Criciúma: Cresce o uso de antidepressivos

Consumo de remédios moderadores de humor e para ansiedade aumenta nos últimos quatro anos. Alerta fica para a alta procura de jovens e adolescentes

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Tiago Monte

Criciúma

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O isolamento social, imposto pela pandemia da Covid-19, tem diversas consequências. E uma delas, bastante preocupante, é o aumento no consumo de remédios antidepressivos. Os moderadores e humor e medicamentos para ansiedade tiveram uma alta na procura de 9% para 20% entre 2017 e 2020. Os números são fornecidos pelo curso de Farmácia da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). “É muita coisa. A gente pensa em muitas possibilidades. A primeira, sem dúvida nenhuma, é a mudança social que a pandemia provocou na gente. A forma de viver que temos hoje está muito diferente do nosso cotidiano anterior à pandemia. O isolamento social, as dificuldades de interação, o risco da doença, a possibilidade iminente de morte, perda de emprego e redução na capacidade financeira das pessoas. Tudo isso tem contribuído”, explica Silvia Dal Bó, coordenadora do curso de Farmácia da Unesc.

A professora alerta que o consumo já vinha aumentando gradativamente desde 2017, mas o grande salto aconteceu no ano passado. Um dos pontos de maior preocupação é o aumento de usuários jovens e até adolescentes. “O grande aumento aconteceu no ano passado. Um aumento já vinha acontecendo, só que passava despercebido. A gente, que trabalha com saúde, já via um aumento no consumo de antidepressivos e ansiolíticos, inclusive em pessoas mais jovens. Antigamente, a gente via pessoas mais idosas utilizando e, pontualmente, pessoas mais jovens. Hoje, a gente vê mais jovens e, inclusive, adolescentes fazendo uso dessas medicações”, alerta Silvia.

Antes da pandemia, a alta exigência no trabalho era um dos motivos que causava o aumento no uso de remédios antidepressivos e ansiolíticos. “A gente vive em um mundo muito competitivo. Somos exigidos, hoje, no extremo do nosso limite. Eu, particularmente, vejo as pessoas trabalhando e consumindo demais. Desta forma, elas precisam trabalhar cada vez mais para poder consumir ainda mais”, comenta a professora.

A pressão para a obtenção de sucesso pega as pessoas sem preparação. “Na verdade, é o que vem acontecendo no mundo mais capitalista. Isso gera uma pressão para o sucesso que, muitas vezes, as pessoas não estão preparadas para serem tão exigidas continuamente”, ressalta.

As classes de remédios mais utilizados

Atualmente, são várias as classes conhecidas de antidepressivos. Ganham destaque os Benzodiazepínicos, os Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina e os Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina.

Os Benzodiapínicos são medicamentos hipnóticos e ansiolíticos bastante utilizados na prática clínica. Um representante bem conhecido é o Rivotril (Clonazepam). “É um medicamento que a população usa, de um modo geral, tanto para tratar crises de ansiedade, como para tratar insônia – que é uma das consequências das crises de ansiedade. Esse medicamento sempre foi muito consumido por todos”, comenta Silvia.

Os Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina (ISRS ou SSRI) são uma classe de remédios usados no tratamento de síndromes depressivas, transtornos de ansiedade e alguns tipos de transtornos de personalidade. “Essa classe conta, por exemplo, com Citalopram, Escitalopram e Sertralina. São medicamentos que são bastante utilizados”, diz a coordenadora.

Uma terceira classe são os Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina (ISRSN ou SNRI). Eles são remédios relativamente recentes, utilizados no tratamento da depressão. “Podemos falar na Venlafaxina e a Desvenlafaxina que vêm sendo muito utilizados. De uma maneira geral, todos os antidepressivos, de todas as classes, tiveram um aumento significativo de uso, em relação ao ano passado”, ressalta Silvia.

Qualidade de vida pode evitar o uso

Muitas pessoas, quando estão no início da doença, resistem em aceitar que precisam de remédio. Desta forma, a enfermidade acaba evoluindo para um caso mais grave. Porém, não basta apenas o uso do remédio para eliminar a doença. “O primeiro fator é aceitar que precisa usar o remédio, mas entender que não é só o remédio que ajuda o paciente. O medicamento é um suporte, mas a pessoa precisa fazer outras coisas que ajudam a manutenção do humor, como, por exemplo, a psicoterapia – para ajudar e entender aquilo que está provocando a ansiedade ou a depressão e trabalhar isso, no sentido de buscar respostas para mudar o que está provocando o problema”, destaca a professora. “Às vezes, a mudança envolve trocar de emprego ou um relacionamento. Parece bobagem, mas, às vezes, o parceiro que é o problema. Mudar uma relação que não está boa na família”, completa ela.

A mudança no estilo de vida também é determinante para diminuir e eliminar o uso dos medicamentos. “Precisa fazer atividade física, mudar a alimentação – que tem um impacto profundo sobre o humor. As pessoas não sabem, mas a gente tem a regulação do humor pelo que se come. Por exemplo também: as pessoas precisam de atividades de lazer, que são essenciais. Então, o tratamento para depressão e ansiedade, não fica apenas no medicamento. Ficar apenas no medicamento, pode manter para o resto da vida, o que é um grande problema”, diz.

Silvia julga possível parar com a medicação. “Pode parar com a medicação, sim. Em um primeiro momento, pode ser necessário o medicamento, mas o que mais me incomoda é que a pessoa só baseia o tratamento pelo medicamento. E não evolui positivamente. Ficando dependente do medicamento. Mudar o padrão de vida e o estilo é determinante para diminuir ou zerar a quantidade de remédios”, finaliza.

Como está o uso de remédios antidepressivos

De 2017 para 2018 – houve um aumento de 9%

De 2018 para 2019 – houve um aumento de 12%

De 2019 para 2020 – houve um aumento de quase 20%

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