Morro da Fumaça
Alexandra Cavaler
A situação da indústria cerâmica na Região Carbonífera voltou ao centro do debate econômico após um alerta feito pela direção da Esmalglass, uma das gigantes mundiais no fornecimento de insumos para o setor. A empresa aponta que gargalos históricos de infraestrutura e o alto custo da energia no Estado estão comprometendo a competitividade industrial e podem influenciar decisões estratégicas de investimento. Atualmente localizada em Morro da Fumaça e, se por ventura a transferência ocorrer, o município irá perder uma das maiores empresas responsável pela arrecadação.
Com presença de mais de três décadas na região, a companhia afirma que o cenário atual exige adaptações operacionais diante das dificuldades estruturais enfrentadas pelo setor. De acordo com João Batista Borgert, diretor-geral da Esmalglass, a falta de infraestrutura adequada continua sendo um dos principais entraves para o desenvolvimento regional.
“O Sul de Santa Catarina carece de infraestrutura de modo geral: aeroporto, porto e estradas. Nenhum destes pontos atende às necessidades mínimas para o desenvolvimento regional e isso prejudica a competitividade da indústria instalada aqui, além de desestimular novos investimentos”, afirma Borgert, acrescentando que outro ponto crítico é o custo da energia. O setor cerâmico possui alto consumo energético e depende principalmente do gás natural. “Nosso segmento demanda elevado consumo energético e a principal fonte de abastecimento é o gás natural, que em Santa Catarina é mais caro do que em outros estados brasileiros. É imperativo equalizar essa situação, sob risco de desindustrialização completa do segmento cerâmico”, alerta.
Ainda segundo ele, o cenário atual da unidade catarinense já demonstra os impactos dessa conjuntura. “Hoje temos cerca de 40% da nossa fábrica ociosa e já transferimos 25% da capacidade instalada para nossa unidade em Alagoas. A redução de atividade em escala maior ao que já fizemos é uma realidade que pode continuar enquanto houver opções melhores de alocação desses recursos”.
Apesar das dificuldades, a empresa ressalta que não existe planejamento para deixar definitivamente a Região Carbonífera. “É importante salientar que não temos planejamento de sair em definitivo da região. Porém, é inegável que o setor cerâmico está passando por um processo importante de encolhimento regional, que não pode ser menosprezado e condiciona completamente o futuro da nossa empresa”, pontua Borgert.
A empresa também destaca o investimento feito ao longo de décadas na formação de mão de obra local. “Temos uma estrutura de Recursos Humanos muito bem construída ao longo de mais de 30 anos aqui. Investimos muito tempo em treinamento e nosso maior patrimônio são nossos colaboradores. Não pensamos em demissões”, conclui.
Governo de Morro da Fumaça acompanha situação
A possibilidade de mudanças nas operações da Esmalglass também mobiliza lideranças políticas da região. Em Morro da Fumaça, município que abriga a unidade da empresa, a prefeitura acompanha de perto o cenário e seus possíveis impactos econômicos. Para o prefeito Eduardo Guollo, a empresa tem papel relevante tanto na economia local quanto na cadeia produtiva regional da cerâmica. “A Esmalglass é uma empresa importante para a economia regional e também para Morro da Fumaça, principalmente pela geração de empregos e pela participação indireta na arrecadação de ICMS que compõe o índice de retorno do município. Caso uma eventual saída venha a se confirmar, certamente haverá impacto, ainda que seja necessário um levantamento técnico mais detalhado para dimensionar esse reflexo nas finanças municipais”, afirma.
Segundo o prefeito, a maior preocupação neste momento está relacionada ao conjunto de atividades econômicas que dependem da empresa na região. “Nosso principal cuidado é com toda a cadeia produtiva que gira em torno da empresa. O setor cerâmico movimenta milhares de empregos na região e qualquer mudança relevante afeta diretamente esse ecossistema industrial”, disse Guollo, destacando que a Administração Municipal mantém diálogo com o setor produtivo e acompanha a situação da empresa há alguns anos. “O município mantém contato com os diretores da empresa há cerca de quatro anos para tratar e intermediar esse assunto. Sabemos que o grupo tem realizado investimentos em outras filiais fora de Santa Catarina e, desde então, buscamos compreender esses movimentos e dialogar sobre o cenário regional”.
Ele ressalta que o tema também tem sido discutido em âmbito regional, envolvendo entidades empresariais, parlamentares e o governo estadual. “Situações como essa exigem união de esforços. Temas estruturais, como o custo do gás natural, extrapolam a esfera municipal, mas estamos sempre dispostos a colaborar em iniciativas conjuntas que fortaleçam o ambiente industrial da nossa região. Essa discussão também vem sendo tratada no âmbito da Associação dos Municípios da Região Carbonífera, considerando a importância da cadeia produtiva cerâmica para o Sul catarinense.”
De acordo com o prefeito, a expectativa, com base nas conversas mantidas com a direção da empresa, é de continuidade das atividades na região. “Pelas informações que temos até o momento e pelo diálogo que o município mantém com os diretores da empresa, a expectativa é de que a empresa continue atuando na região”. Paralelamente, a prefeitura afirma que mantém políticas voltadas ao fortalecimento do ambiente de negócios e à atração de novos investimentos: “Nosso trabalho permanente é estimular novos investimentos, apoiar o empreendedorismo local e incentivar a diversificação econômica. Nos últimos anos também realizamos investimentos importantes na estruturação de áreas industriais para receber novos empreendimentos”.
Para Guollo, desafios como o custo do gás natural, da energia e da logística precisam ser enfrentados de forma integrada para garantir a competitividade da indústria. “São questões estruturais que impactam diretamente as decisões das empresas. Por isso, é fundamental que haja um esforço conjunto entre municípios, Estado, União e entidades representativas para buscar soluções que aumentem a competitividade da indústria e garantam segurança para quem investe e gera empregos na região”, avaliou.
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