Içara: Os lugares onde a pobreza pede abrigo

No município, um dos mais prósperos economicamente da região, há mais de 3 mil famílias em situação de vulnerabilidade social

Foto: Guilherme Cordeiro/TN
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Heitor Araujo
Içara

O trem corre no trilho da Tereza Cristina; leva a produção do Sul catarinense rumo ao norte; o motor, o apito e o impacto das locomotivas que puxam os vagões com contêineres a serem despachados no porto de Imbituba cortam o centro e a periferia de Içara, segunda maior economia da Amrec – e uma das mais prósperas do Sul do Estado. Às margens dos trilhos vivem autônomos, operários, catadores, recicladores… trabalhadores que produzem as riquezas distribuídas pela estrada de ferro centenária.

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Içara orgulha-se de ter uma economia

diversificada e almeja o posto de segunda maior potência do Sul catarinense. Com uma população estimada em mais de 57 mil pessoas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município recupera-se da crise econômica em meio à pandemia, com a criação de mais de 400 vagas de emprego nos últimos dois meses levantados pelo Caged. Entretanto, segundo dados da Assistência Social

de Içara, 8,2 mil famílias recebem o auxílio emergencial do governo federal.

Uma peculiaridade da distribuição urbana de Içara é que no município não se concentram bolsões de áreas de vulnerabilidade. No entanto, é justamente à margem dos trilhos – que já foram sinônimos de riqueza e prosperidade – que moram as famílias em situação econômica e social mais complicada. Segundo a Assistência Social, há mais de 2 mil famílias em nível de pobreza e mais de 1 mil em extrema pobreza no município.

As regiões da pobreza

Mais de 14 quilômetros separam o bairro homônimo à ferrovia Tereza Cristina, mais ao centro da cidade, do Esplanada, quase no limite municipal com Morro da Fumaça e Jaguaruna. O percurso entre um e outro pode ser feito em paralelo ao trilho, pela estrada de terra batizada de Avenida Manuel Gregório Pacheco.

Da casa de Claudia Serafim, no condomínio de habitação popular Dona Emma, no Tereza Cristina, até a de Daiana da Rosa, no Esplanada, o caminho é cercado por trilhos, terras, milharais, rodovias. A desempregada e a recicladora conseguem ouvir e sentir o trem passando na rodovia: visível há poucos metros da casa de uma, escondido a maior distância da casa da outra.

Ambas as personagens fazem parte do grupo de famílias em dificuldades financeiras e sociais – não causadas, mas acentuadas pela pandemia. Uma realizou o sonho da casa própria, ainda não quitada, por meio do programa de habitação do governo federal, Minha Casa Minha Vida, lançado pelo governo federal em 2009. Outra se muda constantemente de acordo com a possibilidade de aluguel: recentemente deixou Jaguaruna para fixar residência no bairro Esplanada, em Içara.

Sem emprego

O marido de Claudia procura bicos como faz-tudo, especialmente pedreiro, mas aceita o que aparecer. Já o de Daiana especula situações informais nas olarias, a exemplo de muitas das famílias que residem nas áreas de maior vulnerabilidade social. Com a pandemia, os empregos estão quase inacessíveis para os dois; cabe a Claudia permanecer em casa com as quatro crianças, enquanto Daiana deixa os quatro filhos na casa de madeira para trabalhar junto com a sobrinha em uma recicladora.

Muitos fatores – além do mesmo número de filhos – assemelham Claudia e Daiana. Separadas por uma ferrovia, as duas mulheres que não se conhecem lutam contra os mesmos problemas, ao lado dos maridos, enquanto apavoram-se com a perspectiva de ver o auxílio emergencial do governo federal cair pela metade – de R$ 600 para R$ 300 já a partir deste mês.

Os problemas

A Assistência Social de Içara afirma que há 550 habitações populares no município. O aluguel para aqueles que não possuem uma propriedade é uma das maiores dificuldades para as famílias em situação de vulnerabilidade social. Para a secretaria de Desenvolvimento Econômico, uma das formas de melhorar a renda dessas famílias passa pela maior qualificação de mão de obra, que poderia vir com a criação de uma escola técnica no município.

Claudia lembra da fome que passou ao lado da filha mais velha e do marido, enquanto Daiana vive na expectativa de uma carteira assinada. Ambas não hesitam em aceitar ajuda de quem pode oferecer. Claudia deixa seu whatsapp para quem quiser fazer qualquer doação: 9 9652-4458.

A reportagem completa você confere na edição desta segunda-feira do Tribuna de Notícias.

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