Por milênios, as sementes foram essenciais para a transição das civilizações de nômades a sedentárias. Alimentos como arroz, milho e tubérculos tiveram origem em regiões como China, Índia e América. Ainda hoje comunidades continuam hábitos de produzir e replicar sementes crioulas, variedades que mantém intactas suas genéticas de milhares de anos, mas sofrem enorme pressão das grandes corporações do segmento de sementes e insumos que buscam monopolizar este setor.
Os avanços na ciência agrária e genética transformaram o segmento, criando sementes geneticamente modificadas e estéreis, controladas pelas corporações. Em resposta, a agroecologia e a produção orgânica surgem como alternativas para proteger o planeta e a humanidade. Grande parte dos alimentos consumidos no Brasil vem da agricultura familiar, que inclui tanto sistemas convencionais quanto orgânicos, embora este último seja mais vulnerável às políticas públicas que favorecem o agronegócio.
Nos últimos anos, foram criadas legislações para estimular a agroecologia, como o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PLANAPO), que envolve 14 ministérios e destina 9 bilhões de reais para 197 iniciativas. O plano promove pesquisa, inclusão social e incentivos à agricultura familiar. Junto a ele, o Pronara busca reduzir agrotóxicos, mas enfrenta críticas por não incluir a eliminação de todos os tipos de agrotóxicos, devido à pressão do agronegócio.
A Rede Agroecológica Ecovida, que reúne produtores e consumidores no sul do Brasil, é um exemplo de organização do setor, com núcleos como o SARRAMAR, de Santa Catarina, debatendo questões como a exigência de sementes e mudas orgânicas, imposta pela Portaria n. 52. A mobilização do setor resultou na suspensão temporária dessa exigência por dois anos, conforme a Portaria n. 685 de 2024. Agora, o núcleo busca alternativas para os horticultores, promovendo encontros e capacitação para a produção de sementes e mudas orgânicas.
Nesse sentido, a etapa I de IV do encontro rede de sementes Ecovida ocorreu em Chapecó, nos dias 25 e 26 de setembro. Já a segunda etapa, teve palco no município de Jaguaruna, entre os dias 17 e 18 de outubro, com cerca de 100 inscritos, vindos dos três estados do sul do Brasil. Jairo Cesa, professor, entusiasta no assunto e integrante do grupo de apoio, esteve presente.
O público teve a oportunidade de conhecer o histórico e a atualidade na produção de sementes, sua origem e a diversidade, sua importância, seu manejo e tratamento, as formas de colheitas, o seu armazenamento e o plano para garantir a manutenção da agrobiodiversidade, suprindo as demandas de sementes da agricultura familiar agroecológica em qualidade. Durante as falas dos técnicos e pesquisadores, os produtores de hortaliças tiveram a oportunidade de apresentar e compartilhar suas experiências de fracassos e sucessos no manejo dessa atividade.
No segundo dia do evento, o público foi recepcionado na propriedade de uma família de agricultores agroecológicos no mesmo município. A proprietária do sítio, Maria das Alegrias Garcia, contou sobre suas vivências e apresentou as plantações aos participantes. Por cerca de duas horas, o público envolvido no evento sobre sementes, teve a oportunidade de conhecer um verdadeiro berçário de variedades de hortaliças em diferentes estágios de desenvolvimento.
Para Jairo, a agroecologia tem um significado fundamental. “Acredito que quem prestou atenção nas falas repletas de conhecimento e emoção da Dona Maria das Alegrias, deve ter compreendido que ser agroecológico vai muito além do resultado econômico em si, é um processo sinérgico, onde solo, ar, água, plantas, animais, trocam energias, se realimentando ininterruptamente”, finalizou ele.




