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quarta-feira, fevereiro 28, 2024

Entenda por que o sucesso inicial do Threads pode não ser sustentável

Público diferente, recursos limitados e fracassos anteriores podem ser barreiras para o sucesso da nova rede de Mark Zuckerberg

Uma megaempresa tecnológica com bilhões de usuários apresenta uma nova rede social. Aproveitando a popularidade e a escala de seus produtos atuais, pretende fazer da nova plataforma social um sucesso e, ao mesmo tempo, esmagar o aplicativo de um grande concorrente.

Se isso soa como o Threads, novo aplicativo do Instagram, e sua investida contra o rival Twitter, pense novamente. O ano era 2011, e o Google acabara de lançar uma rede social chamada Google+, que tinha como objetivo ser o “assassino do Facebook”. O Google apresentou o novo site a muitos usuários que dependiam de sua busca e de outros produtos, obtendo mais de 90 milhões de adesões no primeiro ano.

Mas, em 2018, o Google+ foi relegado ao monte de cinzas da história. Apesar do público imenso do “gigante das buscas”, a rede não emplacou, porque as pessoas continuaram migrando para o Facebook — e, mais tarde, para o Instagram e outras redes sociais.

Na história do Vale do Silício, as grandes empresas de tecnologia muitas vezes cresceram ainda mais ao usar sua escala como uma vantagem inerente. Mas, como mostra o Google+, a grandeza por si só não garante a conquista do mercado das redes, volúvel e sujeito a modismos.

Esse é o desafio que Mark Zuckerberg, CEO da Meta, proprietária do Instagram e do Facebook, enfrenta agora ao tentar desbancar o Twitter e transformar o Threads no principal aplicativo para conversas públicas em tempo real. Se a história da tecnologia serve de guia, o tamanho e a escala são pontos de apoio sólidos — mas, no fim, têm suas limitações.

O que vem a seguir é muito mais difícil. Zuckerberg precisa que as pessoas consigam encontrar amigos e influenciadores no Threads como costumavam fazer no Twitter — de uma maneira casual e, às vezes, estranha. Precisa ter certeza de que o Threads não está cheio de spam e golpistas. Além disso, as pessoas têm de ser pacientes com as atualizações em andamento do aplicativo.

Resumindo, é necessário que o usuário ache o Threads atraente a tal ponto que continue voltando. “Lançar um aplicativo complicado ou que ainda não está completo pode ser contraproducente, e muita gente pode debandar”, disse Eric Seufert, analista independente que acompanha de perto os produtos da Meta.

No momento, o Threads parece ser um sucesso instantâneo. Poucas horas depois do lançamento, em 5 de julho, Zuckerberg anunciou que 10 milhões de pessoas tinham se inscrito no aplicativo. Na segunda-feira seguinte, o número subira para 100 milhões.

O Threads foi o primeiro a alcançar essa façanha, superando o chatbot ChatGPT, que ganhou 100 milhões de usuários nos dois meses seguintes ao lançamento, de acordo com a empresa de análise Similarweb. Seufert chamou os números do Threads de “objetivamente impressionantes e sem precedentes”.

Disputa pessoal

Elon Musk, dono do Twitter, deu a impressão de estar agitado com a ascensão do Threads, que, com 100 milhões de usuários, está rapidamente se aproximando de alguns dos últimos números divulgados do Twitter. Em julho de 2022, o Twitter divulgou que tinha 237,8 milhões de usuários diários, quatro meses antes que Musk comprasse a empresa e a tornasse privada.

Musk resolveu agir. No mesmo dia do lançamento oficial do Threads, o Twitter ameaçou processar a Meta pelo novo aplicativo. No domingo, Musk chamou Zuckerberg de “corno” no Twitter. Em seguida, desafiou-o para medir quem tinha certa parte do corpo maior, ao lado de um emoji de régua. Zuckerberg não respondeu. (Em outra circunstância, antes que o Threads fosse anunciado, Musk chamou Zuckerberg para uma “luta livre em uma jaula”.)

Zuckerberg tem em abundância na Meta aquilo que falta a Musk no Twitter: um público enorme. Mais de 3 bilhões de usuários visitam regularmente a constelação de aplicativos da empresa, entre os quais o Facebook, o Instagram, o WhatsApp e o Messenger.

Aplicativos de empresa de Mark Zuckerberg têm bilhões de usuários/ FOTO: JASON HENRY/THE NEW YORK TIMES

Zuckerberg também tem experiência em incentivar milhões de pessoas a usar outros aplicativos. Em 2014, por exemplo, removeu o serviço de mensagens privadas do Facebook e forçou as pessoas a baixar outro aplicativo, o Messenger, para continuar a usá-lo.

O Threads está agora intimamente ligado ao Instagram. O usuário deve ter uma conta no Instagram para se inscrever e pode importar toda a sua lista de seguidores do Instagram para o Threads com apenas um toque, evitando que tenha de procurar gente nova para adicionar ao serviço.

Na segunda-feira, Zuckerberg sugeriu que havia mais a ser feito para impulsionar o crescimento do Threads. Ele ainda não tinha “ativado muitas promoções”, conforme publicou no aplicativo.

Alguns usuários se perguntam por que o Threads parece ter estreado sem algumas funções básicas usadas no Instagram, como pesquisar e navegar pelas hashtags mais populares. “O Threads foi lançado sem vários recursos, possivelmente em sua concepção, para manter a marca segura e minimizar controvérsias desde o início. Qual o impacto disso no interesse de longo prazo da rede?”, afirmou Anil Dash, veterano e escritor do setor de tecnologia.

Adam Mosseri, CEO do Instagram, divulgou em um post no Threads na segunda-feira que havia uma lista de recursos, solicitados pelo público, a ser adicionada. “Elas pedem: ‘Faça funcionar, faça com que seja ótimo, faça crescer.’ Prometo que vamos torná-lo ótimo”, escreveu.

No entanto, nem sempre dá certo adicionar um novo aplicativo aos produtos existentes de uma empresa. Em 2011, depois que Larry Page, cofundador e CEO do Google na época, clonou o Facebook com o Google+, os usuários logo se cansaram da novidade e pararam de usar a rede social. Alguns viram o Google+ como algo que lhes foi imposto enquanto tentavam acessar o Gmail.

Ex-funcionários do Google descreveram o produto como “baseado no medo”, construído apenas em resposta ao Facebook e sem uma visão clara do motivo pelo qual as pessoas deveriam usá-lo no lugar de uma rede concorrente. Em uma análise do que deu errado, um ex-googler escreveu que o Google+ se definia principalmente “pelo que não era — ou seja, o Facebook”.

*Via R7

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