Invasão em área de preservação acende alerta em Siderópolis

Ocupações clandestinas avançam sobre território estratégico para a Barragem do Rio São Bento e acendem alerta sobre crise hídrica futura

Alexandra Cavaler
Siderópolis

A ocupação irregular de uma extensa área ambiental em Siderópolis acende um alerta preocupante: além dos danos imediatos à natureza, a invasão pode comprometer, a médio e longo prazo, a segurança hídrica de toda a região abastecida pela Barragem do Rio São Bento. Proprietário de mais 120 hectares, Gregório Brighenti, alerta que a degradação do solo, o descarte irregular de resíduos e a ocupação desordenada podem afetar diretamente os cursos d’água que contribuem para o reservatório, responsável por atender mais de 400 mil pessoas.

A área invadida possui ligação direta com o sistema hídrico que abastece municípios como Criciúma, Içara, Forquilhinha, Maracajá, Morro da Fumaça, Nova Veneza e Siderópolis. Hoje, quase 40 estruturas precárias já foram erguidas no local, nenhuma utilizada como moradia fixa, o que indica ocupação voltada à especulação e uso irregular. O receio é de crescimento acelerado: “se em dois anos passou de oito para mais de 30, o avanço pode ser exponencial”, alerta Brighenti.

Proprietário da área junto com os irmãos, Gregório Brighenti afirma que a família só descobriu a invasão há cerca de três anos, após ser alertada por conhecidos. “Quando percebemos, já havia vários barracos construídos. A gente acredita que isso começou por volta do final de 2022 ou início de 2023, conforme o boletim de ocorrência que registramos”, relata.

Suspeitas sobre a origem do problema

Segundo Gregório, há suspeitas sobre a origem do problema. “No processo, há indicação de que um homem, morador da região do Caravaggio, teria iniciado essas vendas clandestinas. Depois disso, outras pessoas passaram a negociar lotes de forma irregular. Inclusive, ainda não há confirmação de falsificação documental, mas sim do uso indevido da matrícula da propriedade em contratos informais. Eles usaram a matrícula da nossa área em contratos de gaveta, o que é totalmente irregular”.

A família registrou boletim de ocorrência e buscou medidas judiciais. Atualmente, há uma decisão que impede novas construções no local até que a situação seja resolvida. “Já existe determinação de que não pode mais construir nada ali, mas o problema ainda está longe de acabar”, afirma Brighenti, acrescentando que houve tentativas de diálogo com alguns dos envolvidos. “Conversei com o morador de Treviso, além de outros nomes de Criciúma e Laguna, mas não houve solução. O que existe lá hoje é desordem e não tem famílias vivendo ali. Aquilo virou ponto de encontro, festa, bagunça. São barracos com restos de obra, lixo, entulho”, enfatiza. Apesar de não relatar ameaças diretas, Gregório admite preocupação. “A gente ouve relatos de pessoas com histórico complicado frequentando o local. Isso preocupa, claro”.

Terras da família

A área em questão faz parte de uma propriedade de aproximadamente 120 hectares, adquirida pelo patriarca da família Brighenti há décadas. Após o falecimento dos pais, em 1992, um caseiro teria permanecido no local e, segundo denúncias, pode ter dado início à comercialização irregular dos terrenos, posteriormente ampliada por terceiros.

Além da questão fundiária, o impacto ambiental é o que mais preocupa. A região abriga nascentes e cursos d’água que contribuem com cerca de 30% do volume da barragem. O reservatório, com aproximadamente 450 hectares e capacidade para armazenar 58 milhões de metros cúbicos de água, é considerado estratégico para o abastecimento regional.

“Hoje talvez não pareça grave, mas daqui a 30 ou 50 anos a conta vai chegar. Estamos falando de uma área essencial para a água de toda a região.Para nossa família o mais importante é recuperar e preservar essa área. Não é uma questão pessoal, é uma questão coletiva, alerta Gregório”.

Como proposta, a família manifesta a intenção de destinar o espaço para iniciativas de interesse público. “Nosso desejo é doar toda essa área para entidades voltadas à preservação ambiental, educação ambiental, projetos que realmente protejam esse patrimônio natural”, revela Gregório assinalando que a expectativa agora é que as medidas judiciais avancem e que órgãos ambientais e autoridades intensifiquem a fiscalização, evitando que a ocupação avance ainda mais sobre uma das áreas mais sensíveis para o futuro hídrico do Sul catarinense.

Leia a matéria completa na edição desta segunda-feira, dia 13, do jornal impresso Tribuna de Notícias. Ligue para 4899109-5070 e garanta sua assinatura.

Últimas