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domingo, agosto 30, 2026

Redes perdidas revelam ameaça invisível à vida marinha

Pesquisa da Unesc identifica 81 fragmentos de petrechos de pesca nas fozes dos rios Araranguá e Mampituba e investiga os riscos desses materiais para o boto-de-Lahille

No mar, aquilo que o ser humano perde não desaparece. Uma rede que deixa de ser vista na praia ou no oceano pode permanecer no ambiente, presa entre pedras, carregada pela correnteza, enterrada na areia ou misturada a outros resíduos. Mesmo fora do local onde foi utilizada, pode continuar representando risco à vida marinha.

Para quem passa pela praia, pode parecer apenas lixo. Para a acadêmica de Ciências Biológicas da Unesc Nicole de Moura, porém, cada fragmento encontrado levanta perguntas. De onde veio? Que tipo de petrecho é? Qual o tamanho da malha? Há quanto tempo está no ambiente? E, principalmente, aquele material pode representar uma ameaça para uma espécie que os pesquisadores acompanham de perto?

É a partir dessas questões que a estudante percorre a faixa de areia ao lado do professor e orientador Rodrigo Machado, nas proximidades das fozes dos rios Araranguá e Mampituba, no Sul catarinense. 

O trabalho integra a pesquisa “A ocorrência de redes de pesca perdidas em duas regiões de importância para a conservação do boto-de-Lahille”. Desde abril, cinco saídas a campo identificaram 81 fragmentos de redes de pesca, sendo 57 na região da Foz do Rio Araranguá e 24 na Foz do Rio Mampituba.

Para Nicole, encontrar uma rede na areia também significa olhar para o que pode estar acontecendo dentro da água. “Cada petrecho encontrado, a gente pega a coordenada, analisa as características, como comprimento, qual o tipo de petrecho e o tamanho da malha. É um fator importante principalmente quando tratamos do boto, porque, quanto maior a malha, pode nos dizer que o petrecho é mais perigoso para ele”, salienta a acadêmica.

A pesquisa terá duração de um ano, com previsão de 12 saídas na foz do Rio Araranguá e outras 12 na foz do Rio Mampituba. “O objetivo é observar diferentes períodos do ano e identificar possíveis variações na presença dos equipamentos. Os resultados serão relacionados também aos períodos de ocupação dos botos”, acrescenta.

Quando a pesca não termina

Até o momento, foram encontradas redes de malha, de arrasto e de cerco, características que ajudam os pesquisadores a relacionar os petrechos às atividades pesqueiras desenvolvidas na região. Em alguns desses materiais existiam animais enroscados, principalmente peixes e siris.

A cena ajuda a explicar por que uma rede extraviada não é apenas um resíduo. Mesmo fora da atividade pesqueira, o petrecho pode continuar oferecendo condições para o aprisionamento de animais. É o que caracteriza a chamada pesca fantasma, quando equipamentos de pesca perdidos, abandonados ou descartados permanecem no ambiente e continuam interferindo na vida marinha.

“Quando são deixadas no ambiente natural, essas redes continuam pescando. Ficam derivando e qualquer animal ou organismo marinho pode se emaranhar e ir a óbito”, explica Machado.

Além dos peixes, o problema pode afetar tartarugas, aves, mamíferos marinhos e diferentes espécies de invertebrados. No Sul de Santa Catarina, a preocupação ganha uma dimensão ainda mais específica, já que as áreas escolhidas para o estudo estão relacionadas à presença do boto-de-Lahille, espécie ameaçada de extinção no Brasil.

Olhar atento para o que o mar devolve

A equipe percorre um quilômetro da praia durante cada saída de campo. Quando uma rede é localizada, o trabalho começa antes mesmo da retirada. Primeiro, é registrada a coordenada do ponto onde o petrecho foi encontrado. Depois, são analisados o comprimento, o tipo de rede e o tamanho da malha. Também é verificado se há lixo marinho, animais presos ou bioincrustação, que trata-se do acúmulo de microrganismos, algas, plantas e animais. Tudo é registrado em fotografia.

“Também analisamos se há lixo marinho ou incrustação, se há algum animal preso neste equipamento. O levantamento inclui a retirada. Fazemos toda a análise em campo e encaminhamos à lixeira mais próxima”, conta Nicole.

A retirada transforma o trabalho em uma ação que vai além da pesquisa. Ao mesmo tempo em que a rede deixa de representar um risco naquele ponto da praia, passa a fazer parte de um conjunto de dados que pode ajudar a compreender a dimensão do problema.

É um trabalho que exige atenção aos detalhes e disposição para caminhar. Nicole e Machado não sabem o que encontrarão quando iniciam cada saída. Eles podem não encontrar nenhuma rede, mas também podem se deparar com um pequeno fragmento ou, até mesmo, com um equipamento inteiro, carregado de organismos e ainda capaz de provocar o emalhamento de animais.

O projeto, neste momento, não pretende estimar quantos animais poderiam ser capturados pelos equipamentos encontrados. O foco está na identificação e na quantificação dos principais petrechos presentes na beira da praia.

“O assunto é pouco explorado, mas existem estudos do potencial de captura desses petrechos, principalmente em alto-mar. Não estimamos o potencial da pesca fantasma, mas quantificamos os principais equipamentos que encontramos na beira da praia”, afirma a acadêmica.

