Violência doméstica: a dúvida entre o medo e a coragem de denunciar

Letícia Ortolan
Criciúma

A violência é caracterizada pelo uso da força física ou do poder. Ás vezes é praticada dentro de ambientes que não se imagina, e as figuras femininas são o principal alvo. Porém, o grito silencioso daquelas que tem medo de serem ouvidas, pode ser escutado em uma simples fala arrastada. Em Criciúma, conforme dados da Secretária de Saúde, nos dois últimos anos mais de 220 mulheres foram agredidas pelo parceiro. O número representa um aumento de 60% comparado a 2018 e 2019.

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Durante dez anos, Gabriela*, de 44 anos, foi vítima de violência doméstica. Para ela, tudo se resumia em apenas um sentimento: culpa. “Eu fazia parte de um casamento tóxico. No primeiro tapa que levei, não conseguia entender. Só pensava que era culpada e merecia aquilo. Ele sempre me enchia de presentes depois, me dava flores. Ao mesmo tempo que me batia, me acariciava. Fazia uma tortura psicológica tão grande, que eu achava aquele comportamento normal”, disse.

Natural de Imaruí, Santa Catarina (SC), e residente de Criciúma, Gabriela começou a sofrer violência doméstica dentro do seu segundo casamento, após ficar viúva do pai das suas duas filhas que na época, tinham dois e cinco anos. O primeiro esposo morreu em outro país, onde estava residindo para juntar dinheiro para a família. Ela ficou sozinha por dois anos, até que conheceu o seu segundo marido. A relação deles iniciou em 2004 e acabou em 2012.

“No terceiro mês de namoro, eu terminei. Não tinha amor, mas ele insistiu para voltar. Eu ainda estava sofrendo e com medo de ameaças que sofria da família do meu falecido marido, que não se conformava com a morte dele. Acabei voltando e fiquei grávida dele, o que dificultou ainda mais. Quando pensava em terminar, lembrava que estava com um bebê na barriga e mais duas crianças para criar sozinha”, ressaltou Gabriela.

Móveis quebrados dentro de casa ir trabalhar com manchas roxas no corpo e não ter acesso ao próprio salário virou algo frequente na vida da Gabriela. Mas além do medo, ela sentia vergonha da situação e não tinha coragem de pedir ajuda tampouco denunciar. As duas filhas, do outro casamento, também começaram a sofrer violências físicas do padrasto. E tudo foi ficando cada vez mais difícil de suportar.  Até que depois de oito anos, ela se separou.

“Minhas duas filhas mais velhas ficaram de maior e resolveram ir morar sozinhas porque não aguentavam mais viver daquele jeito. Foi quando senti coragem de terminar, porque sabia que não conseguiria continuar passando por aquilo sozinha. Só que mesmo depois de separados, continuei sofrendo violência, principalmente psicológica. Fui à polícia várias vezes, fiz denúncias, mas ele entrava na minha casa de qualquer forma, quando eu via, já estava dentro”, explicou a vítima.

Patrícia*, de 26 anos, também foi vítima de violência doméstica. Ela mora em Turvo e sofreu agressões dentro de três relacionamentos diferentes. O primeiro, pai do seu filho, eram agressões verbais e psicológicas. O segundo, ataques físicos que resultaram em grandes hematomas, assim como o terceiro.

“O meu segundo namoro me levou para o caminho da droga, eu estava cheia de frustrações e me deixei levar. Terminamos e eu comecei a namorar um traficante, me afundando ainda mais. Eu tinha várias marcas internas por conta da maternidade, quem criava o meu filho eram os avôs paternos. Descontava tudo aquilo na cocaína”, indagou Patrícia.

Em um dia, sob feito de droga, o companheiro de Patrícia a espancou. “Ele já tinha esse histórico com mulheres anteriores, mas nunca tinha feito nada comigo. Depois pediu desculpas, disse que não aconteceria mais e eu permaneci no relacionamento”, ressaltou a vítima, que após o fato, apanhou várias outras vezes. “Então em um dia ele saiu para fazer uma entrega de droga e eu fugi de casa. Não agüentava mais. Bati na casa da primeira família de vizinhos e eles me ajudaram”, acrescentou.

Patrícia também registrou Boletim de Ocorrência (B.O) contra os dois parceiros que a agrediram fisicamente, mas sempre teve medo e vergonha de levar adiante. O ex-companheiro, na época atual, só respeitou a decisão de término quando a família da vítima levou para uma clínica de reabilitação, na expectativa de ela superar o vício da droga.

