Anjos do Futsal: Há 20 anos formando craques no esporte e na vida

Projeto social já revelou diversos atletas profissionais para o mundo da bola, mas segue com o propósito de formar cidadãos

Foto: Guilherme Cordeiro/TN
- PUBLICIDADE -

Gustavo Milioli

Criciúma

- PUBLICIDADE -

O projeto Anjos do Futsal completa nesta segunda-feira, oficialmente, 20 anos de história. De lá para cá, mais de 11.500 crianças vestiram as cores da iniciativa, que possui 26 núcleos distribuídos em 21 municípios do Sul de Santa Catarina.

Idealizado pelo então tenente-coronel Márcio Cabral, do 9º Batalhão de Polícia Militar (BPM) de Criciúma, ao lado do técnico de futsal Jean Reis, o objetivo era, através do esporte, afastar crianças e adolescentes de posições marginalizadas e introduzi-las à sociedade. As técnicas de futebol de salão ensinadas pelos professores serviram para revelar atletas profissionais, que hoje atuam em diversos países ao redor do mundo, como Espanha, Itália, Catar e Rússia, além de equipes de destaque do próprio Brasil.

O Anjos do Futsal ainda possui o compromisso enraizado de formar cidadãos, mas não se resume mais em receber apenas jovens em situação de risco. Todos os interessados em praticar o esporte são bem-vindos nos 26 ginásios que recebem os treinamentos. Em Cocal do Sul, por exemplo, até o filho do prefeito Fernando de Fáveri (foto principal) participa da escolinha.

As únicas exigências é que os alunos tenham entre 10 e 14 anos e estejam estudando. Todos os municípios da Região Carbonífera (Amrec) e do Extremo Sul (Amesc) contam com núcleos do projeto. Recentemente, a Associação dos Municípios da Região de Laguna (Amurel) também adentrou no catálogo, por meio de São Ludgero, que desde 2019 passou a fazer parte da parceria.

Metodologia aplicada

“A nossa ideia é ajudá-los a construir sonhos. Tanto faz a condição social do garoto, não descriminamos ninguém. Queremos firmar bons comportamentos sociais e formar bons cidadãos.”, aponta o coordenador geral Márcio Cabral. “A nossa metodologia é baseada em três pilares: motivação, intensidade e repetição. Nós precisamos desses três conceitos para tudo em nossas vidas. Se eles estiverem motivados intensamente naquilo que estão fazendo, e repetirem até atingirem a melhora, não tenho dúvidas de que estarão no caminho certo para o mercado de trabalho”, acrescenta.

Portanto, além de já ter colocado jogadores nas principais ligas da modalidade no mundo, o Anjos do Futsal pode se vangloriar de também ter formado professores, bombeiros, médicos, empreendedores, ou qualquer trabalhador de outras profissões que conhecemos. “Para se ter uma ideia, o aluno número um do projeto foi o Filipe, filho do Beto Colombo, que hoje é o diretor-presidente da Anjo. O próprio Beto, quando idealizamos isso tudo, lá em 2001, quis que o seu filho fizesse parte da educação desse projeto”, destaca Cabral.

O início de tudo

Certa vez, um funcionário da empresa Anjo Tintas, localizada no distrito de Rio Maina, em conversa com o proprietário Beto Colombo, disse que a situação da marginalidade em seu bairro, o Mina União, estava complicada. Gangues formadas por jovens ociosos causavam preocupação ao colaborador, já que o seu filho tinha riscos de fazer parte de algum desses grupos. “Pô, Beto, o que tu pode fazer para ajudar nossa comunidade?”, indagou.

Ao lado do Coronel Márcio Cabral, o empresário teve a ideia de organizar uma escolinha de futebol de salão, uma vez que a Anjo, à época, mantinha um dos clubes mais fortes de Santa Catarina no futsal adulto.

Quem conta essa história é o treinador Jean Reis, que fazia parte da comissão técnica da equipe profissional, e foi um dos precursores da iniciativa no âmbito social. “Formamos dois núcleos em Criciúma no primeiro ano. Como nós tínhamos muita torcida regional, sentimos necessidade de expandir a ideia a outros municípios e, logo no segundo ano, abrimos escolinhas também em Cocal do Sul, Nova Veneza e Forquilhinha. O projeto foi crescendo sucessivamente ano a ano, até, hoje, estar presente em 21 cidades”, detalha Reis, que atualmente ocupa a função de coordenador.

