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Criciúma
quarta-feira, julho 17, 2024

Migrantes encontram oportunidades para se desenvolver no Sul de SC

Ambiente acolhedor e melhores condições de vida atraem famílias para a região

Cristian Veronez, Raquel Formigoni e Messias Fernandes/Especial*

A região Sul de Santa Catarina tem se tornado um refúgio de novas oportunidades para muitos migrantes do Norte e Nordeste do Brasil. A busca por uma vida mais digna, com melhores condições de trabalho e qualidade de vida, tem atraído famílias como a de Ana Beatriz Silva Santos, jovem alagoana de 26 anos. Ao se mudar para Forquilhinha, e posteriormente para Criciúma, aos 15 anos, Ana e sua família deixaram a cidade de Campo Alegre, no Estado de Alagoas, em busca de um futuro mais promissor.

A família de Ana Beatriz mora há 11 anos na região. A jovem alagoana conta que o Sul de Santa Catarina foi responsável por uma grande mudança em sua vida. “Aqui eu tive uma nova oportunidade. Finalizei meus estudos e fiz um curso técnico de Enfermagem. Com muita luta ao longo do tempo, dei a volta por cima, consegui superar as dificuldades e me estabilizar. Hoje, sou formada e trabalho em um hospital da região”, relata Ana.

A secretária de Assistência Social e Habitação de Criciúma, Dalva Borges Donadel, vê esse movimento migratório de habitantes do norte e nordeste, impulsionado não apenas pela oferta de empregos, mas também pelo ambiente, entre outras oportunidades que a região oferece, tornando-a um destino cada vez mais procurado por aqueles que desejam recomeçar, além da busca por melhores oportunidades no mercado de trabalho. “O ambiente acolhedor, a infraestrutura, a educação, a segurança e o acesso à saúde são alguns dos motivos que fazem com que os migrantes das duas regiões escolham Criciúma para morar”, declara a secretária.

Rede de apoio no município

A Secretaria de Assistência Social e Habitação de Criciúma tem programas que auxiliam as pessoas recém-chegadas ao município na integração à comunidade e no acesso a serviços básicos. A porta de entrada desses serviços é através dos CRAS (Centros de Referência de Assistência Social), onde funciona o SCFV (Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos) e o PAIF (Proteção e Atendimento Integral à Família). Eles facilitam a integração dos migrantes na comunidade. “Vale ressaltar que a Política Pública da Assistência Social é destinada a todos que dela necessitarem, independentemente do seu estado de nascimento”, relata a secretária de Assistência Social e Habitação de Criciúma, Dalva Borges Donadel.

Uma das dificuldades enfrentadas pelos migrantes do norte e nordeste do Brasil é a adaptação ao clima e também à cultura da região. “Com o tempo e a ajuda da comunidade local, essa adaptação se torna mais fácil, permitindo que todos possam se integrar e prosperar”, afirma Dalva.

Segundo a secretária, em muitos casos os migrantes já possuem um familiar ou amigo residente em Criciúma, que atua como ponto de referência. Essa pessoa facilita a integração do migrante ao mercado de trabalho local e ajuda a encontrar moradia. Consequentemente, a maioria deles já chega ao município com um emprego garantido e um lugar para morar, o que contribui para uma transição mais suave e estruturada.

Ana Beatriz relata que o Sul de Santa Catarina proporcionou a ela e aos seus familiares novas oportunidades de renda assim que chegaram. “Logo nos primeiros dias conseguimos arrumar serviço. Meu padrasto começou a trabalhar em uma empresa cerâmica, e eu em uma fábrica de roupas, onde trabalhei durante três anos”, declara.

Colaboradores dedicados em suas profissões

A migração de habitantes de outras regiões do Brasil está crescendo cada vez mais no sul de Santa Catarina. Empresas de Nova Veneza dão oportunidades à população do norte e nordeste, que buscam mudanças em suas vidas.

Para a coordenadora de Recursos Humanos (RH), Beatriz Pagnan Neto, os colaboradores que vieram dessas regiões que trabalham em sua empresa demonstram força e dedicação no que fazem. “Então, assim, de 100% dos colaboradores que são do nordeste, menos de 5% deles demonstram algum desinteresse logo após a contratação. A maioria deles é bem produtiva e costuma ficar entre quatro a cinco anos trabalhando na mesma empresa. São pessoas extremamente dedicadas”, afirma Beatriz.

 A vontade dessas pessoas para terem condições melhores faz com que migrem cada vez mais para o sul de Santa Catarina. “A maioria deles nunca chega sozinho, mas sempre em quatro ou cinco pessoas. Por vezes o pai e a mãe vêm antes, depois trazem os filhos. Já houve algumas contratações onde os pais vieram primeiro e depois, além dos filhos, trouxeram primos e outros parentes, então eles se estabelecem em grupos”, explica ela.

