Alexandra Cavaler
Criciúma
Falar sobre filhos que partiram antes do tempo ainda é um tabu para muitas famílias. Mas para a tubaronense Karine De Pieri Cardozo, dar voz ao luto gestacional e neonatal é uma forma de manter vivos os filhos que não estão mais em seus braços e de ajudar outras mulheres a encontrar amparo e coragem em meio à dor. Mãe do pequeno Emanuel e de outro bebê que perdeu com menos de três meses de gestação, ela decidiu tornar público um processo que, para muitas, ainda é vivido no silêncio.
“Falar sobre meus filhos no céu é algo que venho lutando dia a dia pra que se torne ‘normal’, natural. Eles existiram. Um com menos de três meses de gestação e o Emanuel por 30 semanas na barriga e 30 dias nos meus braços. Eles representam a dor que se transformou em um propósito”, explica Karine, que acredita que cada um dos filhos veio com uma missão. O primeiro, com a função de despertar nela a sensibilidade para acolher outras mulheres que passaram por perdas parecidas. Já Emanuel, que lutou bravamente por 30 dias na UTI Neonatal, inspirou a criação de uma lei que promete mudar a realidade de muitas mães em todo o país: a Lei 15.139/25 (Institui a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental), que garante acolhimento psicológico às famílias que vivenciam perdas gestacionais e neonatais no ambiente hospitalar.
“A perda do Emanuel foi extremamente difícil. Ele nasceu prematuro e faleceu por uma infecção hospitalar. Quando o quadro se agravou e o perdemos em poucas horas, foi uma dor que parecia impossível de suportar”, lembra emocionada.
Tristeza silenciada
A primeira perda deixou marcas profundas. O impacto emocional, porém, foi agravado pela falta de sensibilidade do ambiente hospitala. “Logo após o procedimento de retirada, fui colocada numa sala de recuperação com outras mães que estavam com seus bebês no colo e ao lado de uma sala de parto. Quando um bebê chorou, ali caiu a ficha: meu sonho havia sido interrompido, e eu não teria mais a chance de conhecer aquele filho. E além da dor física e emocional, enfrentei a dificuldade de validar meu luto diante da sociedade, pois para muitos era uma perda gestacional, algo normal que acontece. Mas pra mim era um filho. E isso é o que mais machuca”.
Um grito por empatia
Após a perda de Emanuel, vieram os dias em que ela sentia que não iria amanhecer viva. Mas foi na escuta e na partilha com outras mães enlutadas que Karine encontrou força para transformar a dor em algo maior. Ao conversar com mulheres que passavam por situações semelhantes, ela diz que percebeu que o luto materno é ainda invisível, e que muitas mães sofrem caladas, com medo, vergonha ou falta de apoio.
“Hoje se fala pouco sobre isso. Algumas pessoas não querem tocar no assunto, outras não sabem o que dizer. Mas pra nós, mães, quanto mais abertura houver para falar, mais fácil será passar pelo luto”, ressalta, enfatizando que com apoio da família, de sua médica e da psicoterapia, seguiu, mas lamenta que esse suporte ainda não esteja disponível para todas. “No SUS, hoje, não existe essa disponibilidade de acolhimento psicológico. Isso é urgente. A ausência desse cuidado pode afetar profundamente a vida de um casal e de uma nova gestação”.
Do pesar à ação e o chamado para a sociedade

Karine encontra forças junto do marido Rafael e da pequena Luna, e na fé – Acervo da família
A caminhada dolorosa virou propósito. Com fé, terapia e o apoio de outras mães, Karine passou a compartilhar sua história no Instagram (@karine.cardozo) e a participar de iniciativas pela humanização do luto perinatal. A aprovação da Lei 15.139/25 é resultado direto dessa luta. “A Lei é um propósito cumprido. Um ambiente acolhedor e uma equipe especializada trarão muito mais amor, segurança e menos trauma para a família enlutada. Nosso agradecimento eterno à deputada Geovania de Sá, que nos escutou, nos acolheu e fez o nosso propósito virar lei”.
