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sexta-feira, junho 21, 2024

Uma data para refletir sobre a busca pela igualdade racial

Tiago Monte

Criciúma

Há uma década, o dia 20 de novembro é, oficialmente, na forma de lei, o Dia da Consciência Negra. A data é, inclusive, feriado em alguns estados e cidades. Ela foi escolhida para homenagear Zumbi, o líder do Quilombo de Palmares, que morreu nesse dia, em 1695. O combate à desigualdade racial e social, porém, vem de muito mais tempo. “Nós temos que pensar que são 50 anos do Dia da Consciência Negra. Tudo isso surgiu no dia 20 de novembro de 1971, quando o grupo Palmares, que era constituído por jovens negros de Porto Alegre, propuseram uma data alternativa ao 13 de maio. Isso porque o 13 de maio, para nós, pouco representa”, comenta a coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neab) da Unesc e professora Normélia Ondina Lalau de Farias.

O dia 13 de maio marca o Dia da Abolição da Escravatura, porém, para a professora o que perdura mesmo é o 14 de maio.  O dia seguinte, de reflexão, de lembrar que os negros foram  “empurrados”  das fazendas para os morros. “Para nós, o 13 de maio acaba sendo o dia da denúncia do racismo. Não nos representou nada. A história conta e tenta passar como um ato fantástico da Princesa Isabel, mas, quem vai a fundo e estuda, percebe que a história que nos foi contada na escola – que em algumas escolas continua sendo contada – não é nada disso. Foi uma exigência da Inglaterra. O Brasil foi o último país a abolir a escravatura e foi, justamente, por força da circunstância e de uma mudança no contexto econômico. Uma nova política econômica”, detalha a professora.

Normélia lamenta que o assunto seja tratado com mais seriedade apenas no mês de novembro. “Para mim, não é só neste mês que falamos a respeito da consciência negra ou não-negra. Eu penso que consciência segue conosco durante todos os dias da nossa vida. E não apenas em uma data”, pontua.

Luta pela valorização da história afro-brasileira

Além da discussão sobre a igualdade racial, a data alerta também para a necessidade de valorização da história e cultura afro-brasileira. “As universidades e escolas também têm que oportunizar, nos currículos, a cultura e a história afro-brasileira e africana. Assim como a gente estuda toda a questão da Itália, da Alemanha e de todas as outras nações, principalmente a cultura europeia, mesmo não sendo europeu, sendo brasileiro”, destaca Normélia.

A professora luta, há mais de 30 anos, pela igualdade racial e por oportunidades iguais a todos, independente da raça. “Até hoje continuamos lutando contra esse grande mal que a humanidade carrega: o preconceito e racismo. Não é o racismo na totalidade, mas, sim, o segmento racial da cor. Isso nos deixa em uma condição em que muitos não têm acesso ao que é de direito para todos. Por isso, eu gosto de dizer sempre que nós não somos todos iguais. Cada ser é único. Nem mesmo nos outros segmentos raciais existem pessoas iguais. Nós somos um diferente do outro. O que nos acomete é que estamos sendo diferentes com relação às oportunidades e às leis”, comenta.

O preconceito em função da cor da pele

Desde cedo, Normélia sentiu a dificuldade em obter oportunidades, em função da cor da pele. Ela valoriza o posto de professora, que exerce com prazer, conforme ela, mas lamenta não ter conseguido chegar onde realmente queria.  “Como pessoa negra, eu iria ser o que eu quisesse ser. Isso ficou muito claro em toda a minha formação e educação. Porém, eu não consegui chegar onde eu gostaria de estar. A estrutura do sistema, que nós conhecemos como racismo estrutural, não permitiu. Por exemplo: fiz química industrial para não ser professora. Eu queria trabalhar na indústria. Eu gosto de química, pesquisa e laboratório. Lamentavelmente, na época em que me formei, há uns 30 anos, fiz a distribuição do meu currículo e as empresas diziam que eu estava dentro do perfil aceitável. Era o que eles queriam”, lembra.

A decepção, porém, vinha na hora da entrevista de emprego. “Naquele tempo, no registro, não tinha ‘raça/cor’. Eu chegava e as desculpas eram as piores possíveis. Isso mudou meu destino. Estou aqui há mais de 30 anos, quase 40 anos, sendo professora. Não sou triste por isso, muito pelo contrário, me reinventei e descobri que eu gosto muito do que faço”, comenta.

A professora lamenta que a cor da pele a tenha afastado de oportunidades e que isso siga acontecendo até hoje. “Na hora de ascender na ocupação dos lugares, a gente não vê a igualdade. Pelo contrário: eu sempre costumo dizer que, mesmo com a minha formação, vão ter lugares, como já houve, durante toda a minha vida, que eu tinha direito a ocupar, mas o fato da cor da minha pele me impediu. A gente vai tomando consciência disso cada vez mais. Eu tomei consciência disso muito cedo, muito jovem, porque, além de tudo, eu sou uma mulher preta. Eu não sou uma mulher negra com cor de pele clara”, ressalta.

A esperança de dias com igualdade para todos

Normélia espera que, em algum momento, não exista mais um dia específico para falar sobre a desigualdade racial. “Eu acredito muito que vai chegar o momento que não vamos ter o 20 de novembro. Não vai mais ser necessário chamar a atenção. Eu estimo e quero acreditar que vai chegar o dia que as leis desse pais, que se dizem universais, realmente vão ser. Vai ter o dia em que a gente não vai mais precisar denunciar o racismo e o genocídio do povo negro”, pontua.

Ela espera ser tratada de forma igualitária e que os jovens negros não sofram em função da cor da pele e de uma condição social prejudicada. “Vai ter o dia que não vamos mais precisar ouvir que uma bala perdida achou um corpo negro no caminho. Na consciência temos que citar e muito. A gente nunca ouve dizer que morreu uma criança ou jovem brancos com uma bala perdida. A notícia diária e constante mostra jovens e crianças negras nessas condições. Vai haver um momento de eu poder entrar e alguém vir ao meu encontro, para o meu atendimento, e não me deixar plantada porque eu sou o único corpo negro que está li, naquele momento, em meio aos não-negros”, destaca.

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