É dada a largada para a colheita do arroz na região

Gustavo Milioli

Nova Veneza

Os produtores de arroz da região já iniciaram a colheita da safra atual. Após o ano de 2021 ter sido considerado o melhor da última década para o grão, a expectativa é que o volume plantado sofra um declínio nesta temporada.

São ao menos 70 mil hectares de plantações compreendidos entre a Associação dos Municípios da Região Carbonífera (Amrec) e a Associação dos Municípios do Extremo Sul Catarinense (Amesc). Santa Catarina é o segundo maior produtor nacional de arroz. O Estado deve colher até 1,2 milhão de toneladas do cereal, 3% a menos em relação ao último ano. Ao menos 65% da produção estadual é cultivada na região Sul.

As condições climáticas desta vez foram menos propícias aos rizicultores. A estiagem prolongada e o calor intenso do verão devem trazer danos às lavouras até o final da colheita. “O que mais preocupa são as lavouras que floresceram nos 15 dias de temperatura elevadas, onde beirou os 40º C. Aconteceu o que chamamos de abortamento floral. Essas lavouras que coincidiram com esse calor, vão ter um maior número de esterilidades e prejuízos”, comenta Donato Lucietti, coordenador estadual do programa de grãos da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri).

O arroz colhido nesta semana não foi impactado pela onda de calor de janeiro. “O pessoal está satisfeito até o momento com o rendimento nas propriedades. No momento, o clima está favorável, com a umidade mais baixa. O problema mesmo ficará para quem deixou para florescer os grãos no mês passado. As perdas de grãos podem chegar até a 50%”, informa Lucietti. Em contrapartida, a área plantada no Estado é a mesma de 2021, com aproximadamente 150 mil hectares.

Após uma safra de 2021 bastante rentável aos produtores, a maior preocupação atual está com o valor das sacas. A crise hídrica foi mais nociva às plantações do Rio Grande do Sul. O estado vizinho é o maior produtor nacional do grão. “O preço tem reagido. No início da safra estava caindo, a saca de arroz chegou a custar R$ 60, mas agora já está sendo vendido a R$ 70. Isso acontece em consequência de uma queda de produção no Rio Grande do Sul, a estiagem atingiu muitos rizicultores por lá. Lavouras foram literalmente abandonadas. Aqui esse problema não aconteceu, a distribuição da chuva foi favorável”, destaca o engenheiro agrônomo da Epagri.

Rizicultores insatisfeitos com o preço dos insumos

O custo de produção do arroz está mais elevado. Segundo rizicultores, insumos que no ano passado eram vendidos por R$ 80 a saca agora não saem por menos de R$ 300. Enio Damiani é proprietário de uma plantação de 93 hectares no distrito de São Bento Baixo, em Nova Veneza. Ele calcula uma perda de 30% em sua lavoura por conta do calor intenso de janeiro passado.

“O que estamos colhendo agora está até melhor do que o do ano passado, mas o que vamos colher daqui a 10 dias, vamos levar choque. Foram duas semanas com um calor de 40º C. O arroz abortou. Se passar de 35º C, já traz problemas”, sublinha. As culturas plantadas com antecedência não têm motivos de reclamações. “Depender da natureza é complicado. Não pode ser muito frio, mas também não pode ser muito calor. A temperatura ideal é em torno dos 25º C, um pouco mais, um pouco menos”, comenta.

Produção inferior

Damiani aumentou em dois hectares a sua plantação em relação ao último ano, mas a colheita final deve ser inferior. Com as condições climáticas desfavoráveis, a projeção é que o volume diminua em 15%.

O rizicultor também está insatisfeito com o preço do arroz. “No ano passado, vendíamos a saca a R$ 92. Neste ano, está a R$ 70. O problema é que os nossos adubos estão muito caros, chegaram a dobrar de valor”, afirma. Os motivos vão além do que os homens do campo possam controlar. “É muito por conta da política nacional e internacional. Até essa questão de agora entre a Rússia e a Ucrânia pode interferir. É complexo”, externa. “O próprio veneno que utilizamos nas lavouras, que comprávamos 20 litros por R$ 280, agora está custando R$ 1,6 mil a mesma quantia. Assim fica difícil”, lamenta.

Damiani está com um receio maior ainda para a safra do ano que vem. “Hoje para trabalhar está mais fácil, as máquinas são modernas. O que nos prejudica são esses preços. Esperávamos que a saca chegaria a R$ 100. Não sabemos o que vamos fazer para a próxima safra. Nesta, ainda aproveitei uns preços menores. Também estava com algumas economias guardadas”, conta.

 

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