O movimento na praia começa cedo. Homens e mulheres se posicionam as margens do estuário, com suas tarrafas e redes, aguardando o momento certo de lançá-las às águas. E, então, chega a hora: um a um eles aparecem com suas barbatanas e dorsos cinzas, se lançando para o alto, indicando com precisão onde o cardume se encontra. É por meio desse pacto colaborativo com a natureza que acontece a pesca com botos no Sul do Brasil, cujo registro como Patrimônio Cultural foi aprovado nesta semana.
A decisão foi tomada no segundo dia da 112ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, instância deliberativa máxima do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A atividade foi inscrita no Livro dos Saberes, reconhecendo um conhecimento tradicional profundo, que revela a estreita relação que os pescadores do litoral de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul guardam com seu entorno natural.
O parecer, relatado pelo conselheiro Bernardo Issa, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), justificou o pedido de registro do bem por sua profundidade histórica, complexidade socioecológica e valor simbólico e afetivo. “Trata-se de um saber-fazer tradicional enraizado em territórios específicos, transmitido entre gerações e continuamente recriado pelas comunidades que dele participam”, afirma o parecer. Além disso, o texto aponta que esse registro pode ampliar os limites do patrimônio cultural para além do humano “em sintonia com as demandas socioambientais do presente e as novas éticas não-antropocêntricas de coabitação entre espécies”.
O presidente do Iphan, Leandro Grass, destacou o ineditismo do registro devido à conjunção do olhar social, ambiental e biosocial. “É um chamado, uma convocação a um pensamento holístico, sistêmico, sustentabilista acerca do Patrimônio Cultural e, principalmente, comprometido com esse momento da história em que a humanidade precisa tomar uma decisão se vamos nos destruir ou se vamos permitir àqueles que ainda não nasceram viver dignamente” analisou Grass.
Preservação
O pescador artesanal Reinaldo Florentino espera que o registro da atividade pelo Iphan auxilie na preservação da espécie. “Se nós não resolvermos o habitat dos botos, todos irão morrer. São 16 ou 18 botos que interagem hoje com o pescador. Nesse patamar, daqui seis anos não vai mais existir botos, apenas por fotos. Eu falo com propriedade, porque eu vivo da pesca com o boto, eu sou um pescador profissional. Quando morre um boto, a gente chora, parece um membro da nossa família. Às vezes, eu estou no meu bote às 3h ou 4 h da manhã, e eles estão do meu lado. Eu conheço um por um, todos eles tem nome, a Borracha, a Princesa, a Jade, o Fúria, o Natalino, o Cabeça-Feia, a Pomba” declarou emocionado.
Em 2025, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) reclassificou o risco de extinção dos botos-de-Lahille – a espécie envolvida na pesca colaborativa com os pescadores da região – de vulnerável para em perigo de extinção. De acordo com a entidade, as espécies são classificadas em nove grupos, conforme risco de serem extintas: Pouco Preocupante (LC), Vulnerável (VU), Em Perigo (EN), Criticamente em Perigo (CR) e Extinto (EX). Estima-se que a população mundial total desses animais é de cerca de 330 indivíduos, a maioria deles, no litoral sul do país.
A pesca com botos no Sul do Brasil ocorre em quatro sistemas estuarinos (ecossistemas de transição entre águas doces e salgadas) localizados entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A foz do Rio Tramandaí (RS) e o Complexo Lagunar Sul de Santa Catarina, junto à cidade de Laguna, são os locais de maior frequência e incidência, podendo ocorrer ocasionalmente nos estuários dos rios Mampituba (RS) e Araranguá (SC). A prática já é patrimônio imaterial de Santa Catarina pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC), desde 2018.
Pesca com botos
O processo, apesar de parecer natural, demanda técnica e conhecimento prévios e específicos dos pescadores, pois os botos fazem inúmeros movimentos e cabe ao pescador a tarefa de decidir quando o cetáceo está auxiliando a pesca e quando não está.
Além disso, é necessário saber acumulado sobre a natureza, com a qual eles se defrontam cotidianamente na lida da pesca: o movimento dos ventos e das marés; os hábitos dos peixes e dos botos; as peculiaridades da geografia local.
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