Karine faz questão de lembrar que um bebê que parte, seja com poucos dias de gestação ou de vida, é um sonho real, um filho que existiu. “A sociedade ainda sabe pouco sobre o luto gestacional porque se fala pouco. Mas é uma dor imensa. Não se trata apenas de tempo de convívio, e sim de tudo que foi sonhado e interrompido”, diz incentivando: “Mamães, estamos juntas. Você não está sozinha. Procure ajuda, fale sobre sua dor. Não tenha vergonha. Você foi mãe e sempre será. Fé e ciência andam juntas. Você vai conseguir viver com o luto e a alegria de ter um filho em casa. Acredite”.
A dor invisível que precisa ser ouvida
A psicóloga, Fernanda Fernandes, professora da Unesc, fala sobre os impactos emocionais e sociais da perda gestacional e neonatal e a urgência do acolhimento humanizado. Apesar de ainda ser um tema evitado por muitas pessoas, o tema começa a ganhar visibilidade por meio de histórias como a de Karine que hoje é voz ativa na luta por mais acolhimento e respeito às mulheres que enfrentam a perda de um filho.
Fernanda, especialista em saúde mental, reforça que o luto materno é uma das experiências mais intensas que uma mulher pode viver. Ele impacta profundamente a saúde mental, podendo desencadear tristeza intensa, depressão, ansiedade, distúrbios do sono, alterações no apetite e sentimentos de culpa. “Além do sofrimento emocional, o que torna esse tipo de luto ainda mais difícil é o silêncio social. É um luto permeado por sonhos interrompidos, expectativas desfeitas. E muitas vezes é silenciado pela sociedade, que tem dificuldade em reconhecer a dor de uma mãe que perdeu um filho ainda no ventre ou nos primeiros dias de vida, assinala.
Para Fernanda, embora existam modelos teóricos que descrevem fases do luto, o processo é único. “Cada mulher vive o luto de acordo com sua história, com o vínculo que criou com o filho, suas crenças, rede de apoio, estrutura emocional. O mais importante é respeitar a individualidade de cada uma. Além disso, o acolhimento imediato é fundamental, ou seja, o ferecer escuta e cuidado no momento da perda ajuda a conter o sofrimento e validar a dor. Essa mulher precisa sentir que sua dor é legítima e que ela não está sozinha. E cabe ressaltar que esse apoio não deve vir com pressa ou frases feitas. Desta forma evite expressões como ‘Deus sabe o que faz’, ‘pelo menos foi cedo’ ou ‘você pode tentar de novo’. Essas frases, embora bem-intencionadas, invalidam a dor e aprofundam a solidão”, alerta.
Riscos emocionais
A profissional também destaca os riscos emocionais de não viver o luto de forma saudável: “Ignorar ou reprimir a dor pode gerar depressão, isolamento, dificuldades nos relacionamentos e até perda de sentido da vida. Por isso, a psicoterapia é essencial nesse processo. Inclusive, há abordagens terapêuticas eficazes para o luto materno, como a logoterapia (trabalha com o sentido da vida), a psicoterapia do luto centrada no significado, a psicanálise e a TCC. O importante é que essa mulher encontre um espaço seguro para falar, ressignificar sua história e continuar, argumentou, acrescentando que outro recurso de grande ajuda são os grupos de apoio. “Nesses grupos, mães compartilham dores semelhantes, o que reduz o sentimento de isolamento. É um lugar de escuta empática e fortalecimento mútuo”.