Os primeiros bairros a receberem o projeto foram o Jardim União e o Ana Maria, em abril de 2001, quando 60 crianças participavam. O número atual de alunos é de 1.260, no entanto, sem estarem treinando. As atividades estão paralisadas desde abril do ano passado, em virtude da pandemia e das restrições às práticas esportivas coletivas em ambientes fechados.

Parcerias

O convênio público-privado ocorre da seguinte forma: as prefeituras parceiras contratam os professores, o transporte escolar e oferecem os locais de trabalho. Toda a logística, incluindo os materiais esportivos, uniformes e as competições, é viabilizada pela Anjo.

São organizados, todos os anos, três torneios. “O garoto gosta de treinar, mas ao mesmo tempo, gosta de competir. Esse é o nosso diferencial. O primeiro é o campeonato interno, dentro de cada núcleo, realizado no primeiro semestre. Depois, temos o Festival Anjos do Futsal. São três dias de jogos nos ginásios da Unesc, onde fazemos uma abertura muito bonita, que envolve a entrada das equipes com suas bandeiras e com direito até a fogo simbólico. Por último, nos cinco meses finais do ano, temos o grande campeonato regional, com todos os núcleos disputando entre si e os garotos jogando dentro e fora de casa”, explica Reis.

As categorias participantes são o sub-11, sub-13 e sub-14. Cada uma, com 26 equipes. Isso quer dizer que, no torneio principal, são 78 times compreendidos. “Os jogos vão desde São Ludgero a até Praia Grande. É a maior competição interna do Estado”, evidencia.

Experiência aliada ao sucesso

Jean Reis já ocupou os cargos de preparador físico, auxiliar-técnico e treinador da equipe adulta, oportunidade em que chegou a disputar o título de campeão catarinense de futsal. Hoje, além de coordenar a iniciativa, ele mantém-se como técnico das categorias de base. “O projeto deu uma grande sustentação à nossa base, aquela que disputa competições externas, como o Estadual. E foi dali que relevamos grandes atletas, que já chegaram a vestir a camisa da Seleção Brasileira”, destaca.

São eles Sidnei Maurício Fernandes, natural de Armazém, Douglas Barp, de Criciúma, Matteus Reinaldi, de Turvo, e Evandro Borges, de Lauro Müller. O criciumense Lucas de Oliveira, naturalizado catari, defendeu por quase uma década a seleção do Catar. “Fora os atletas que estão hoje disputando a Liga Nacional por clubes fortes. Já tivemos atletas que chegaram até ao Barcelona, que desbravaram o mundo jogando futsal”, aponta o professor. Claudinho, lateral-direito titular do Criciúma, treinou no núcleo de Forquilhinha dos nove aos 14 anos, antes de migrar definitivamente para o futebol de campo. “Hoje, temos 18 meninos jogando na base do Tigre”, completa Reis.

“Para mim é um sonho realizado, encaro como uma conquista pessoal, por ter ajudado cada um deles neste processo. Por outro lado, quando a gente vê um pai de família que se deu bem, o sentimento é o mesmo. Temos professores universitários que passaram pelo Anjos do Futsal, treinadores que são do projeto e lá atrás foram alunos nossos… Tudo isso é muito gratificante de ver”, externa.

A Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) surgiu neste elo a partir de 2007, fornecendo o espaço físico para a realização de palestras, cursos, seminários, reuniões e partidas. Os estagiários do Anjos do Futsal, escolhidos pela coordenação do projeto, recebem uma bolsa integral de estudos para cursarem Educação Física na Unesc, enquanto, em meio-período, dão suporte aos professores de determinados núcleos. “A gente procura acadêmicos que queiram trabalhar dentro do futsal e fazemos uma seleção, para avaliarmos também a tendência técnica”, comenta.

Disciplina

O Anjos do Futsal tem a preocupação de ir além das técnicas do esporte. Cobrar o uso dos uniformes, a pontualidade aos horários e, acima de tudo, boas notas nos boletins escolares, são princípios primordiais entre os professores do projeto. “Toda e qualquer atitude de militarismo, disciplina, que tomamos nos treinos, serve para a vida”, afirma Jean Reis.

