Tiago Monte
Criciúma
O ano que está encerrando foi muito positivo para o setor carbonífero, com a aprovação da legislação que contrata todas as usinas termelétricas, a carvão mineral, localizadas no Sul do país, até 2040. São 1.090 megawatts. Além disso, houve a aprovação de um projeto para estudar um novo modelo de queima de carvão com biomassa. “Vamos estudar 30 meses. É um projeto de 5,5 milhões de reais, que a gente aprovou agora com a Pampa Sul Energia. E, de novo, vamos estudar modelos de negócio para que a gente continue usando o carvão com carbono neutro ou com carbono negativo, como esse projeto a que a gente está trabalhando”, detalha Fernando Luiz Zancan, presidente da Associação Brasileira de Carbono Sustentável (ABCS) e diretor da Satc.
Zancan deixa bem claro que a transição energética não trata de substituir o carvão. “Quando se fala em transição energética, a gente fala em transição do mundo de alto carbono para o mundo de baixo carbono. Não estamos falando em substituir o carvão. Está bem claro isso. No início era essa conversa, todos falavam: vamos substituir o carvão. Não, ninguém vai substituir o carvão. Nós vamos trabalhar para que a gente consiga ter as tecnologias de captura de CO2 (gás carbônico), para a gente poder produzir produtos com carbono neutro”, destaca.
O diretor da Satc ressalta que a China está avançando rapidamente em soluções de tecnologias para a captura de CO2. “A gente tem que buscar tecnologias para captura de CO2. E a gente está muito tranquilo, pois a China está avançando muito rápido nisso. Então logo, logo nós vamos ter plantas de carvão com captura de CO2, de forma competitiva. E aí tem que estudar modelos de negócio. Não é só gerar elétron, mas vai ter que gerar subprodutos”, detalha Zancan.
A produção de zeólita – grupo de minerais naturais e sintéticos com estrutura microporosa em forma de “gaiola”, que age como uma esponja para adsorver e reter água e outras moléculas, sendo usada para filtração, desintoxicação (detox), tratamento de água, como aditivo em rações, e até na agricultura, graças à sua capacidade de troca iônica e remoção de substâncias nocivas como metais pesado – também é cogitada por Zancan. “Talvez, em alguns poucos anos, tenhamos plantas industriais produzindo zeolita, que é um agente liberante lentamente de fertilizantes, NPK. Então, tu vais ter uma nova indústria aqui fazendo isso, um milhão de toneladas por ano. Isso facilita, por exemplo, também a ferrovia, ter projetos, por exemplo, de fazer interligação aqui de Tubarão até a Serra, ter uma nova carga”, ressalta.
O diretor destaca que, por outro lado, plantas térmicas podem ser usadas para produção de fertilizantes nitrogenados. “Isso através da limpeza das emissões. Tecnologia chinesa, de novo. Nós estamos pensando em fazer uma planta piloto aqui, no Jorge Lacerda, para isso, para testar, para produzir o fertilizante, para pegar o fertilizante e trabalhar no campo, como a gente fez com a Cooperja, por exemplo. Então, essa área de fertilizante é uma área que tem um foco grande da gente. Não é só o elétron, mas a questão do fertilizante”, pontua.
Busca por apoio em países do exterior
Para 2026, a busca de Zancan é fechar acordos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) com países como China e Estados Unidos. “A agenda legislativa é buscar recursos para a transição energética e para a P&D. Do outro lado, ver a tecnologia mundo a fora. Basicamente, China e Estados Unidos e consolidar o que nós estamos fazendo aqui na Satc como centro de excelência de fertilizantes, que é um outro ponto importante, trazendo mais parceiros para dentro da indústria do carvão”, diz.
O estudo de terras raras, a partir das cinzas termelétricas, também está no radar da indústria carbonífera, através de pesquisas. “Nós estamos tentando fechar um acordo com os Estados Unidos para fazer projetos para estudar terras raras, a partir das cinzas termoelétricas. Nós descobrimos que temos terras raras aqui, então tem que retirar e precisamos de apoio para isso. Os Estados Unidos estão avançando bem nisso. Tem o interesse do governo americano de ajudar a gente. Eu já tive duas reuniões com a embaixada americana sobre isso. Então, fazer um acordo com os Estados Unidos para avançar nessas tecnologias”, comenta Zancan.
O diretor da Satc – e Engenheiro de Minas – detalha o que são as terras raras nas cinzas termelétricas. “Tem terras raras na Língua do Dragão, de Siderópolis, tem a drenagem ácida também. Tem terras raras. E nós já estamos pesquisando isso. Tem projeto da Satc que já pesquisa em cima disso. Tanto na área de drenagem ácida de mina, quanto em cinza. Já tem recurso da Fapesc e nós estamos trabalhando em cima disso. Mas a gente precisa dar mais escala e mais velocidade e aí tem que buscar parceria com os americanos que estão mais na frente. Tu não inventa a roda sozinho. Tem que buscar parceiros nesse processo. E tem que descobrir onde é que estão essas terras raras. Elas estão na camada de carvão e a gente não sabe aonde. Então tem todo um projeto de pesquisa e mapeamento de estudos nessa área”, enfatiza Zancan.
