Dia Internacional da Mulher: Luta pela igualdade de gênero e racial

Cristiane Dias é professora e orientadora educacional. Ela usa os espaços profissionais para ser referência a outras mulheres negras


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Tiago Monte

Criciúma

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De mãe-solo aos 17 anos, com ensino médio incompleto, à professora, com passagem por universidade, e orientadora escolar rumando para o doutorado. Essa é a história da criciumense Cristiane Dias, de 46 anos. Como ela mesma se define, uma mulher negra, de pele clara, que representa a história de superação de outras tantas mulheres. Não apenas negras, mas, principalmente, delas. “Eu acredito que sou referência porque consegui quebrar algumas barreiras e cheguei a um lugar onde eu olho e vejo poucas pessoas negras. Mulheres, então, em um número cada vez mais reduzido. Eu penso que a minha história é de superação, sim, mas que representa a história de superação de outras tantas mulheres. Elas, por muitas vezes, não têm a oportunidade de ultrapassar essas barreiras. É difícil. A gente olha o lugar que a gente ocupa e reflete: que dificuldade que foi. Poderia ter sido mais fácil, sem tantas feridas”, comenta.

Atualmente, Cristiane leciona no Colegião, no centro de Criciúma, e presta orientação escolar na escola Irmã Edviges, no bairro Mina União. Ela usa a própria história para orientar outras tantas mulheres. Nesse caso, a maioria, jovens. “A minha história tem a ver com isso. A negritude, o fato de ser uma mulher negra, chegou para mim, com consciência, muito tarde. Eu já tinha tido alguns atravessamentos, sem entender que era pelo fato de eu ser uma mulher negra. Então, eu fui mãe solo, aos 17 anos, e tive que parar de estudar, assim como acontece hoje ainda. Isso aconteceu há 29 anos e, hoje, continua acontecendo”, lamenta. “A gente pode, nesses espaços, influenciar, principalmente, outras meninas e mulheres negras. Então, essa é a minha maior preocupação”, completa.

Cristiane reforça que as questões de gênero e raça precisam ser trabalhadas continua e arduamente. “Eu vejo as mulheres e meninas, ainda hoje, engravidando na adolescência. E não são só as negras. Então, o que está acontecendo, o que aconteceu nesses 29 anos, que essa história ainda não se resolveu? Então, o nosso trabalho tem um porquê de ser”, destaca.

Referência vem da própria família

A professora teve exemplo dentro da própria casa. A mãe dela sofreu preconceito na juventude. “A minha mãe era uma mulher negra, de pele clara, como eu. A famosa ‘mulata exportação’. Era muito bonita, na juventude, e também foi mãe solo”, lembra.

Cristiane é originária de um caso extraconjugal.  “Ela (Mãe) engravidou também com 16 para 17 anos, de um homem branco, casado e que tinha uma família. Ela foi a ‘concubina’, se nós estivéssemos no período escravocrata. Antes da abolição, ela seria chamada assim. Ela não teve a mesma força porque foi lá em 75, o ano que eu nasci. Ser mãe solteira em 75 era complicado. Se ser mãe solteira em 93 já foi difícil, e hoje ainda é, imagina em 75”, reflete.

A sorte de Cristiane, segundo ela, foi ser criada pelos avós, que sempre a protegeram muito e garantiram os direitos básicos. “Eu tive oportunidade de estudar, terminar o ensino médio e estudei no Colegião, que é a escola que hoje trabalho e leciono Projeto de Vida. Isso é muito importante para mim, porque é a minha proposta de vida: por meio da minha história, conseguir influenciar outras meninas, especialmente as negras, que existe um caminho e ele é por meio da educação. Eu não vejo outra forma para resolver todas essas questões. Lá no banco da escola e da universidade que toda a sociedade vai entender os atravessamentos de gênero e racismo. Foi na escola que eu consegui me entender como mulher negra”, comenta.

O alerta para a própria filha

Cristiane tem uma relação saudável com a filha – hoje com 29 anos – e sempre conseguiu esclarecer muitas questões relacionadas ao preconceito de gênero e racial. “Eu sempre alertei a minha filha sobre os atravessamentos que sofremos, enquanto mulheres negras, e para ela se entender como negra, mas que isso não a impedisse de estar nos lugares onde ela estivesse que estar”, comenta.

A principal orientação de Cristiane para a filha foi: não pare de estudar. “Hoje ela é profissional de Direito e trabalha em Recursos Humanos. Eu sempre falei que a educação é o caminho e que ela precisava se posicionar em algumas questões, mas que ela iria encontrar barreiras. Por isso, ela precisava estar preparada para falar o que pensa, em um nível que chegue para as pessoas”, pontua.

Cristiane se considera uma militante da negritude, mas através da educação, na sala de aula.  “Em tudo que eu possa escrever e nas histórias que eu possa contar e nas ações que eu possa executar. Essa é a minha militância. Esse assunto ainda é tabu, difícil, as pessoas têm resistência. Eu tenho ciclo de amizade com mulheres negras e brancas. Eu consigo conversar com as brancas: concordamos e discordamos de algumas coisas, mas sempre com embasamento de teoria da história, conhecimento e o que a educação me trouxe para sustentar e lutar por essa causa. Não adianta só dizer que o racismo existe porque existe. Não é assim”, adverte.

A professora faz questão de dividir o protagonismo, nas lutas de gênero e racial, com outras mulheres negras. Ela não quer ser referência sozinha. “Muitas mulheres negras, que tem a minha idade, não conseguiram superar o racismo e não por serem menos corajosas ou inteligentes. Tem menos conhecimento. Não! É porque dá um cansaço emocional. Eu sempre falo isso. Chega uma hora que bater de frente, cansa. E entender que uma oportunidade, por vezes, não vem por conta da tua cor de pele. A pessoa nem chegou perto de avaliar o teu conhecimento e habilidade. A oportunidade não veio porque o teu biotipo não esta adequado para a função, local e espaço. Isso é o racismo estrutural”, finaliza.

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