Uma paixão que vai muito além das quatro linhas

Fernando Geremias é dono de uma invejável coleção com mais de 750 camisas do Criciúma, desde a época do Comerciário. São itens históricos, adquiridos desde 2010 pelo torcedor, e que contemplam uniformes utilizados a partir da década de 60

Tiago Monte

Criciúma

Diversos torcedores do Criciúma possuem dezenas de uniformes do clube no armário e abrem sorrisos ao exibirem elas aos amigos. O que dizer, então, de um fanático que tem mais de 750 camisas do Tigre e 1000 camisas no total? Fernando Rech Geremias, de 35 anos, morador de Orleans, ostenta uma das maiores coleções existentes com camisetas do Tricolor Carvoeiro.  São peças raras e usadas em jogo.

A paixão do torcedor pelas camisas do Criciúma começou em 2002. “A primeira camisa que eu ganhei foi da minha madrinha. Ela morava perto do estádio Heriberto Hülse e, após o título da Série B, em 2002, ela me presenteou . Eu guardo a camisa até hoje” , lembra.

Entretanto, foi em 2010 que Fernando deixou de ser apenas um comprador de camisas e se tornou um colecionador. “No começo, a gente diz que é um acumulador. Em 2010, o clube lançou uma camisa muito bonita, pela Penalty, com aquele patrocínio vermelho, da Seara. Porém, a camisa também era vendida ‘limpa’, sem os patrocínios. Eu achei muito bonita ela ‘limpa’, então comprei pela internet ,na época, e comprei na loja”, conta. “Então, eu deixei de lado uma coleção de cédulas e moedas, e foquei nas camisas do Criciúma, porque é da nossa região, é a nossa história, e foi a partir daí que eu comecei”, comenta.

A peça mais rara foi lançada em 1984

Fernando elenca qual a camisa mais rara que ele tem na coleção: um uniforme predominantemente preto, usado em 1984. “A que eu considero mais rara, vamos dizer assim, é uma camisa preta, que eu consegui com o ex-técnico Barbieri, campeão em 2005 e jogador de 1984. Essa é uma que eu nunca vi outra circulando. É uma camisa linda. O Criciúma usa, hoje, a camisa preta, que se denomina Carvoeira, então, eu considero aquela como a primeira Carvoeira”, destaca.

O colecionador destaca que existem camisas muito difíceis de serem obtidas. “Camisas que, na época, década de 70, 80, o clube comprava na loja, por exemplo, da Adidas e botava o próprio escudo. Aquela camisa ia até se acabar, até alguém perder o número, desfaze, rasgar… E aí tiravam aquele jogo de camisas de cena. Eram camisas únicas”, pontua.

A peça favorita da coleção de Fernando está colocada em um quadro e fixada no corredor da casa em que ele mora. “Essa eu não trago para a exposição. E todo dia, quando eu passo pelo meu corredor, vejo: Jairo Lenzi, Grizzo, Soares, Sarandi, Alexandre Pandóssio… É uma camisa de 1990, toda autografada pelos campeões de 91, já que eles jogavam juntos desde 89, 90, 91 e 92. Então essa é aquela camisa! É um prazer passar pelo corredor e avistá-la com todos aqueles nomes” , comenta, orgulhoso.

A camisa foi adquirida em uma daquelas históricas típicas de colecionadores de itens. “Eu consegui a camisa que era de uma pessoa que trabalhava no Banco do Brasil, se eu não me engano. E ele que fazia o pagamento aos jogadores. Chegou um certo dia, os jogadores do Criciúma presentearam ele com essa camisa. Então, o filho dele acabou vendendo, na época, por 400 reais. Em 2010, quando comprei, as camisas custavam 150 reais. As camisas não eram caras. Com o passar do tempo, com o crescimento dos colecionadores, aumentaram os valores”, ressalta.

O sonho é ter uma camisa específica da década de 60

Todo colecionador alimenta o sonho de ter uma peça específica. E com Fernando não é diferente. A camisa que ele busca é da década de 60. “Ela é muito rara. Eu tenho duas do Metropol, da década de 60, então, ela já tem cerca de 60 anos. Tenho a faixa de campeão do Metropol, mas do Comerciário parece que as coisas se apagaram. É mais difícil de achar artigos referentes ao Comerciário. Mas, o meu sonho é conseguir uma camisa da década de 50, ou 60, do primeiro título estadual, 1968, foi o único título estadual do Comerciário”, comenta.

Além de comprar, Fernando também ganha camisas. E uma peça do Comerciário, chegou até ele através de um presente dado pela filha de Carlitos Rovaris, um dos fundadores do clube. “Ela me procurou, na rede social, e disse: ‘meu pai é um fundador do Comerciário’. Então, eu entrei em contato e a pessoa morava no Nordeste. E ela falou: ‘Tenho uma camisa velha aqui, se tu quiseres, eu posso te mandar’. Ela não cobrou nem o correio, nada: só mandou. Quando eu faço exposição, eu homenageio o pai dela”, ressalta.