Ele ressalta que o problema, nesse processo, é separar as terras. “O problema é como é que tu separas (as terras). Precisa de hidrometalurgia, uma série de coisas para separar. Por exemplo, nós já produzimos uma torta de terras raras, um concentrado de terras raras bruto. Nós já estamos trabalhando com o Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) no Rio de Janeiro para começar a separar. Tu tens que ver como é que isso fica econômico. Então tudo isso são tecnologias que a gente tem que avançar”, destaca.
Trabalho de bastidores políticos em Brasília
Zancan ressalta a importância dos deputados e senadores catarinenses e gaúchos para o setor carbonífero e tudo que trata da transição energética. “Tu precisas trabalhar com o governo, trabalhar com o legislativo. E aí, a importância dos nossos parlamentares da região Sul. Nós temos esses cinco parlamentares que hoje estão aí sendo reeleitos. A reeleição dos nossos senadores. Então, o Esperidião Amin foi um grande parceiro, e é um grande parceiro do carvão. Vários projetos de lei e emendas que foram feitas, ele teve por trás. Então, é importante você conseguir esse arcabouço regulatório para que a gente avance”, detalha.
Zancan pontua a importância de ter os recursos direcionados para os projetos do Sul. “Eu acho que o grande trabalho legislativo para o ano que vem é buscar fontes de financiamento para P&D. Como é que nós vamos ter dinheiro para investir? Por exemplo, eu preciso botar uma planta de 50 milhões. Onde é que vem esse dinheiro?. E aí, um dinheiro mais ou menos carimbado, porque tu não pode entrar competindo com outros projetos, aí pega uma Unicamp, pega uma USP, uma universidade grande, e, de repente, um projeto desse vai com uma Finep da vida, por edital, acaba indo para eles e você não entra. Então, tem que meio que trazer o recurso. Nós temos uma data, que é 2040. Então, você tem que trazer os recursos para que a gente possa, nesses 15 anos, viabilizar uma nova indústria do carvão”, pontua.
Zancan reforça o quanto os políticos são importantes nas pautas de Brasília. “Você tem que ter lá em Brasília uma tropa de choque, vamos dizer assim, uma força de tarefa que tem uma pauta. Põe na mão deles e todos se ajudam nesse projeto. São diversos partidos e cada um tem um apoio. A gente transita bem em todas as matrizes partidárias, porque é importante, e eu estou no carvão há 34 anos, então já passei por vários governos, várias matrizes partidárias e o importante é que a nossa indústria está de pé. Mas a gente quer e precisa reinventar, nós estamos há 40 (anos) e queremos chegar a 60, 70 (anos), porque carvão existe, tem embaixo da terra para muitas e muitas décadas. Então você tem que ver de que forma você atende aos anseios da sociedade que são as reduções das emissões. E é isso que a gente tem que trabalhar”, diz.
A importância da Satc em todo o processo
Diretor da instituição, Zancan reforça a importância da Satc no processo do carvão.“A Satc é o Centro de Inteligência da Atividade Carbonífera. Inteligência de Desenvolvimento Tecnológico. Então, nós estamos hoje com um portfólio de mais de 10, 12 milhões de projetos de P&D específicos para carvão. E estamos fechando mais um de 15 milhões agora. Então, são projetos de porte, em que a gente trabalha no escalonamento já com plantas piloto”, diz.
Ele ressalta quantos profissionais a Satc já desenvolveu.“O Centro de Tecnologia foi pensado em 2007. Nós estamos em 2025. São 18 anos de trabalho e tem mais de 75 milhões investidos ali dentro. E muita gente formada. Muita gente que aprendeu a estudar e desenvolver tecnologia com apoio internacional, rodando o mundo. Então, a gente hoje é o coração pulsante da tecnologia da atividade carbonífera”, declara.
Zancan se diz orgulhoso de ser diretor da Satc. “Estou há 35 anos como diretor da Satc. E vejo tudo isso que está acontecendo. Os prêmios todos que a Satc ganhou esse ano. O novo prédio que nós estamos lançando agora também. Enfim, investimentos. Tudo isso tem por trás o que? A indústria do carvão. Se não tivesse a indústria do carvão, nós não teríamos a Satc. Então, pra nós é fundamental desenvolver os projetos que a Satc está avançando. O Vivera é um deles. As cadeias produtivas na área de inteligência de TI. Cybersegurança e inteligência artificial. Tudo isso que nós estamos alavancando. Então quem está por trás de tudo isso é a indústria do carvão. Sem ela não teria a Satc”, finaliza.




