Alexandra Cavaler
Criciúma
Há gestos que não cabem em palavras, apenas em atitudes. Em Criciúma, casais têm aberto não só as portas de casa, mas também o coração, para acolher crianças e adolescentes que, por diferentes razões, precisaram se afastar de suas famílias de origem. É um ato de profundo desprendimento: amar sem a garantia de permanência, cuidar sabendo que, um dia, será preciso deixar ir. Ainda assim, eles dizem “sim” ao compromisso, à responsabilidade e, sobretudo, à esperança de oferecer um recomeço.
Lançado há quase um ano no município, o Serviço Família Acolhedora vem transformando histórias ao unir quem precisa de cuidado com quem está disposto a oferecê-lo. Mais do que uma política pública, a iniciativa revela a força de vínculos construídos no afeto e na empatia. Cada acolhimento é único, marcado por desafios, aprendizados e pela certeza de que, mesmo sendo temporário, o amor vivido ali deixa marcas permanentes.
Abrir espaço
Quem fala com brilho nos olhos sobre a experiência vivida há cinco meses é a mãe acolhedora Laila Gomes da Silva. Ao lado do marido, Amandio Luiz Da Rosa, ela decidiu abrir espaço na rotina e no coração para oferecer amor e cuidado a um menino. A decisão não veio por acaso, mas como resposta a vivências que tocaram profundamente o casal.
Cristãos e integrantes da Abba Pai Church, em Criciúma, eles já atuavam em ações sociais, especialmente por meio do Mercado Solidário, onde convivem com famílias em situação de vulnerabilidade. “Isso ampliou muito a nossa percepção sobre a realidade de muitas crianças”, relata Laila. O sentimento de querer fazer mais ganhou força após a comoção causada pelas enchentes no Rio Grande do Sul. “Não queríamos apenas nos sensibilizar, queríamos agir”, conta. Foi então que encontraram no Programa Família Acolhedora uma forma concreta de ajudar.
Chegada marcada por emoção e expectativa
A chegada da criança foi marcada por emoção e expectativa. “Veio aquele frio na barriga e a certeza de que agora era pra valer”, lembra. Desde então, a rotina da casa mudou e, com ela, também vieram desafios. “Toda adaptação exige paciência. É preciso construir confiança aos poucos”, explica. Mas, para ela, cada obstáculo trouxe aprendizado e fortaleceu ainda mais o propósito do casal.
Com o passar dos meses, as transformações se tornaram visíveis. O menino, que chegou mais retraído e inseguro, hoje demonstra mais confiança, se comunica melhor e participa ativamente do dia a dia da família. “Ver ele sorrindo com facilidade, demonstrando carinho, é muito gratificante. A gente percebe o quanto o ambiente familiar traz segurança e estabilidade”, afirma.
Experiência
Para Laila, a experiência vai muito além do acolhimento em si. “É algo que transforma a criança, mas também transforma a família. Amplia nossa empatia, nossa compreensão sobre o cuidado com o outro. Importante ressaltar que cada criança que passar por um momento difícil dentro de um lar, precisa de atenção, rotina e afeto. Sei que o programa ainda é recente em Criciúma e, por isso, precisa ser mais conhecido. Se mais pessoas entenderem a importância, mais crianças poderão ser acolhidas com dignidade”, destaca Laila acrescentando que o medo inicial é natural, mas reforça que o programa oferece acompanhamento em todas as etapas.
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