“Os quatro melhores professores das escolinhas ganham uma bonificação de 13º salário no final do ano. Temos uma média de pontuação onde avaliamos cada núcleo. A limpeza do ginásio, a padronização dos uniformes, o estado das bolas… Tudo isso é disciplina, é organização”, coloca Márcio Cabral.

Dupla responsável pela criação coordena o projeto até os dias de hoje (Foto: Guilherme Cordeiro/TN)

Ensinamentos levados das quadras ao Corpo de Bombeiros

Ricardo Vieira dos Santos chegou à Capital do Carvão em 2005, aos 16 anos, para atuar nas categorias de base do futsal da Anjo. Natural de Lages, ele chamou a atenção da comissão técnica criciumense em um Joguinhos Abertos, quando saiu do banco e marcou quatro gols na vitória de virada do seu time sobre Criciúma, por 6 a 3.

“Sempre encarei o futsal como uma forma de garantir os meus estudos”, conta. Foi por meio do esporte que ele teve a oportunidade de ganhar uma bolsa na Unesc e se formar em Educação Física, enquanto era estagiário do Anjos do Futsal. Durante a jornada de acadêmico, Ricardo não abandonou a carreira de atleta.

Foram 10 anos dedicados à performance de alto rendimento, tendo defendido as equipes adultas de Siderópolis, Tubarão e Florianópolis. “No último ano da minha graduação, eu passei no concurso para o Corpo de Bombeiros, e voltei à minha cidade natal para encerrar minha carreira jogando em casa”, relembra o cabo Dos Santos.

Ricardo aproveitou o lado bom da competitividade para crescer na vida (Foto: Divulgação)

Ele se afastou das quadras como atleta, mas as quadras não se afastaram dele como pessoa. “O esporte me ensinou a correr atrás dos meus próprios objetivos, pelas minhas próprias pernas. Eu trago muito para a minha vida o lado bom da competitividade, de querer dar sempre o melhor. No meu próprio curso de formação de soldado, quando fiz em 2012, eu fui o primeiro colocado. No meu primeiro concurso interno, já consegui passar para a promoção a cabo”, destaca o bombeiro militar, que ainda mantém uma academia personalizada de treinamento funcional, em Lages.

De aluno, para estagiário, para professor

Igor Mouro tinha o sonho de ser jogador profissional mas, como mesmo confessa, não possuía a habilidade necessária. Ele começou como aluno do projeto aos 10 anos, em Cocal do Sul, sendo treinado por Jean Reis. “Quando a gente ia mal na escola, ele sempre puxava a nossa orelha”, se diverte. “O problema é que eu não nasci com o talento. Decidi me dedicar ao esporte por meio dos estudos”, comenta.

Igor passou boa parte de sua vida neste ginásio (Foto: Guilherme Codeiro/TN)

Igor trabalhava como cobrador de ônibus até receber a notícia de que seria agraciado com uma bolsa de estudos para cursar Educação Física, na Unesc, enquanto era estagiário do Anjos do Futsal. O profissional ficou quatro anos nesta condição, até completar a graduação. Logo após colar grau, foi contratado pela Prefeitura de Cocal do Sul como professor do núcleo da cidade. “Hoje eu trabalho no mesmo ginásio em que eu cresci”, pontua.

Atualmente, Igor passa aos seus alunos aquilo que Jean o transmitiu há cerca de 15 anos. “Muitas vezes o jovem se frustra por não poder se tornar um jogador, mas temos que ensinar a eles o caminho dos estudos. É essa direção que buscamos traçar a eles. Eu tive alunos que se tornaram médicos, advogados. As possibilidades são infinitas”, destaca.

Seleção Brasileira na bagagem e a meta de ser o melhor do mundo

Pode parecer difícil, mas Evandro Borges, enquanto jogava na escolinha, já tinha a consciência de que muito iria conquistar no futsal. “Desde quando eu comecei, eu não me via fazendo outra coisa. Sempre tive na minha mente que iria ser um jogador profissional”, frisa.