Fernando ressalta que não é fácil conseguir as camisas, principalmente as mais raras. A relação com outras pessoas envolvidas com futebol é muito importante para obter as peças. “A gente consegue e tenta de todos os jeitos possíveis. Como eu faço parte de um grupo de colecionadores, então, muita gente acaba recomendando: “Ó Fernando, tem essa camisa do Criciúma”. Muita gente acaba marcando em publicações, nas redes sociais, e mandando o link, e mandando contato de pessoas conhecidas, pessoas do meio do futebol. Então, no Facebook, desde do Orkut, a gente está atrás desse pessoal” , explica.

Camisa adquirida direto com um mendigo

O colecionador não mede esforços para conseguir as camisas que deseja. Qualquer pessoa que ele avista, na rua, com uma camisa do Criciúma, é abordada. “Se a gente encontrar na rua, a gente compra. Já comprei de mendigo, já comprei no estádio…Tem muitas histórias. Desde entrar em brechó, desde estar trabalhando e, daqui a pouco, o funcionário da empresa vem com a camisa. Então, onde a gente vê, é uma porta que se abre. E é ali que a gente vai entrar e vai resgatar a camisa”, enfatiza.

Andando por Criciúma, Fernando abordou um mendigo, que vestia uma camisa do Tigre, e a comprou. “A gente está sempre ligado. Então, andando por Criciúma, já ofereci 10 reais, 20 reais em camisas. E a pessoa sai feliz porque ganhou fácil. São diversas histórias bem curiosas”, pontua.

E quanto custa uma camisa? Eis o mistério

Quando Fernando é perguntado sobre os preços da camisa, ele desconversa. “O valor é uma coisa que a gente costuma não falar. A camisa do Criciúma é muito valorizada. No estado de Santa Catarina, é a camisa mais cara, é a mais difícil de conseguir, pelo menos as mais antigas. E também tem as camisas azuis do Comerciário e do Criciúma. Parece que o Criciúma acabou apagando essa história. O clube é partir da mudança das cores, até porque também vieram os títulos de 86 e a época de ouro: 91. Então, é muito difícil achar um material desse. Essas camisas saem por alguns milhares de reais. Não são baratas. E, às vezes, a gente faz algumas loucuras para conseguí-las”, comenta.

Entretanto, Fernando revela que é “tranquilo” pagar mais de mil reais em determinadas camisas. “Mil reais é um preço que, hoje, está tranquilo de pagar. Uma camisa de 91, 92, muitas pessoas tão pedindo nessa faixa, hoje em dia. E as azuis são mais raras e mais caras. Mas também já ganhei muita camisa, já fui ajudado por muita gente. A camisa mais antiga que eu tenho, ganhei da filha do fundador do comerciário. Então, tem umas histórias muito legais, porque as pessoas sabem que eu não faço isso por dinheiro. Eu faço isso pela história, para resgatar e para manter essa história sendo contada”, destaca.

Hoje, existem alguns colecionadores dedicados apenas a camisas do Criciúma. Porém, nem sempre foi assim. “Em 2010, só tinha eu e o Lucas Reus. Hoje, o Criciúma tem mais de 15 colecionadores com mais de 200 camisas. Então, tem muito colecionador com muita camisa. E é muito bom isso, porque todo colecionador tem alguma camisa que eu não tenho, e é assim: todo mundo faz o ‘garimpo’. Daqui a pouco, eu troco uma camisa, ajudo o outro, outro me ajuda, e todo mundo sai ganhando”, ressalta.

Esposa apoia a coleção, mas sem “loucuras”

Fernando é casado e tem uma filha de cinco anos. A esposa, segundo o colecionador, “até apoia” a coleção, mas sem exageros. “Ela gosta também, mas isso demanda muito tempo e dinheiro. Então, ela me apoia, até certo ponto. Eu não posso exagerar. Então, a gente tem que dar atenção, primeiramente, para a família. Depois, ter a coleção, cuidar da história, fazer eventos. A gente tem muitos convites para apresentar as camisas, mas tudo dá muito trabalho. Então, primeiro lugar a família e depois o nosso Tigre”, pontua.

Quem tiver camisas para oferecer, trocar ou quiser apreciar as raridades pode seguir o perfil do Instagram: @colecaocriciuma . “Chama ‘inbox’ que a gente conversa. Saiba que vou cuidar, vou sempre fazer o resgate histórico e lembrar. E não é só pelo dinheiro, mas, sim, pela história”, finaliza.

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