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sexta-feira, julho 31, 2026

Há 50 anos no Brasil, fotógrafo chileno eternizou a história de Criciúma

Hoje, aos 72 anos, Figueroa lembra o caminho percorrido até encontrar em Criciúma um novo lar

Julho é um mês que faz Guillermo Arturo Cruz Quiroz, mais conhecido como Figueroa, revisitar a própria história. Há 50 anos, o chileno chegava ao Brasil após deixar seu país de origem durante a repressão da ditadura de Augusto Pinochet. Hoje, aos 72 anos, lembra o caminho percorrido até encontrar em Criciúma um novo lar.

Ele conta que, aos 17 anos, deixou o Chile e seguiu para a Argentina. Depois, viveu no Uruguai, até receber o convite de um amigo brasileiro para trabalhar em uma empresa em Criciúma. A oportunidade representava a chance de um recomeço, mas a realidade foi diferente do que imaginava.

“Cheguei aqui no Brasil sozinho em 26 de julho de 1976 e passei por muitas dificuldades. Sem saber falar a língua, sem dinheiro, sem parentes, sem amigos, sem ninguém. E, ainda por cima, o amigo que me fez o convite tinha se mudado para Foz do Iguaçu”, relata.

Sem recursos, Figueroa chegou a morar nas ruas nos primeiros dias na cidade. Apesar das dificuldades, nunca esqueceu a primeira impressão que teve de Criciúma. “Quando eu cheguei na cidade, eles estavam retirando os últimos escombros da estrada de ferro e estavam abrindo a Axial, que hoje se chama Avenida Centenário. Na época também cheguei a ver a inauguração da rodoviária”, relembra.

Formado como técnico em mecânica, ele trouxe do Chile outro conhecimento que mudaria sua vida: a fotografia. Aprendeu a técnica ainda jovem, de forma autodidata, quando dominar uma câmera era um privilégio de poucos.

“Eu era um jovem autodidata e, naquela época, a fotografia era um segredo guardado a sete chaves”, conta.

Fotografia na década de 70

Figueiroa se dedicou à fotografia profissional durante três décadas. Ele já fazia trabalhos em casamentos e aniversários no Chile, mas foi em Criciúma que transformou a paixão em profissão.

Na época, fotografar era um trabalho caro e complexo, dominado por poucas pessoas na região. Foi esse conhecimento técnico que abriu as portas para o jornal Correio do Sudeste. “Quando me apresentei no jornal, eles queriam um fotógrafo que dominava a técnica. E eu me apresentei lá e eles duvidavam”, conta.

Mais tarde, em 1979, tornou-se o primeiro fotógrafo oficial da Prefeitura de Criciúma e implantou o primeiro laboratório fotográfico do município. “Eu trabalhei muito só com assessoria de imprensa. Trabalhei com o Eduardo Moreira por duas vezes, com o Paulo Meller e, por fim, com o Altair Guidi”.

Ao longo da carreira, registrou momentos históricos da cidade. Algumas de suas imagens ilustraram os carnês de IPTU da década de 1980 e outras documentaram mudanças importantes de Criciúma.

Foto: Melissa Oliveira/TN Sul

“Inclusive, no antigo aeroporto Leoberto Leal, que era ali onde fica a Prefeitura hoje, eu fotografei a última viagem de avião”, relata.

Entre as lembranças da profissão, ele guarda até hoje uma câmera danificada durante a cobertura de um protesto em Florianópolis. “Essa máquina aqui, a polícia me tirou ela, por volta de 83, amassou ela numa briga que teve na ponte em Florianópolis. Estava tendo um protesto na época e os militares pegaram a minha máquina e amassaram. Para recuperar depois foi uma briga”, comenta.

