Dividida por dois municípios, Barra Velha segue desassistida

Balneário Rincão/Araranguá

Estima-se que 60% do distrito de Barra Velha pertençam a Balneário Rincão. Mas, se dependesse da vontade da grande maioria da população local, este percentual seria de 100%. Os moradores do território que faz parte do município de Araranguá continuam insatisfeitos com a falta de atenção do poder público.

Em maio do ano passado, a Câmara de Vereadores de Araranguá organizou uma Audiência Pública na comunidade para tratar do tema. Além dos parlamentares e representantes do Executivo de ambos os municípios, líderes comunitários expuseram suas considerações. Na ocasião, o Governo Municipal de Araranguá se comprometeu em realizar ações que resolvessem, ao menos, parte dos problemas enfrentados pelos moradores da localidade. O prefeito César Cesa não compareceu, mas declarou ser contrário à desanexação territorial.

As ‘medidas paliativas’ até aconteceram no início, mas sem grandes mudanças. Passados 10 meses do encontro, a parte araranguaense de Barra Velha continua desassistida. “Nós pedimos duas lombadas, por causa da poeira. Eles disseram que iriam fazer, não fizeram. Só colocaram areão nas estradas. Nós queremos é lajota”, conta o pescador Danúbio Antônio Nascimento.

A diferença da qualidade das vias é perceptível já no limite entre os dois municípios. O território de Balneário Rincão está totalmente lajotado e sinalizado. Em Araranguá, são apenas estradas de chão.

A dificuldade do poder público araranguaense em chegar à Barra Velha é o principal entrave. Hoje, para sair da sede do município até o distrito, é necessário passar por Maracajá, Içara e Balneário Rincão. A logística ruim impede o deslocamento dos maquinários.

A situação pode mudar quando a ponte sobre o Rio Araranguá, que ligará o Morro dos Conventos ao distrito de Hercílio Luz, ser finalizada. Com o caminho encurtado, não haverá mais uma divisão na cidade. As obras do Governo do Estado, previstas para terminarem no ano que vem, beneficiarão principalmente os moradores de Barra Velha, Balneário Ilhas e Hercílio Luz.

Governo de Araranguá irredutível

Apesar dos esforços da população de Barra Velha, e da aceitação da prefeitura de Balneário Rincão com a ideia, Araranguá mostrou-se irredutível à perda de qualquer território. “Nós pedimos, mas eles falaram que ‘filho nosso não se dá para os outros criarem.’ Mas tudo aqui é administrado pelo Rincão. Escola, posto de saúde… Araranguá só tem a terra”, observa Danúbio. A maior vontade da parte araranguaense está em uma melhor condição das vias públicas. “Água, temos. Energia, temos. Internet, temos. Só falta arrumar as ruas”, pondera.

O pescador de 80 anos, que morou a vida inteira na comunidade, relata que a discussão é antiga. “Estamos na ponta do município. Já fomos várias vezes lá na sede, mas nunca tivemos respostas. Com a ponte, dizem que vai melhorar. Eu só acredito vendo”, comenta ele.

Possibilidade de valorização do espaço

Um dos grandes motivos para Araranguá não aceitar perder a área é o manancial Mãe Luzia, a única grande lagoa do município. Em meados do ano passado, o prefeito de Balneário Rincão, Jairo Custódio, apresentou a César Cesa um mapa em que, no desmembramento, toda a água ficaria para o município vizinho. A ‘gentileza’ não foi o suficiente para fazê-lo mudar de ideia.

O prefeito da Cidade das Avenidas não pretende abrir mão do espaço pela chance de ele se valorizar futuramente. A rodovia Caminhos do Mar, que conectará as praias do Sul catarinense, a extensão da Via Rápida, da BR-101 até a zona sul do Rincão e a crescente especulação imobiliária, em um local onde condomínios residenciais estão sendo construídos, e muitos outros projetados, estão entre os fatores que o fazem crer que, lá na frente, ele poderia se arrepender em ceder a Barra Velha. Enquanto o setor privado está na expectativa de explorar o local, o setor público continua desvalorizando os moradores nativos de uma das comunidades mais antigas da região.

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