Sobre os diferentes tipos de perda, Fernanda ressalta: “Perdas gestacionais, neonatais ou na infância têm nuances distintas, mas todas são intensas. A dor daquilo que não se pôde viver é tão real quanto a dor de perder um filho já crescido”, reforça Fenanda, deixando uma reflexão: “Validar a dor do luto materno é reconhecer que esse filho existiu. É dar espaço para o sofrimento, com empatia e escuta. E entender que, sim, é possível viver com o luto e com a alegria. As duas coisas podem coexistir.”
Evite frases como:
“Deus sabe o que faz”
“Aindabem que foicedo”
“Você é jovem, podetentar de novo”
“Pelomenosvocêtem outros filhos”
Lei se torna símbolo do avanço no reconhecimento da dor
A deputada federal Geovania de Sá foi a responsável por propor e conquistar a aprovação da Lei Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental, uma iniciativa que busca dar visibilidade, acolhimento e respeito às mulheres que perdem seus filhos, muitas vezes em um momento de grande vulnerabilidade e silêncio.
Movida pela história de uma mulher que, após perder o bebê, foi colocada no mesmo quarto de outra mãe comemorando o nascimento, Geovania destaca que essa realidade evidencia uma falha grave no sistema de saúde brasileiro. “A dor da perda de um filho não pode ser tratada como algo invisível”, afirma a deputada, que enfatiza ter recebido essa demanda diretamente da sociedade e grupos de apoio, tornando-se um chamado à ação impossível de ignorar.
Para Geovania, o luto materno é uma dor frequentemente invisível para a sociedade e para as instituições de saúde. “Não é apenas a perda do bebê, mas a falta de acolhimento, de estrutura física e psicológica. É a mãe que chora e precisa fingir normalidade porque não há suporte nem compreensão”, explica.
O que diz o documento aprovado

A lei, sancionada recentemente, institui uma política nacional que prevê apoio psicológico imediato às mães, sepultamento digno do bebê, alojamento separado para mulheres enlutadas, acompanhamento em futuras gestações e capacitação dos profissionais de saúde para oferecer um atendimento humanizado. Além disso, a legislação inclui assistência social para orientar as mães em trâmites legais e garantir que não sejam expostas ao julgamento ou isolamento. Uma importante conquista simbólica da lei é a instituição de outubro como o Mês Nacional do Luto Gestacional, Neonatal e Infantil, visando ampliar a conscientização e transformar essa dor em acolhimento e respeito.
Durante o processo de tramitação, que durou cerca de três anos, Geovania enfrentou poucos obstáculos, recebendo amplo apoio na Câmara dos Deputados e no Senado. Ela também contou com o suporte de outras parlamentares, movimentos ligados ao parto humanizado, psicologia perinatal e doulas, que uniram forças em defesa da vida e do respeito à dor das famílias enlutadas. O processo de construção da lei foi marcado pela escuta ativa de mães que viveram a experiência dolorosa da perda.
“Ouvir relatos como o da mãe que, com os seios cheios de leite, foi obrigada a conviver com o choro de outro bebê, foi crucial para a elaboração de uma legislação que realmente acolha essas mulheres. E a sanção da lei representa uma mudança prática no acolhimento físico, psicológico e social destas mães enlutadas, garantindo respeito e reconhecimento oficial da dor. Espero que a legislação possa dar às mães o apoio real que merecem, protegendo-as do sofrimento sem amparo e permitindo que reconstruam suas vidas com mais serenidade”, pontuou a deputada.
Ministério da Saúde
Já em diálogo com o Ministério da Saúde, a deputada destacou a importância de capacitar profissionais da área para implementar a lei em todos os níveis de atendimento, do posto de saúde ao hospital. Para ela, essa iniciativa é apenas o começo de um trabalho maior, que envolverá a ampliação da formação dos profissionais, o engajamento de mais instituições e a criação de grupos de suporte psicológico e comunitário para as mães. “A humanização da saúde da mulher será uma luta contínua do meu mandato”, afirma Geovania, que acredita que o reconhecimento e a acolhida da dor materna são passos essenciais para uma sociedade mais justa e sensível.