O atleta de 22 anos já acumula convocações para a Seleção Brasileira no currículo. Ele foi campeão de dois campeonatos Sul-Americanos defendendo a Amarelinha e hoje atua pelo Joinville. “Foi um sonho realizado poder representar o meu país, é um sentimento extraordinário. Uma experiência que vou levar para minha vida toda e sem dúvidas vou atrás de mais convocações”, coloca.

Evandro quer ir atrás de outras convocações (Foto: Divulgação)

Evandro também nutre um sentimento de gratidão ao Anjos do Futsal. Ele concentra na figura de Jean Reis como o responsável por fazê-lo se profissionalizar no esporte. “Todos os treinadores que passaram por esse meu ciclo foram importantes, mas o que me fez virar o atleta que sou hoje foi o Jean, nos anos em que joguei em Forquilhinha”, aponta.

Depois de sair do projeto, o jogador passou por um período de seis anos no Tubarão, até receber uma proposta do JEC. Nesta temporada, ele tem planos de disputar a Liga Nacional, a Taça Brasil e o Campeonato Catarinense.

“Tenho metas e nunca me deixo entrar na zona de conforto. Como conquistas individuais, almejo disputar uma Copa do Mundo e ser o melhor jogador de futsal do mundo”, expõe o ala.

Ele virou ídolo de uma nação árabe

Nascido e criado no bairro Santa Luzia, em Criciúma, quis o destino que Lucas de Oliveira se tornasse cidadão catari. Revelado pelo Anjos do Futsal, Luquinhas, como popularmente é conhecido, recebeu a proposta inusitada de defender um clube do Catar, no Oriente Médio, enquanto era atleta de Siderópolis.

O criciumense já havia recebido outros convites para deixar a região anteriormente, mas tinha como foco primeiro receber o diploma de bacharel em Educação Física, para depois ‘voar’. No entanto, a proposta dos árabes o deixou balançado. O contrato era excelente no aspecto financeiro. Luquinhas abandonou o curso no último semestre da graduação e desembarcou em Doha. Ele passaria seus próximos 10 anos jogando pelo futsal local.

O clube que o contratou era considerado intermediário. Duas temporadas foram o suficiente para que ele chamasse a atenção do sheik dono da principal agremiação do país, o Al Rayyan. O magnata, além de querer tê-lo em seu time, o apresentou um projeto de naturalização para que defendesse a seleção catari de futsal nos torneios internacionais. Foi o que levou o craque a levar a então noiva para o Catar e se estabilizar no país definitivamente.

Luquinhas foi “campeão de tudo” jogando no Catar (Foto: Divulgação)

“Conquistei bastantes coisas lá. Foi o meu grande crescimento profissional, cheguei ao ápice. Se não fosse a base do Anjos do Futsal, sei que não teria chegado onde cheguei”, afirma. “É um projeto social gigante, já joguei fora do Brasil contra colegas que também foram criados lá dentro. Visitei o mundo inteiro e nunca vi nenhum projeto parecido”, comenta Luquinhas, que carrega o título de campeão da Copa da Ásia.

Lucas vem de família humilde. Não era raro conviver em meio a usuários de drogas nas ruas da comunidade onde morava. Ele sabia dos outros caminhos que a vida pode levar. “Conheci amigos que morreram por causa do tráfico, mas o esporte me deixou com a cabeça focada. Quando visito os núcleos das escolinhas, sempre digo para eles nunca desistirem dos seus sonhos. O esporte é capaz de transformar vidas”, salienta.

O atleta conseguiu finalizar o curso de Educação Física recentemente. Com a pandemia, as competições no Catar ficaram paralisadas e até hoje não retornaram. Ele veio ao Brasil e, em uma pausa forçada na carreira, pôde realizar as disciplinas faltantes na Unesc. Agora, enquanto aguarda os desenrolares para poder voltar a jogar, trabalha como treinador particular de futebol, em Criciúma.

-- PUBLICIDADE --
Compartilhar

NOTA: O TN Sul não se responsabiliza por qualquer comentário postado, certo de que o comentário é a expressão final do titular da conta no Facebook e inteiramente responsável por qualquer ato, expressões, ações e palavras demonstrados neste local. Qualquer processo judicial é de inteira responsabilidade do comentador.