Para Figueiroa, a fotografia daquela época era uma arte que carregava beleza em sua complexidade. “Fotografia não era só bater foto. O fotógrafo tinha que ser laboratorista também. Tinha que saber trabalhar em um laboratório com quarto escuro, porque o material era fotossensível e não podia pegar luz, e a gente tinha que conhecer a química. Porque precisava usar materiais como o bromo, potássio, cromo, ácido acetilsalicílico e mais alguns elementos químicos, pelo menos 5 ou 6, tanto no revelador de filme quanto no fixador”, explica.

Foto: Melissa Oliveira/TN Sul

Registros da transformação de Criciúma

Figueroa acompanhou o crescimento de Criciúma por trás das lentes. Quando começou a trabalhar na imprensa, a cidade ainda era pequena e produzir um jornal diário era um desafio. “E para nós, no jornal, era uma coisa muito difícil de fazer, porque era de circulação diária. Uma cidade daquele tamanho na época, para ter informação diariamente, era muito difícil”.

Ele lembra que, muitas vezes, a equipe recorria aos acidentes registrados na BR-101 para completar a edição e trabalhava até a madrugada para fechar o jornal. “A gente requentava muita coisa. E para nós, o que salvava, por exemplo, na edição da segunda eram os acidentes que ocorriam na BR”, conta.

Além da busca por notícias, fotografar exigia técnica e precisão. Cada filme tinha um número limitado de poses e não havia espaço para erros.

“Eu vinha revelando o filme dentro do carro e secando na janela, porque era um processo demorado e atrasava muito. Eu chegava com o filme já revelado”.

Com apenas um filme de 24 poses para cobrir todo um fim de semana, cada clique precisava valer a pena.

“Como é que eu vou queimar a foto? Ia para o estádio em Florianópolis, batia a foto da capa e ela tinha que sair boa, não podia queimar”, relembra.

O gol que rendeu um apelido

O apelido que acompanha Guillermo há décadas surgiu de forma inusitada, durante uma partida de futebol de salão entre a equipe do jornal onde trabalhava e outro time, no ginásio do Colégio Marista.

“No mesmo lugar que jogamos a partida, dias antes, no time internacional de Porto Alegre, jogou um chileno chamado Don Elías Figueroa. Fomos jogar lá e eu fiz um gol e ganhamos a partida. O diretor do jornal, que estava na partida, disse: ‘Aí, Figueroa!’, porque eu tinha feito um gol parecido com ele também”, conta.

A vida por trás das lentes

Além de registrar a história de Criciúma, Figueroa também ajudou a formar novos fotógrafos, por meio de cursos de fotografia que ministrou pela Fundação Cultural e pela Prefeitura, compartilhando o conhecimento adquirido ainda na juventude, quando aprendeu a profissão de forma autodidata.

Em paralelo à carreira, construiu a própria família em Criciúma. Foi durante um ensaio de carnaval que conheceu seu grande amor, a professora Cleuza Crispim (in memoriam), com quem teve três filhas: Rita, Caroline e Beatriz.

Professora de Biologia, Carol, que acompanhou o pai durante a entrevista, disse que costuma levar os alunos ao Planetário de Criciúma, onde estão expostas algumas fotografias feitas por Figueroa durante o eclipse solar de 2014. “Às vezes eu levo os meus alunos ao planetário e lá tem algumas fotos do pai na época do Eclipse. Essa lembrança é muito forte”, conta.

Cinquenta anos depois de deixar o Chile, Figueroa diz que se considera um homem realizado. Em Criciúma, construiu uma carreira que ajudou a preservar a história da cidade e criou a família.

“É por isso que no último dia 26 eu agradeci muito a cidade, porque ela me ofereceu muita coisa, sabe? Por todo esse tempo que eu trabalhei, que vivi aqui e que estou vivendo. Foi bem prazeroso para mim”, relata.

Ao olhar para trás, Figueroa reconhece que seu trabalho deixou parte da própria história impressa na memória de Criciúma.

Foto: Arquivo pessoal

Mariana Machado/TN Sul

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