O silêncio que adoece: falar sobre saúde mental ainda é um ato de coragem

Tabus, estigmas e julgamentos seguem impedindo milhares de pessoas de buscar ajuda psicológica, agravando sofrimentos que poderiam ser cuidados com escuta, acolhimento e informação

Alexandra Cavaler/Maíra Rabassa
Criciúma/Içara

Mesmo em tempos de informação abundante e campanhas de conscientização, falar sobre saúde mental ainda é um desafio cercado de preconceitos. Em uma sociedade que valoriza desempenho, controle e produtividade constante, admitir fragilidade ou pedir ajuda continua sendo interpretado como sinal de fraqueza. O resultado é um número crescente de pessoas que sofrem em silêncio, carregando dores emocionais que poderiam ser cuidadas, mas acabam invisibilizadas pelo medo do julgamento.

Segundo a psicóloga Tainá Colombo (CRP 12/26912), esse tabu se sustenta porque o sofrimento psíquico ainda é tratado de forma superficial e individualizada. “Muitas vezes, a saúde mental é vista como um problema apenas da pessoa, quando na verdade ela é atravessada por questões sociais, econômicas e políticas”, explica. Esse olhar reducionista mantém o estigma vivo e faz com que sentimentos como tristeza profunda, ansiedade e esgotamento sejam banalizados ou moralizados.

O custo emocional do silêncio

Quando alguém sente que não pode falar sobre o que sente, o sofrimento se transforma em solidão, culpa e sensação de inadequação. “Vejo muitas pessoas acreditando que o problema está nelas, como se sentir dor fosse um defeito”, relata a psicóloga. O silêncio, segundo ela, rompe vínculos, afasta as pessoas e faz com que a dor seja vivida como fracasso pessoal e não como algo legítimo que pode e deve ser cuidado.

Esse medo do julgamento também é um dos principais fatores que atrasam a busca por ajuda profissional. Na clínica, segundo a profissional, é comum encontrar pacientes que só procuram atendimento quando já estão no limite emocional. “Antes disso, tentam dar conta sozinhas, se esforçar mais, ser mais fortes. O estigma faz com que a terapia seja vista como último recurso, e não como cuidado”, afirma. Entre mulheres e a população LGBT, esse receio costuma ser ainda maior, em razão de experiências prévias de invalidação e julgamento.

Quando o silêncio agrava o sofrimento

Existe, sim, uma relação direta entre o silêncio e o agravamento de transtornos como ansiedade e depressão, conforme avalia a psicóloga. “Aquilo que não pode ser falado não é elaborado. O sofrimento vai se acumulando no corpo, nos pensamentos repetitivos, na ansiedade constante e no esgotamento físico e emocional. A tentativa de continuar funcionando apesar da dor, muitas vezes, leva ao colapso”, explica.

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Entre os sinais de alerta mais ignorados, de acordo com Tainá, estão o cansaço extremo, irritabilidade frequente, isolamento social, crises de choro, perda de prazer, alterações no sono e no apetite e dores sem causa médica aparente. “Esses sinais são tratados como exagero, preguiça ou falta de força de vontade, quando na verdade são pedidos de ajuda”, alerta.

Palavras que ferem

Frases como “isso é frescura” ou “é falta de fé ou força de vontade” têm impacto profundo e negativo na saúde mental. “Essas falas são violentas. Elas invalidam a dor e fazem a pessoa duvidar de si mesma”, afirma a psicóloga. Em vez de acolher, produzem mais culpa e reforçam o silêncio, podendo agravar quadros de ansiedade, depressão e até favorecer ideias suicidas.

Os tabus não atingem todos da mesma forma. Homens ainda enfrentam uma cultura que associa sofrimento à fraqueza. Jovens convivem com forte pressão por desempenho e pertencimento. Idosos têm, muitas vezes, seu sofrimento psíquico invisibilizado. Mulheres e pessoas LGBT carregam o peso de violências históricas, silenciamentos e invalidações constantes, o que aumenta a vulnerabilidade emocional.

