Criciúma: ex-detenta lança livro que escreveu durante pena

‘Apesar de Tudo’ traz os sentimentos vividos por Viviane Lima enquanto esteve condenada

Foto: Guilherme Cordeiro/TN
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Saudades, angústia, arrependimento. Estes foram os sentimentos que tomaram conta da mente de Viviane da Conceição Lima durante os cinco anos e seis meses em que ficou atrás das grades, na Penitenciária Feminina de Criciúma. Condenada por tráfico de drogas, ela encontrou no ato de escrever uma terapia para seguir em frente.

“Eu estava muito abatida. Decidi pegar um caderno e começar a escrever, como forma de desabafar”, relata. Frequentemente, as agentes penitenciárias faziam revistas nas celas, e em um certo dia, encontraram os textos. As vigilantes levaram o caderno, junto com alguns outros objetos. “O motivo, depois, elas me falaram o porquê”, conta.

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Após uma semana, Viviane foi chamada para conversar e perguntaram qual era o objetivo que mantinha escrevendo. “Eu respondi que era um desabafo meu, até porque eu contava muito sobre o meu sentimento de saudade, do meu arrependimento. Elas começaram a me incentivar, falaram que eram palavras muito bonitas, que todos que leram se emocionaram. Eu também me emocionei, porque nunca pensei que alguém poderia dar valor a uma presa”, confessa.

A virada de chave

As páginas chegaram a algumas professoras do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), que enxergaram o potencial daqueles relatos. Um editor, radicado em Porto Alegre, também leu o conteúdo e, gratuitamente, se dispôs a publicá-lo. “Ele gostou muito das minhas palavras, falou que trabalhava há anos em uma editora e nunca havia encontrado palavras tão perfeitas, tão bem colocadas”, ressalta. “Eu fiquei muito feliz, independente das coisas que eu fiz, que eu errei, eu busquei lá dentro me redimir”, externa.

Certo dia, o homem viajou até Criciúma para conversar pessoalmente com Viviane, em uma visita à penitenciária. “Ele me deu os parabéns e se comprometeu a dar a autoria do livro”, relembra. O título recebeu o nome de ‘Apesar de Tudo’.

Viviane começou escrevendo poemas e pequenos versos poéticas. “Dentro do sistema, conheci a honestidade. E agora, falta tão pouco tempo para a minha tão sonhada liberdade”, é uma das citações que abrem o livro. Na memória, estava a saudade dos familiares, dos filhos, e no presente, as dificuldades de conviver confinada com outras oito pessoas que sequer conhecia.

Vida simples, mas digna

“Tive que aprender a encarar aquilo tudo, e também a conviver com poucas coisas. Na rua eu gostava de ostentar, traficar, comprar roupas e sapatos todos os dias. Lá dentro eu usava só havaianas, daquelas mais simples, de R$ 9,90, e duas pecinhas de roupa laranja. Eu aprendi que a gente pode viver sim com pouco, não tem porque traficar ou fazer coisas de errado. Não tem dor maior do que a dor da saudade”, destaca a mulher de 36 anos.

Viviane conquistou a liberdade em dezembro de 2020. O livro foi lançado oficialmente há um mês, quando o resultado final foi entregue à autora. “E depois que eu saí, percebi que eu posso viver a minha vida de uma maneira diferente. Não preciso conviver com aquelas pessoas que estavam ao meu redor antes. Foram vários aprendizados adquiridos”, comenta a ressocializada, que atualmente mora com três filhos e uma neta, que nasceu neste mês.

Reencontro com a filha perdida

A escritora ganhou outro presente recentemente. Este, inesperado. No tempo de criminosa, Viviane perdeu a guarda de uma filha pequena. A criança foi adotada por uma família que reside na região de Florianópolis. Depois de 17 anos sem vê-la, enfim, terá o reencontro. “Ela me chamou no Facebook e começou a me fazer perguntas. Eu não sabia com quem estava falando, porque ela trocou de nome. Quando ela me disse que estava procurando a mãe biológica, foi um choque”, revela.

A família adotiva virá à Criciúma com a filha no próximo final de semana, para todos se conhecerem. Viviane terá a oportunidade de mostrar como se transformou depois de todo este tempo, e como está encarando uma vida nova a partir de agora. Apesar de tudo.

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