Mesmo vindo em busca de melhores condições, chegando aqui logo aparecem novos desafios, como o de conseguir se manter financeiramente, pois o custo de vida aqui é diferente. “É difícil alguém que vem do norte sozinho e consegue permanecer em nossa região por muito tempo. Logo volta porque, querendo ou não, aqui o custo de vida é muito maior”, ressalta Beatriz. Além do apoio para conseguir um emprego, os migrantes também dividem as despesas domésticas. “Quando estão aqui, em grupos maiores, um apoia o outro. A estabilidade financeira de quem veio para cá contribui com as finanças dos parentes que ficaram na cidade de origem. Normalmente aqueles que têm família lá, por exemplo pai e mãe mais idosos, procuram sempre mandar um valor em dinheiro para eles”, enfatiza a coordenadora de RH.

Cearenses em Nova Veneza e o sentimento de conquista

Município de Nova Veneza tem atraído pessoas que chegam de fora à região

Municípios que possuem um número relevante de indústrias são naturalmente muito procurados pelos migrantes, até mesmo porque um dos objetivos dos cidadãos do norte e nordeste é a busca por emprego. O município de Nova Veneza aparece no radar de procura desses migrantes, é o caso de duas cearenses de cidades diferentes e que vieram parar em Nova Veneza, justamente por esse motivo.

Juliana de Lima Souza era de Fortaleza, capital do Ceará, é auxiliar de produção em uma indústria de massas de Nova Veneza e mora no município vizinho a Criciúma há oito anos. “Meu esposo veio primeiro com meu cunhado, que tinha conhecidos aqui, e depois de dois meses eu vim com meu filho. Isso foi em agosto de 2016. Os colegas do meu cunhado disseram que era mais fácil de emprego para homem e também para mulher, já que lá no Ceará para as mulheres é mais difícil, pois pedem que tenhamos experiência”.

A mudança de cidade já trouxe alguns benefícios para Juliana e seus familiares, na cidade natal só ficaram as lembranças de muita dificuldade que tiveram. “O que a gente tinha lá era somente o transporte da gente, uma moto e a casa que a gente morava era do nosso cunhado. Ainda não temos a casa própria aqui, já está nos planos, mas graças a Deus temos um carro e uma moto. Não sinto nem um pouco de saudade de Fortaleza, minha família está toda aqui, pai, mãe e irmãos. Lá tivemos experiências ruins, não tenho planos de voltar. Tenho dois filhos e o mais novo já nasceu aqui, é neoveneziano’’. explica ela.

Choque cultural dificultou no início

Mayara desempenha uma atividade essencial junto aos clientes atualmente – Foto: Beatriz Gomes/Divulgação

A história de outra cearense, natural de Jaguaribe, interior do estado, é um pouco diferente. Ruthe Mayara chegou em 2018, juntamente com o namorado na época. Ele e seus familiares vieram em busca de emprego. Já ela não tem nenhum familiar aqui. Mesmo após o fim do relacionamento e ficando sozinha, Mayara não retornou, pelo contrário, se sente acolhida aqui. Na cidade natal ela tinha emprego, trabalhava em uma farmácia, quando chegou aqui continuou no mesmo ramo, e fazia trabalhos extras nos restaurantes do município.

“No começo foi bem difícil para mim porque a cultura é muito diferente. Foi totalmente oposto, vir de uma cultura cearense para a cultura catarinense, e como moro em Nova Veneza, em que a maioria são descendentes de italianos, então nem se fala, é uma cultura que eu nunca tive contato com nada parecido. E trabalhando nos restaurantes foi onde eu descobri habilidades que eu não sabia que eu tinha, foi onde eu me desenvolvi profissionalmente porque eu era bem tímida”, conta Mayara, que atualmente é analista de experiência do cliente em um restaurante no município.

O choque cultural realmente foi um incômodo para Mayara no início, principalmente a questão do sotaque. “Alguns pontos negativos eu percebi no começo, quem vem de outro estado, no começo sofre bastante por conta do sotaque, algumas pessoas riem, debocham do jeito que a gente fala. Pode ser cearense, pode ser baiano, pode ser até do Rio Grande do Sul, quem vem pra cá também sofre a mesma coisa que os nordestinos sofrem, esse é um ponto que às vezes me magoava bastante no começo, hoje isso não me afeta mais”, desabafa ela.

Apesar dos desafios, atualmente Mayara não tem intenção de retornar para o Ceará, pelo contrário, gostaria que os demais familiares dela viessem morar aqui com ela. “Eu me apeguei tanto à cidade que eu moro e ao local onde eu trabalho. Aqui eu tenho amigos que eu construí ao longo desses anos, amigos realmente verdadeiros, pessoas que eu considero muito, que eu considero minha família e que hoje eu não me vejo voltando mais para o Ceará. Se eu pudesse, eu traria a minha família inteira para cá”, complementa Mayara.

A cearense deixa uma mensagem final ao melhor estilo do aconchego nordestino. “Eu me sinto uma neoveneziana de coração, eu fui muito bem acolhida aqui em Nova Veneza e desejo que venham muitos outros nordestinos, que venham pessoas de outros estados para conhecer a cultura dos catarinenses e conhecer as maravilhas que tem esse estado que eu amo, um cheiro bem grande a todos!”

*Acadêmicos de Jornalismo da UniSatc

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