Gustavo Milioli/Tribuna de Notícias
Criciúma
O criciumense Eduardo Rosso levava uma vida normal até os 15 anos. O jovem passou a sentir um desconforto na região dos olhos logo no início da adolescência. Em contato com os pais, a família decidiu investigar a situação e descobriu a existência de um ceratocone, condição cuja a córnea se projeta para fora do globo ocular. A causa é desconhecida.
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Eduardo começou um tratamento para estabilizar o problema. Porém, a visão continuava o incomodando mesmo depois da alta médica. A mãe Patrícia Schneider Rosso conta que o filho reclamava constantemente que não conseguia enxergar. “Foi quando resolvemos procurar um outro médico para fazermos uma nova avaliação. Fomos a uma cidade vizinha e com o diagnóstico através de exames, o doutor nos disse que a córnea estava totalmente comprometida. Do olho direito, restava apenas 10% da visão. Do outro, o esquerdo, estava com 40% da visão”, relata.
O ceratocone havia retornado, e de uma forma mais severa. O oftalmologista disse que a única saída era um transplante de córnea. “Assim começou uma luta. Nós fomos em busca de um terceiro profissional, para termos realmente a certeza. Logo depois já fizemos a inscrição no banco nacional de transplante para entrarmos na fila”, relembra Patrícia. “Quando recebemos a notícia da necessidade de um transplante, não sabíamos o que fazer, porque nunca achamos que iria acontecer com alguém tão próximo. Foi um desespero”, frisa.
Recomeço
A angústia durou longos sete meses. Um período repleto de escuridão e com a incerteza de que um dia o sol iria brilhar novamente. Em julho de 2021, Eduardo teve a confirmação de que havia encontrado uma córnea compatível e saudável, disponível para o seu procedimento. Foi o início de uma nova vida.
“A primeira sensação foi de felicidade. É uma euforia poder enxergar novamente”, conta o jovem de 20 anos. As primeiras semanas foram de recuperação. Ele fez 16 pontos na região da vista e só retirou quatro até o momento. Ainda há muito a progredir.
“Após a cirurgia, a recuperação pode variar de um ano para mais. Devo tirar todos os pontos em até um ano e meio. A vista vai melhorando aos poucos, é algo muito delicado. Na primeira semana eu sentia bastante coceira. Foi colírio atrás de colírio. Os primeiros dias foram a base de remédio para dor. O primeiro mês foi mais difícil, depois foi ficando mais tranquilo”, observa Eduardo, que faz acompanhamento médico a cada dois meses.
O acadêmico de Matemática mantinha, antes da cirurgia, 12 graus de miopia. Agora, são menos de cinco. E diminuindo. “Existe uma dificuldade ainda, são 12 pontos para retirar. Vai melhorar bastante, assim espero”, comenta.
Concentração
O Banco de Olhos de Criciúma é responsável por atender toda a região Sul do Estado, de Passo de Torres a Imbituba. O espaço fica sediado no Hospital Materno Infantil Santa Catarina, no bairro Operária Nova. A região, que já foi referência nacional em captação de córneas, vive um momento delicado. As doações tornaram-se escassas com o início da pandemia e um regramento mais restritivo determinado pela Central Estadual de Transplantes de Santa Catarina (SC Transplantes).
As próprias equipes dos hospitais da região Sul fazem a retirada das córneas e mandam para o Banco de Olhos de Criciúma. A última recebida foi há mais de uma semana. “Quando chegam, vem o globo ocular inteiro. A gente faz a retirada dessa córnea e deixa só a parte transparente, que fica em frente aos olhos. Existe um equipamento que só tem no Banco de Olhos de Florianópolis, bastante caro, que não valeria apena o Estado investir aqui. Lá eles fazem a contagem de células para ver como está a córnea, para depois disponibilizar para transplante”, explica Franciele Kreutz, enfermeira do Banco de Olhos de Criciúma.
As córneas doadas por familiares de mortos do Sul, primeiramente são destinadas a pacientes em espera do Sul. Caso não haja ninguém na fila, o tecido é destinado a outra região. Hoje, são 470 pessoas aguardando por uma córnea em Santa Catarina. O número corresponde a 235 doadores, já que cada falecido pode beneficiar dois necessitados.
Nem todos que estão na fila de espera estão cegos. “Essas pessoas algumas têm anormalidades de visão. Existem casos de perfuração de córnea por acidente de trabalho, ou por queimadura, que precise do transplante. Existem doenças degenerativas também, que vão tirando a visão aos poucos”, aponta.
O sistema de doação é sigiloso. “A gente sabe quem doou, mas não sabe quem recebe. Não se tem essa fusão de informações, para não ter o atrito e manter a confidencialidade de informações, não ter aquele apreço emocional. Todos os transplantes nacionais recebem esse sistema”, destaca Franciele.
Dificuldades
O Banco de Olhos de Criciúma é formado por quatro enfermeiros e dois médicos. O órgão recebe, em média, de quatro a cinco córneas por mês. Um número irrisório em comparação à abrangência da região.
“É baixíssimo, tem nos afetado bastante. Desde o início da pandemia os critérios para a doação mudaram criteriosamente, o que tem prejudicado o número de doações. A SC transplantes está revendo novos protocolos para ver se diminui as normas de exclusão, para voltar a aumentar as doações”, espera.
