Após mais de 40 anos, sobreviventes de tragédia tentam superar traumas

Duas moradoras de Criciúma ainda não superaram o trauma vivenciado na madrugada do dia 29 de março de 1978, quando um edifício veio abaixo. Últimos resquícios do prédio explodido na rua Henrique Lage foram derrubados pela Defesa Civil neste ano

Marlene Chagas não escondeu a emoção ao pisar no local onde morava até tudo virar pó (Foto: Guilherme Cordeiro/TN)

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Gustavo Milioli

Criciúma

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Apesar de terem se passado quase 44 anos, as vítimas sobreviventes de um dos crimes mais bárbaros da história de Criciúma continuam com traumas irreversíveis. A cidade atraiu atenção nacional na madrugada do dia 29 de março de 1978. Um edifício residencial situado na rua Henrique Lage, no centro, veio abaixo após um incêndio criminoso combinado com uma explosão atingir o local. Ao todo, 13 pessoas morreram, à época.

As ruínas de concreto que a tragédia ocasionou deixaram profundas marcas na vida de quem resistiu ao ataque. Rosileide Chagas tinha apenas 11 naquela época. Ela mesma conta que sobreviveu devido a uma ‘ironia do destino’. Como seu pai, Brasil Chagas, estava em viagem, ela dormiu no quarto da mãe. “Se ele estivesse aqui, eu iria para o quarto com a minha irmã e, de repente, não teria sobrevivido”, relata.

O pai estava retornando de Blumenau quando se envolveu em um acidente de trânsito na saída da cidade do Vale do Itajaí. Com isso, resolveu ficar fora de casa por mais um dia além do previsto. Justo aquele em que a tragédia aconteceu. Ele morreu em 2017, vítima de infarto.

Rosileide, hoje com 55 anos, viu a dor aumentar conforme a idade foi avançando. A criciumense perdeu a mãe e dois irmãos na fatídica madrugada. “Eu tenho grandes traumas, que apareceram mais fortes mais tarde. Quando somos novos, queremos festas, dança… Agora, sofro com vários problemas. Meu pai também já faleceu, o único sobrevivente da família, além de mim. Hoje só existe eu e o meu filho, de 21 anos”, externa.

As lembranças estão vivas na memória. Sem dificuldades, ela narrou com detalhes o acontecimento. “Depois da explosão, eu escutei a minha mãe falar ‘Leide, minha filha’, e depois tudo caiu. Só ficou o meu braço direito para o lado de fora dos escombros. Eu consegui tirar o que estava na minha cabeça, para conseguir respirar, e fui saindo”, lembra. Ela não sofreu lesões ou fraturas. Sequer precisou ser hospitalizada.

“Depois que eu me levantei, saí gritando procurando pela minha mãe. Depois que me pegaram para o socorro, aconteceu a segunda explosão, e foi aí que eu penso que eles faleceram. O meu irmão teve hemorragia interna, a minha irmã se queimou toda e só foi reconhecida por causa das unhas do pé, que estavam pintadas de branco. E a mãe foi por traumatismo craniano”, declara.

Atualmente, entrar em algum apartamento virou um pesadelo. “Sempre dá a impressão de que ele vai cair. Faço acompanhamento com psiquiatra e tratamento com remédios. A lembrança ainda é viva, e parece que a cada dia é maior”, lamenta.

O sofrimento é o mesmo para Marlene Chagas, que se casou com o irmão de Rosileide. Também moradora do segundo andar do prédio desabado, ela viu a sorte bater a sua porta ao estar dormindo no único cômodo do apartamento que ficou intacto, ao lado do marido e da filha recém-nascida.

“Só o nosso quarto ficou de pé. A sala, a cozinha, a área de serviço e os outros quartos desabaram. Eu enrolei a minha filha em um lençol e entreguei ao resgate. Estava desesperada pensando que ela estava morta, mas na verdade, ela estava sorrindo”, narra. Todos os três saíram ilesos pela janela.

Viúva há 15 anos, Marlene também vê nos filhos o seu suporte emocional. “Aquilo me marcou muito. Hoje eu já voltei a morar em apartamento, mas morro de medo. Quando eu sinto cheiro de fogo eu já procurando de onde está vindo. Virou um trauma. Nunca fiz nenhum tratamento, procuro sempre participar da igreja, do clube de mães, para me distrair e não ficar pensando”, conta.

Os últimos vestígios do prédio que ainda estavam de pé foram derrubados pela Defesa Civil de Criciúma em julho deste ano. Segundo o diretor Fred Gomes, a estrutura não apresentava problemas, mas vinha sendo utilizada por moradores de rua durante as madrugadas.

O olhar de quem cobriu o mais chocante dos crimes

Toda a história está na ponta da língua do jornalista Volnei Bitencourt. Então repórter do jornal Tribuna Criciumense, ele chegou ao local dos fatos minutos depois da explosão. Segundo conta, foi possível escutar o estrondo até na Próspera e uma nuvem de fumaça e poeira tomou conta da cidade. “Quando chegamos lá já tinham vários policiais e muita gente chegando a todo o momento. Os familiares das vítimas estavam apavorados. Foi uma madrugada violenta demais. A repercussão nacional foi muito grande. Veio gente de São Paulo, do Rio, de Porto Alegre. Esses repórteres chegavam e não sabiam o que fazer, nem como ir ao local. Nós ajudamos eles. Foi uma invasão”, afirma.

A princípio, ninguém tinha noção das causas da tragédia. “Como éramos um jornal que cobriu de perto o fato desde o início, veículos de outros estados ligavam para nós em busca de informações oficiais. No início, ainda não se tinha a confirmação de que havia sido um atentado, apenas uma implosão que demoliu o prédio”, sublinha.

Reencontro silencioso

O homem foi condenado a 251 anos de prisão, a maior pena já registrada em Criciúma. Porém, cumpriu 17 anos. Viveu longe das grades de 1995 a até 2015, quando morreu praticamente em anonimato. Antes, ainda teve um reencontro frente a frente com Rosileide e Marlene, as duas personagens citadas na reportagem.

“Anos depois, no cemitério com a minha cunhada e os meus sobrinhos, eu encontrei ele. Era um enterro. Fui até ele e, com uma Bíblia embaixo do braço, na frente dos túmulos da família Chagas, ele me perguntou quem eu era. Eu disse que era filha do Brasil Chagas, perguntei: ‘O senhor sabe quem são esses três aqui’? Ele olhou, leu o nome de um por um, o dia que eles nasceram e o dia que eles morreram. Não me respondeu. Falei que eram três dos mais de 10 que ele havia matado. Ele apenas me olhou e logo em seguida a esposa dele já o tirou dali. Foi a única vez”, expõe Rosileide.

A matéria completa você confere na edição do Jornal Tribuna de Notícias desta quarta-feira 

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