O papel do acolhimento

Família, escola e ambiente de trabalho têm papel central na quebra desses preconceitos. “Acolher não é dar respostas prontas, é escutar sem julgamento”, reforça a psicóloga. Para ela, esses espaços precisam sair da lógica da cobrança constante e avançar para uma cultura de cuidado, reconhecendo limites, respeitando diferenças e entendendo que ninguém adoece sozinho.

Além disso, diz a profissional, campanhas como o Janeiro Branco ajudam a abrir espaço para o diálogo e a diminuir o medo de falar sobre saúde mental. No entanto, a psicóloga alerta que o debate não pode se limitar a um único mês do ano. “Ainda precisamos avançar no acesso ao tratamento psicológico, fortalecer o SUS e combater discursos que moralizam o sofrimento, como se fosse falta de esforço individual”, destaca.

Uma mensagem para quem sofre em silêncio

Para quem enfrenta a dor emocional calado, por medo de ser rotulado ou incompreendido, a psicóloga deixa um recado direto e necessário: “Você não está exagerando. O que você sente é legítimo. Falar sobre o sofrimento não é fraqueza, é cuidado. Procurar ajuda é um ato de coragem e também de resistência num mundo que insiste em nos fazer aguentar tudo sozinhos. Você não precisa passar por isso sem apoio”, enfatiza Tainá Colombo.

Ansiedade e depressão são as principais causas de afastamento dos trabalhadores

Janeiro Branco, campanha dedicada à conscientização sobre a saúde mental, ganha especial relevância no ambiente de trabalho, onde transtornos emocionais já figuram entre as principais causas de afastamento profissional no Brasil. Dados do Ministério da Previdência indicam que ansiedade, depressão e síndrome de burnout estão entre os diagnósticos que mais geram licenças médicas, refletindo jornadas excessivas, pressão por resultados e a dificuldade de equilibrar vida pessoal e profissional. No país, informações recentes apontam um crescimento alarmante nos afastamentos por saúde mental. 

ESTATÍSTICAS

Conforme as estatísticas da previdência, o Brasil estava com mais de 472 mil registros em 2024 (dobro do biênio anterior) de licenças por transtornos mentais, liderados por ansiedade e depressão, afetando principalmente mulheres (64%) e com foco na idade média (41 anos). Fatores como pressão por metas, assédio e instabilidade aumentam o problema, levando 86% dos funcionários a considerar mudar de emprego por bem-estar, e a Norma Reguladora 1 agora exige que empresas gerenciem riscos psicossociais. Nesse contexto, o cuidado com a saúde mental do trabalhador deixa de ser apenas uma questão individual e passa a ser um tema estratégico para empresas e políticas públicas, impactando diretamente a produtividade, o clima organizacional e a qualidade de vida de milhões de brasileiros.

Para melhorar os cuidados mentais dos funcionários públicos de Içara e Balneário Rincão, o Sindicato dos Servidores Públicos (Sindicerpi) está elaborando um material amplo e qualificado que servirá como instrumento de subsídio para a compreensão das reais necessidades dos servidores. “Enquanto entidade sindical, estamos em permanente monitoramento e diálogo com os servidores, acompanhando de forma atenta as questões relacionadas à saúde mental e ao bem-estar no ambiente de trabalho. Temos a convicção de que nossos servidores valorizados e em condições adequadas de saúde física e emocional refletem diretamente na qualidade do serviço prestado à sociedade. Nesse sentido, o sindicato busca, sempre que possível, estar presente nas unidades de trabalho, promovendo espaços de escuta (conversas), diálogo e convivência, bem como organizando encontros, palestras e atividades que proporcionem momentos de integração, lazer e fortalecimento coletivo. A partir desse levantamento, será possível avaliar de forma mais precisa as condições de saúde e bem-estar da categoria, possibilitando ao sindicato atuar de maneira mais efetiva na defesa, no acolhimento e na busca por melhores condições de trabalho”, explica Jucélia Melo Cardoso, presidente do Sindserpi. 

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