Febre acima de 37,8°, tosse, coriza, dor de garganta. Se o morto tiver qualquer um destes quatro sintomas até 28 dias antes do óbito, ele não poderá ser um doador de córneas. Realização de piercing e tatuagem nos últimos 12 meses são outros impeditivos impostos pela SC Transplante desde o início da pandemia.
A normativa fez a quantidade de doações cair categoricamente. No Banco de Olhos de Criciúma, estima-se uma queda de 80%. A região, que já foi um exemplo a ser seguido, vê a fila não parar de aumentar. “Tinha-se muita doação, mas se perdeu muito por causa do coronavírus. Muitas vezes temos o doador, mas ele não se enquadra em critérios para a doação”, afirma a enfermeira.
Mudança de realidade
O cenário era completamente outro há 13 anos. A espera estava praticamente zerada em Criciúma, com um trabalho de muitos braços, mas que muito se passou pelo voluntário Almir Fernandes, agente de Polícia Civil aposentado, lotado por mais de três décadas no Instituto Médico Legal (IML).
“As estatísticas de mortes do IML mostravam que era possível ajudar na campanha de doação e tornar a coisa mais prática, do ponto de vista dos familiares dos falecidos, conscientizando a família desta importância”, sublinha.
Em 17 anos, até 2010, o Banco de Olhos de Criciúma chegou a realizar mais de mil transplantes. Um sucesso que atraiu atenção nacional. O IML parou de captar córneas naquele segundo semestre, depois de ter efetuado cerca de 50 procedimentos no primeiro. Um recorde sem precedentes.
Àquela época, o Banco de Olhos ainda não era administrado pelo Governo do Estado, e sim por voluntários, como Almir. “Em 2010, como não tínhamos um banco técnico, como hoje, o globo ocular era captado do doador e a gente colocava em ônibus, carro ou ambulância para ir até Florianópolis. Muitas vezes, não se chegava a tempo até lá. Por isso paramos de captar, porque não estávamos mais tendo a certeza do sucesso, não conseguíamos mais prometer aos familiares que tudo daria certo”, recorda.
Passaram-se oito anos até que o Banco de Olhos do Sul fosse inaugurado no Hospital Santa Catarina. A legislação vigente já não era a mesma em 2018. “Conseguimos essa conquista depois de muita luta. Mas a condição para tirar a córnea de um cadáver mudou e assim a gente parou. Isso vez com que a fila aumentasse. Depois, com a pandemia e novas restrições, piorou tudo mais ainda”, enfatiza.
“Está muito escasso, queremos ter o máximo possível de aproveitamento, mas está difícil. Hoje as famílias estão mais receptivas quanto a isso, diferente de como era no passado. Muitas famílias transformam aquele momento em algo libertador, esperançoso, dando continuidade à vida de outras pessoas. É como eu sempre digo, com a doação de córneas, conseguimos fazer com que as pessoas enxerguem o dia ao invés de só enxergarem a noite”, frisa.
Causas do ‘excesso de cuidado’
Franciele concorda que a triagem atual tem afastado muitos doadores, mas ela atribuiu as novas normativas aos perigos que um paciente pode sofrer caso tenha contato com um órgão infectado.
“Se for fazer transplante, é preciso baixar toda a imunidade. Se estiver recebendo um tecido que esteja contaminado, a chance de existir rejeição e do paciente evoluir a óbito é muito maior. Por isso o controle é extremamente acirrado”, pondera. O banco segue com a expectativa de a SC Transplante apresentar regramentos mais brandos em breve. “Estamos aguardando para sabermos quais serão os próximos passos, se teremos uma diminuição de critérios. Apesar de Santa Catarina ter os melhores índices de doação de órgãos do Brasil, ainda temos muito a melhorar”, completa.
Campanha de conscientização
As ações de divulgação chamando a atenção para a importância da captação não devem parar. Segundo Franciele, hoje existe entre a população uma aceitação bem maior sobre o tema em comparação a décadas atrás. “Seguimos fazendo campanhas na região, sensibilizando os hospitais e as equipes. Passados dois anos de pandemia, muito se esqueceu por conta das diversas contraindicações”, externa.
“Em vida, a gente tem que comunicar aos nossos familiares o nosso desejo de estar ajudando ao próximo depois da morte, seja doando as córneas ou outros tecidos, como rins, fígado, coração…”, finaliza.
Um dia de cada vez
Eduardo segue estudando Matemática, com o sonho de se tornar professor. Enquanto isso, trabalha em uma metalúrgica. O criciumense ainda tem cerca de 40% do olho esquerdo comprometido e não sabe se precisará realizar um transplante também deste lado.
Passar pelo ceratocone o fez perceber que a doença é muito mais comum do que imaginava. “Depois que eu fiz o transplante, três pessoas próximas a mim também descobriram o ceratocone. No meu caso, as coisas se resolveram de forma teoricamente rápida. Tinham 160 pessoas na fila de espera naquela época. Mesmo assim, foi um tempo caótico. Fiquei muito apreensivo por não saber como ia ser, se ia dar certo”, relata.
O jovem descobriu que outras pessoas da família já haviam enfrentado o mesmo problema anteriormente. Ele deixa a dica para todos consultarem um oftalmologista regularmente para um check up médico. Caso exista a doença, a palavra da vez é ‘calma’.
“Sei que é difícil, que vai ser desesperador. A gente fica cheio de dúvidas, bate a insegurança. Mas é importante sempre manter a calma. Só assim podemos continuar em frente”, avisa.