A ameaça não encerra na areia

Dados da World Animal Protection apontam que cerca de 640 mil toneladas de equipamentos de pesca são deixadas nos oceanos todos os anos. A organização também estima que aproximadamente 69 mil animais marinhos sejam afetados diariamente pelas redes de pesca descartadas.

Segundo a entidade, desde 2012 o número de espécies afetadas pelo lixo marinho aumentou mais de 23%. A pesca fantasma também está associada a um declínio estimado entre 5% e 30% das populações de peixes marinhos. Cerca de 92% dos contatos entre animais marinhos e detritos envolvem plástico.

O problema também permanece depois que a rede deixa de cumprir sua função original. Com a exposição ao sol, à água salgada, às ondas e ao atrito com rochas e outros elementos, os materiais sintéticos podem se degradar e contribuir para a presença de fragmentos plásticos no ambiente.

Os números ajudam a dimensionar a questão, mas é na praia que Nicole percebe o problema de maneira concreta. Cada rede encontrada conta uma história que a pesquisa tenta reconstruir. A acadêmica é natural de Torres, cidade marcada pela relação cotidiana com o mar, uma experiência que ajuda a explicar por que ela pretende fazer com que os resultados não fiquem restritos ao ambiente acadêmico.

“O que eu mais quero é gerar informações e levá-las para as prefeituras. Em algumas vezes, vejo que a limpeza de praias é deixada um pouco de lado. Então, gostaria de levar esses dados a público para contribuir com a tomada de decisões”, afirma.

A intenção é que essas informações possam ajudar a identificar os locais mais afetados, os períodos de maior ocorrência e os tipos de petrechos encontrados. Com isso, o levantamento pode sustentar ações de limpeza, prevenção e conscientização.

Ciência que volta para a comunidade

O trabalho também coloca a Universidade diante de uma questão que envolve diferentes atores. A pesca é uma atividade econômica e cultural importante para as comunidades do litoral, mas os resíduos deixados pelos petrechos podem causar impactos ao ecossistema e representar riscos para espécies ameaçadas.

Além do estudo, dois projetos de Extensão estão vinculados às ações desenvolvidas. Um deles é o Projeto Marinho no Extremo Sul de Santa Catarina, que tem como objetivo dialogar principalmente com filhos de pescadores e trabalhar a conscientização sobre o lixo marinho, incluindo os petrechos de pesca.

Outra iniciativa trabalha com a cultura oceânica, abordando a importância do ecossistema marinho para o cotidiano e as possibilidades e perspectivas econômicas que o mar proporciona à sociedade, especialmente aos pescadores.

“Sempre que desenvolvemos projetos de Pesquisa, buscamos conciliar as perguntas científicas, mas também com a gestão do espaço, a conservação da biodiversidade e a valorização das comunidades tradicionais”, enfatiza Machado.

A preocupação com o boto-de-Lahille está inserida em uma história ainda maior. O Projeto Botos do Araranguá, iniciativa do professor Rodrigo Machado, vinculado ao curso de Ciências Biológicas e ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCA), da Unesc, é desenvolvido desde 2019 e tem como foco o monitoramento da população no estuário do Rio Araranguá e na zona costeira adjacente. A iniciativa, que conta com a participação dos acadêmicos, também busca resgatar as históricas práticas de pesca cooperativa entre homens e botos, uma tradição única no Sul do Brasil.

“O Projeto Botos do Araranguá é mais que ciência. Ele é um elo entre o conhecimento acadêmico, a história das comunidades pesqueiras e a participação ativa da sociedade. Nós trabalhamos com o conceito de ciência cidadã, em que qualquer pessoa pode contribuir com dados, relatos de avistamentos, fotos ou vídeos”, comenta Machado, que também coordena a iniciativa.

O monitoramento sistemático da população completa dois anos em setembro, período em que os pesquisadores ampliaram a compreensão sobre a presença dos animais no território e sobre a forma como utilizam o espaço.

Agora, a pesquisa sobre a pesca fantasma acrescenta uma nova camada a esse conhecimento. Além de saber onde os botos estão, os pesquisadores precisam compreender quais ameaças existem nesses mesmos espaços.

“Estamos entendendo o padrão de ocupação do espaço e, junto com o projeto da pesca fantasma, damos um passo além para investigar outras questões relacionadas ao boto, como problemas de ocupação, entre outros”, acrescenta.

O monitoramento dos botos levou os pesquisadores a olhar para as ameaças presentes no mesmo território. Agora, as redes encontradas na areia ajudam a ampliar as perguntas sobre a relação entre pesca, conservação e uso do espaço. Uma investigação alimenta a outra e amplia a compreensão sobre um ambiente compartilhado por animais, comunidades e diferentes atividades humanas.

Para Nicole, esse processo começa de uma maneira simples, com uma caminhada pela praia e com o olhar para aquilo que muitas vezes passa despercebido. “Uma rede perdida pode parecer pequena diante da imensidão do oceano. Mas, quando é encontrada, medida, fotografada, classificada e retirada, ela deixa de ser invisível. Passa a ser dado, evidência e parte de uma história que a ciência procura compreender”, pontua a acadêmica.

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