Em diversas partes do Brasil, os animais silvestres não são apenas elementos da biodiversidade, são também expressões vivas da cultura local. Estão nas músicas, nas lendas, nos mitos e nas histórias que passam de geração em geração.
No entanto, no sul de Santa Catarina, esse elo entre fauna e cultura tem sido quebrado ao longo das últimas décadas, e recuperar esse vínculo pode ser essencial não apenas para preservar espécies ameaçadas, mas também para resgatar uma identidade regional esquecida.
Quem traz esse alerta é o biólogo e pesquisador Vitor Bastos, que há anos desenvolve um trabalho de mapeamento e educação ambiental voltado à fauna silvestre do sul catarinense.
Utilizando armadilhas fotográficas e registros informais da população, Vitor documenta a presença, e muitas vezes o reaparecimento, de espécies como bugios-ruivos, gatos-do-mato, veados-catingueiros, graxains-do-mato e iraras, em meio a fragmentos de floresta atlântica inseridos em zonas urbanas e rurais da região.
“Muitas crianças de Criciúma e cidades vizinhas nunca viram um animal nativo da região. Elas reconhecem leões, elefantes e girafas, mas não sabem o que é uma irara ou um gato-do-mato-pequeno. Isso revela um apagamento profundo da nossa identidade ecológica e cultural”, afirma o pesquisador.
Essa ausência de referência à fauna local nos espaços urbanos e no imaginário das pessoas cria o que Vitor chama de “extinção cultural”, quando um animal desaparece não apenas fisicamente, mas também da memória coletiva.
E esse processo, segundo ele, tem consequências diretas sobre o modo como a sociedade valoriza (ou ignora) os remanescentes naturais da região.
Em outras regiões, a fauna é cultura viva
Enquanto no sul de Santa Catarina a fauna parece ter sido culturalmente esquecida, outras regiões do Brasil mantêm uma relação muito mais simbólica com os animais nativos.
Na Amazônia, o boto-cor-de-rosa é protagonista de lendas populares, festivais e músicas folclóricas. O jacaré-açu é figura recorrente no artesanato ribeirinho e nos mitos indígenas. No sertão nordestino, o tatu-bola virou símbolo de resistência da Caatinga e chegou a ser mascote da Copa do Mundo de 2014.
Já no cerrado, o lobo-guará, hoje estampado na nota de R$ 200, integra contos tradicionais, é reverenciado por povos originários e serve como embaixador de campanhas de conservação.
No sul do Brasil, um dos exemplos mais marcantes dessa valorização simbólica da fauna ocorre no bioma Pampa, sobretudo no Rio Grande do Sul. Ali, animais como bugios, veados, graxains e jaguatiricas são constantemente mencionados em músicas, poesias e narrativas regionais.
Canções como “Bugio Malvado” (Leonel Gomes) e “No Fundo da Grota” (Baitaca) descrevem sons, hábitos e paisagens que incluem diretamente a presença da fauna silvestre, tornando-a parte inseparável da identidade cultural gaúcha.
“O bugio ruge no mato fechado”, canta Baitaca, em um verso que, além de musical, é um retrato sonoro e afetivo do sul brasileiro. O canto do bugio, nesses contextos, não é apenas um som — é memória, pertencimento e paisagem emocional.
O caso de São Francisco de Assis (RS)
Em São Francisco de Assis, município do interior gaúcho, os bugios-ruivos se tornaram parte cotidiana da vida urbana. Os animais circulam livremente por áreas arborizadas da cidade, são reconhecidos por seus sons e respeitados pela população.
Em alguns bairros, moradores relatam encontros diários, tomam cuidado ao dirigir para não atropelá-los e relatam histórias de convivência com orgulho e admiração.
Ali, o bugio é mais que um animal silvestre — é um mascote afetivo, um símbolo da cidade. A sua presença é vista com respeito e carinho, e ele integra a memória coletiva local.
E no sul de SC, o que restou?
Contrastando com esses exemplos, o sul catarinense vive hoje uma realidade oposta: o afastamento da população em relação à fauna nativa. Mesmo em cidades rodeadas por morros, matas e unidades de conservação, como Criciúma, Morro da Fumaça, Içara e Siderópolis, há uma desconexão entre os moradores e os animais que ainda resistem em fragmentos florestais.
“Já tive que explicar para turmas inteiras o que é uma irara. Alguns alunos achavam que era um tipo de furão ou um bicho de desenho animado. É como se os animais daqui tivessem sido apagados das referências culturais das novas gerações”, relata Vitor.
Esse fenômeno, segundo o biólogo, é resultado de um processo histórico: o desmatamento da Mata Atlântica, o crescimento urbano sem planejamento e a ausência de políticas de educação ambiental voltadas à fauna local. O problema, porém, não é apenas ecológico — é cultural.
Recuperar a fauna é recuperar a identidade
Para Vitor, proteger os animais silvestres e os fragmentos florestais remanescentes é também proteger a história e a identidade do território.
Ao desenvolver projetos como “Fauna Ativa nas Escolas”, ele leva esse debate às salas de aula, promovendo o reconhecimento dos animais que vivem nas cidades e arredores, e despertando nas crianças e adolescentes um sentimento de pertencimento e responsabilidade.
“Se as pessoas voltarem a reconhecer os animais como parte da sua cultura, elas vão querer protegê-los. E com isso, vão enxergar as áreas verdes como patrimônio — não como terrenos vazios”, afirma.
Quando a fauna some, a cultura empobrece
A fauna não é apenas um objeto de estudo da biologia. Ela é expressão cultural, identidade local e elo com o território. O desaparecimento dos animais silvestres do sul catarinense revela mais do que uma crise ecológica: revela uma ruptura simbólica, um vazio afetivo e um empobrecimento do imaginário coletivo.
Recuperar esse vínculo é urgente, para a natureza, para as cidades e para a cultura.





