Orleans: O primeiro padre casado do Sul

Ednilson Marcelo Perdoná, de 52 anos, que tem 30 anos de matrimônio, é ordenado sacerdote, em Orleans, pela Igreja Católica Apostólica Brasileira

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Tiago Monte

Orleans

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Você não leu o título da matéria errado, não. E o repórter também não se enganou: Ednilson Marcelo Perdoná, de 52 anos, foi ordenado o primeiro padre casado do Sul de Santa Catarina, pela Igreja Católica Apostólica Brasileira, no dia 5 de dezembro. A igreja é uma dissidência da Igreja Católica Apostólica Romana e tem uma história de 75 anos.

Ednilson é casado há 30 anos com Anita e pai de Emanuel – o único filho deles. Porém, ele gostaria de ser padre desde criança.“Eu tenho convicção dessa vocação que me fez trabalhar e lutar para ser realidade. Passei pelo seminário, em Tubarão, e desisti por não me sentir em condição de viver o celibato (pessoa que se mantém solteira por toda a vida). Mesmo assim, continuei na igreja, em mais de 36 anos, trabalhando sempre na evangelização como leigo”, explica Perdoná.

Ednilson é jornalista e radialista – profissões que exerce para o sustento pessoal. Em um primeiro momento, ele tentou seguir a carreira religiosa na Igreja Católica Apostólica Romana, mas foi descartado. “Eu tenho uma vocação que, num primeiro momento, foi desclassificada. Houve uma frustração e eu, sabedor que poderia chegar ao diaconato, por outra instituição, não tive a oportunidade. Esperei por três anos para ser diácono, com pedidos protocolados na Cúria e na Paróquia de Orleans e não tive aceitação. Fui descartado”, comenta.

A mudança, a partir de uma nova visão

Tudo mudou quando, no final de 2017, Ednilson conheceu a Igreja Católica Apostólica Brasileira, diocese de Lages – a única que existia no Estado. “A diocese de Joinville, que abrange todo o litoral catarinense, através do bispo Dom André Luiz Brandolff me fez uma visita, um convite e eu resolvi parar de chorar. Abracei a causa e comecei os estudos teológicos, faço minhas aulas à distância – a sede fica em Brasília – e nós não vivemos a preparação para o ministério sacerdotal em seminários”, pontua.

Os futuros sacerdotes vivem a preparação na prática. “Tanto que nós não temos ligação com Roma, não somos assalariados de Roma e temos que trabalhar para viver. Alguns padres dependem da evangelização para viver, mas há a liberdade estatutária para nós buscarmos o trabalho civil para sobrevivermos”, comenta Ednilson.

As principais diferenças entre as igrejas

As Igrejas Católicas Apostólicas Brasileira e Romana tem algumas diferenças nas posturas. Mais tradicional, a Romana não permite que os padres sejam casados, por exemplo. Já a Brasileira é considerada mais permissiva.  “Nós podemos ser casados ou solteiros. O celibato foi abolido por Dom Carlos, quando organizou a igreja brasileira, em 1945. Nós temos 75 anos no Brasil, estamos em 57 cidades e em 17 países”, explica o Padre.

Entre as diferenças da Igreja Brasileira está a admissão do sacramento do matrimônio para a segunda união. “Desde que haja uma separação legitima. Para os sacramentos de batismo e matrimônio, nós não exigimos preparação em cursos anteriores ao sacramento. Não somos assalariados, precisamos trabalhar para sobreviver”, comenta Ednilson.

Outra diferença fundamental diz respeito ao sacramento da Confissão. “Não atendemos confissão auricular porque é algo muito particular, pessoal. A confissão existe, na igreja, como forma de controlar a vida das pessoas. Se confessa com Deus. Agora, se precisar de um aconselhamento com o Padre, pode vir. Nós entendemos que, a cada Santa Missa, nós temos a oportunidade de nos arrependermos dos pecados, e pedir o nosso perdão ao sacerdote que administra a Santa Missa. Não há necessidade de você vir ao Padre para se confessar. Se você quer se aconselhar é uma outra situação”, ressalta.

A vida com a mulher do padre

Conforme Ednilson, o casamento está mais feliz do já era. Ordenado Padre desde 5 de dezembro, ele trata a situação do matrimônio com muita leveza. “O que mudou no meu casamento é que, a minha esposa, que sempre foi meu apoio, desde a minha decisão em ser diácono, agora, todas as noites, ela não vai dormir e nem acorda sem pedir a benção do padre. As pessoas que olhavam com diferença, vão continuar olhando, e a gente mais feliz do que já era. Continuo esposo e muito bem casado. São 30 anos muito bem vividos com a minha esposa”, pontua. “Agora, ela é, legitimamente, a mulher do padre”, finaliza, com bom humor.

Sem novos candidatos ao posto

Por enquanto, a Igreja Católica Apostólica Brasileira não tem novos padres prontos para serem ordenados. A primeira sede da iniciativa será em Orleans, através do padre Ednilson. “Nós temos vocacionados, pessoas em preparação. A pessoa vai participar da igreja e, depois de um certo tempo, se despertar a vocação, começa o processo de análise de discernimento vocacional. Isso pode levar até dois anos, até a pessoa ser admitida como seminarista e segue a formação normalmente”, comenta o bispo Dom André Luiz Brandolff.

A partir do trabalho do Padre Ednilson novos padres podem surgir. “Estamos começando em Orleans com o trabalho missionário do Padre Ednilson e, a partir dali, podem surgir novos padres”, finaliza o bispo.

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