E eu lembro também de uma cena muito forte, em um desses momentos de recreação que a gente faz no fim de semana com as pessoas que estavam em situação de rua, uma família veio visitar o programa, a esposa, que estava com o vínculo já quase rompido, e os filhos. Eles ficaram vendo esse pai jogando futebol com alegria e filmando ele… depois daquele dia ali foi trabalhado ainda mais para restabelecer o vínculo familiar e ele retornou para a família. Então, assim, você vê os resultados, sabe? Nosso trabalho é muito gratificante”, finaliza Dudi ao falar sobre o trabalho desenvolvido pela rede de Assistência Social de Criciúma.
Mariana Machado / TN Sul