“Minha mãe me levou para uma clínica e fiquei lá por alguns dias. Foi isso que fez o meu ex-companheiro me esquecer a parar de vir atrás de mim. É importante que a gente entenda alguns sinais e busque ajuda para evitar que a situação chegue nesse nível”, enfatizou Patrícia.

Tipos de violências

Existem vários tipos de violência. Na doméstica e familiar, são classificadas como de gênero, física, moral, psicológica, sexual e patrimonial. Por mais que na sua grande maioria, aconteça por parte do conjugue, também há situações em que um membro familiar de sangue ou criação seja o torturador.

Alguns exemplos de situação de violência consistem em humilhar, xingar e diminuir a autoestima; controlar e oprimir a vítima; expor a vida íntima; atirar objetos, sacudir e apertar os braços; forçar atos desconfortáveis de sexo; controlar dinheiro ou reter documentos, entre outras.

Violência familiar

Raque*l, de 56 anos, sofreu violência psicológica desde pequena, pela parte da sua mãe. Em 2021, depois de já ter sua vida completamente encaminhada e carregar tantas marcas de sofrimento, ela resolveu criar certa distância e impor alguns limites. “Somos em 10 irmãos e minha mãe tem diabete, já é mais velha. Nós revisamos pra cuidar dela, mas chegou num momento que eu não aguentava mais. Ela sempre me falava coisa que me massacravam”, explicou.

Além de entender que precisava cuidar mais de si, Raquel procurou ajuda médica. “Não entendia, mas uma vez quando era pequena, ouvi minha mãe dizendo que queria ter me abortado. Ela também é uma pessoa rigorosa, ciumenta, tem um sentimento de posse e deposita nisso com as pessoas que fazem parte da vida dela”, explicou a filha.

Alice*, de 47 anos, sofria violência psicológica tanto do marido, quanto da família dele. “Meu marido e toda a família dele são descentes de alemão. Quando casamos, há 29 anos, ninguém me aceitava por não ter essa característica. Todos eles eram muito brutos comigo”, disse.

Atualmente, Alice continua casada e mantém distância da sogra e da cunhada. “Meu pai morreu em 2012 e depois disso, meu marido mudou muito comigo. Hoje em dia eu tenho um bom casamento, mas tento conversar sobre isso e colocar pra curar as feridas que eu tenho”, explicou.

Roda de conversas

A Unesc, em parceria com o Núcleo de Prevenção às Violências e Promoção da Saúde (Nuprevips) e o Núcleo de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (Nupcis) da Prefeitura Municipal de Criciúma, está promovendo semanalmente, uma roda de conversas para mulheres que sofrem ou já sofreram violência doméstica e familiar. Gabriela, Patrícia, Raquel e Alice, fazem parte do grupo e hoje conseguem falar de forma aberta por todas as situações que já passaram, graças a ajuda que estão recebendo.

“A ideia do grupo é abrir espaços para que as mulheres se reconheçam. Existem muitas que querem falar, expor suas cicatrizes, mas que não tem oportunidade disso. Iniciamos com o projeto há pouco mais de um mês e estamos em um período de aquisição e chamamento, mas entendemos a importância da pauta”, enfatizou a Conforme a assistente social do Nuprevips Andréa Vieira da Silva.

Conforme a psicóloga do Nuprevips Paola Rodegheri Galeli, tanto o núcleo quanto a roda de conversas, trabalha com a ideia de respeitar o tempo e espaço de cada integrante. “É importante que a mídia e as políticas públicas falem sobre isso e que a sociedade esteja pronta para receber essas pessoas, seja na saúde, em um atendimento psicossocial, orientação jurídica”, salientou.

Em 2020 a cidade de Criciúma apontou 555 casos de situações de violência interpessoal em diferentes situações. Já em 2021 foram 735 casos na cidade, conforme dados apurados na Secretaria de Saúde do Município. “Desses 555 casos registrados, 374 deles são de violência contra mulheres e, dos 735 registrados no ano passado, 491 também de violência contra mulheres”, ressalta a psicóloga.

O espaço é localizado nas Clínicas Integradas da Unesc e os encontros acontecem todas as quartas-feiras, das 14h às 16h. As mulheres que tem interesse em participar, basta ligar para o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (CMDM) no número (48) 3431-2764.

Denúncias

Pessoas que sofrem violência doméstica podem denunciar por meio do Disque 100, que trata sobre violação de direitos humanos. Para agressões de gênero, a denúncia deve ser feita direto no número 180.

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