Gustavo Milioli/Tribuna de Notícias
Forquilhinha
Os criadores de gado leiteiro da região foram alertados para um grande problema sanitário. Um surto de brucelose, doença bacteriana que atinge os órgãos reprodutores dos animais, foi detectado pela Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) nas propriedades do Sul. Mais de 60 propriedades na Associação dos Municípios da Região Carbonífera (Amrec) e na Associação dos Municípios do Extremo Sul Catarinense já foram notificadas.
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“Atualmente, na Amrec e Amesc, temos diversos focos espalhados por diversos municípios. Está bastante disseminado. A gente trabalha para erradicar esse número, no futuro. Esse é o objetivo a longo prazo. Sabemos que vai ser difícil. Os produtores rurais, em especial o pessoal do leite, têm que estar sempre em alerta com os cuidados sanitários, porque a família inteira fica em risco”, pontua José Henrique de Oliveira, coordenador regional da área de defesa sanitária animal da Cidasc.
Apenas em Forquilhinha, nove rebanhos diferentes apresentaram casos positivos. É o cenário mais crítico. Destes, um também registrou focos de tuberculose. Isso é sinal de que centenas de animais já foram infectados na região. “São zoonoses que acometem principalmente os bovinos e podem ser transmitidas para seres humanos. Os casos ainda estão pipocando conforme vamos realizando as testagens”, afirma Luiza Netto Ghislandi, médica veterinária da Cidasc de Forquilhinha.
Quando existe a suspeita, as propriedades passam por um processo de saneamento, com restrições de movimentação de animais e exames em massa regulamentados. Os casos positivos são isolados dos demais e sacrificados. “O controle persiste até que tenhamos um amparo de que a doença não esteja mais ali”, informa ela. Aos humanos, a melhor forma de prevenir o contato com a bactéria é consumindo apenas leites pasteurizados e de procedência regulamentada.
A brucelose pode causar severos prejuízos financeiros aos proprietários, uma vez que, com o abatimento, as crias também são abortadas. Existe uma indenização por parte do Estado, por meio do Fundo Nacional de Defesa Sanitária Animal (Fundesa), que ameniza parte dos danos, desde que os produtores cumpram com as normas da legislação em vigência. “Com isso, temos um rebanho mais saudável, um produto mais rentável”, pondera Luiza.
Três pessoas em Forquilhinha já se contaminaram com a doença e evoluíram a quadros graves. Se a brucelose não for tratada, o paciente pode evoluir a óbito. “Os contaminados vão definhando, perdendo peso, com falta de apetite, dores no corpo e fadiga. É uma doença que não é muito comum, os médicos não cogitam logo de cara, assim acontece o diagnóstico tardio”, explica.
Criciúma, Içara, Orleans, Lauro Müller, Araranguá, Meleiro, Santa Rosa do Sul, Sombrio e Turvo foram outros municípios da região que detectaram a incidência da bactéria.
Nova portaria do Governo do Estado justifica aumento
O problema sanitário pode ter ficado ‘escondido’ por anos até ser descoberto. Recentemente o Governo do Estado impôs, através de nova portaria da Secretaria de Agricultura, que os produtores de leite precisam ter os animais testados ao menos uma vez por ano.
“A região não tinha o costume de fazer os exames no rebanho, compravam os animais sem o exame de brucelose. A legislação diz que, quando for comprar um reprodutor, além Guia de Trânsito Animal (GTA), se exige o exame negativo para brucelose e tuberculose. Como não existia esse hábito, a doença se disseminava. As coletas recentes de laticínio mostram que, provavelmente, era um problema silencioso, que agora está aparecendo”, detalha.
A partir do caso positivo, o frigorífico é avisado e os animais contaminados são sacrificados. A carne ainda pode ser vendida, por não trazer riscos para o consumo. “A brucelose tem preferência pelos órgãos reprodutivos, por isso não há problemas em consumir a carne. Já com a tuberculose, o animal precisa ser totalmente descartado”, destaca a médica veterinária.
As coletas continuam em andamento. “O escritório de Forquilhinha está aberto para os produtores que tiverem dúvidas quanto a esses exames. Podem nos procurar que repassamos aos veterinários específicos”, arremata.
Prejuízos incontáveis
Um pecuarista de Meleiro aceitou falar com a reportagem do Tribuna de Notícias sem se identificar. Ele descobriu a incidência de brucelose em seu rebanho no ano passado, após ser notificado pela Cidasc. Somente na última semana o restante do gado foi liberado, depois de testarem negativo e receberem a vacina.
“Fiquei quase um ano inteiro sem poder vender nada. Nem comprar. Não consigo nem calcular o tamanho do prejuízo”, lamenta. O leite produzido em sua propriedade é vendido para um frigorífico da região. A empresa acusou a presença da doença no leite depois da realização dos exames. Dois animais precisaram ser sacrificados, enquanto os outros ficaram isolados.
Neste período, o criador não cessou a produção de leite, mas ficou impedido de comercializá-los. Foi a primeira vez que ele passou por esse tipo de situação desde que iniciou a atividade, há 23 anos. “Não podia entrar animal nenhum e nem sair. Estoquei toda a produção e tive que começar a vender as carnes para garantir o meu sustento”, externa.




