Thiago Oliveira
Criciúma
No coração de Criciúma, a Praça Nereu Ramos segue como testemunha silenciosa da história da cidade. É ali que gerações caminharam, trabalharam e construíram as rotinas. Mas basta erguer os olhos para perceber que parte desse patrimônio vive outro tempo, o do abandono. Prédios fechados, janelas escuras e fachadas desgastadas se tornaram parte da paisagem.
O problema não é recente, nem isolado. Ele se espalha por ruas emblemáticas do Centro e levanta um alerta sobre o futuro da área que deu origem à cidade. “É uma situação que preocupa e que precisa ser enfrentada com seriedade. O Centro é o cartão de visita da cidade, é onde a vida econômica e social acontece. Quando temos prédios abandonados, isso gera insegurança, desvalorização dos espaços e afasta as pessoas. E não é de hoje que vemos isso. O Centro vem sendo deixado de lado há bastante tempo, e essa realidade precisa mudar. Mais do que uma questão estética, é uma questão de cuidado com a cidade e com quem vive nela. Precisamos olhar para esses imóveis como oportunidades de transformação, e não como problemas permanentes. A cidade precisa ser um lugar onde as pessoas possam viver e circular tranquilamente. E é importante lembrar: Criciúma nasceu no bairro Centro, na Rua 6 de Janeiro. Foi onde tudo começou. Cuidar do centro é respeitar a nossa história”, afirma a presidente da Associação de Moradores do Centro (Amoc), Sabrina Zapelini Minatto.
Além do impacto visual, os imóveis abandonados trazem consequências diretas para quem vive e trabalha na região. O Centro de Criciúma abriga mais de 23 mil moradores, além de concentrar comércio, serviços e instituições públicas. “Hoje, o que vemos é um centro que, em muitos pontos, está abandonado e isso não é recente. É resultado de anos sem o devido cuidado. E é importante destacar que o bairro Centro tem mais de 23 mil moradores. São pessoas que vivem ali todos os dias e que merecem segurança, infraestrutura e qualidade de vida. Precisamos de mais atenção à estrutura, à organização dos espaços e a políticas que valorizem quem já vive no centro e quem trabalha ali. Uma cidade forte começa por um centro organizado, vivo e valorizado. E o centro de Criciúma precisa voltar a ser protagonista”, completa Sabrina.
Para a presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Criciúma (CDL), Andréa Gazzola Salvalággio, o Centro é uma área estratégica para o comércio e para a vida da cidade. “Quando existem imóveis sem uso ou mal estruturados por longos períodos, isso impacta o movimento, a percepção de segurança e também a paisagem urbana da região. É um tema que merece atenção e diálogo, buscando alternativas que incentivem a revitalização e a modernização desses espaços, tornando o Centro mais dinâmico e atrativo”, destaca.
Retrofit surge como alternativa para recuperação
Diante desse cenário, o município aposta em uma estratégia que tem sido adotada em grandes centros urbanos no Brasil e no mundo: o retrofit. A Prefeitura sancionou, no ano passado, o Programa Municipal de Retrofit, com o objetivo de incentivar a recuperação e reutilização de edificações antigas ou sem uso. “Essa lei representa uma mudança significativa na forma como pensamos o desenvolvimento urbano de Criciúma. Com o retrofit, vamos transformar imóveis esquecidos em oportunidades reais de moradia, comércio e convivência, revitalizando o coração do município. É um passo importante para termos uma cidade mais viva, segura, sustentável e eficiente. Esse projeto vem sendo amadurecido desde 2019, com muito diálogo técnico e institucional, e agora temos a oportunidade de dar continuidade e tirar do papel uma política que olha para o futuro, sem esquecer do passado”, destaca o prefeito Vagner Espíndola.
O conceito prevê a modernização de construções antigas, permitindo que voltem a ser utilizadas com novos propósitos, sem perder sua essência arquitetônica. “Retrofit nada mais é do que reutilizar e modernizar uma edificação antiga, muitas vezes sem uso, para ser utilizada novamente de forma que se atualize a infraestrutura dessa edificação. Pode-se mudar o uso, fachadas e outros elementos arquitetônicos para atualizar aos padrões dos dias de hoje”, explica o arquiteto urbanista da Diretoria de Planejamento Urbano, Giuliano Colossi.
A legislação permite a readequação de imóveis com “Habite-se” expedido até 31 de dezembro de 1999 ou que não atendam integralmente às normas atuais, desde que estejam dentro da área delimitada no Centro, que abrange 1.058 imóveis. O perímetro inclui vias como as ruas Coronel Pedro Benedet, Henrique Lage, João Pessoa e Coronel Marcos Rovaris, além das avenidas Centenário e Getúlio Vargas.
Segundo o diretor de Planejamento Urbano, Edson Silva, o objetivo é tornar viável a recuperação dessas estruturas, equilibrando preservação e funcionalidade. “O grande diferencial da nova legislação é permitir que imóveis antigos sejam requalificados com responsabilidade, respeitando critérios técnicos e urbanísticos, mas com a flexibilidade necessária para torná-los novamente funcionais e atrativos. O retrofit equilibra preservação e inovação, o que é fundamental para o desenvolvimento de um centro urbano moderno”, afirma.
Lei é avanço, mas aplicação é desafio
Para moradores e representantes da comunidade, a criação da legislação representa um avanço, mas ainda é apenas o primeiro passo diante de um problema que se acumulou ao longo de décadas. “Não adianta termos uma legislação moderna se ela não é aplicada com efetividade. O que vemos hoje é um centro que vem sendo negligenciado há anos, e isso não se resolve apenas com lei no papel. É fundamental que haja diálogo constante com a prefeitura, incentivo aos proprietários e, principalmente, ações concretas que tornem viável a recuperação desses espaços. Revitalizar o centro é investir no futuro da cidade e garantir que as pessoas possam viver e circular tranquilamente”, ressalta Sabrina.
Já a presidente da CDL reitera a necessidade de incentivos aos proprietários. “A legislação do retrofit foi um avanço importante e demonstra sensibilidade do Município ao tema. No entanto, entendemos que é fundamental avançar também em mecanismos de incentivo que estimulem os proprietários a investirem na revitalização dos imóveis. A modernização desses espaços, aliada a políticas de estímulo, pode acelerar a reocupação e fortalecer o Centro como polo comercial e urbano. Revitalizar é mais do que preservar a história”, completa Andréa.




