Em Cocal do Sul, a busca por mais dignidade

Famílias vivem em áreas de ocupação e enfrentam dificuldades com as condições precárias de vida. Prefeitura realiza trabalho de regularização fundiária

Foto: Guilherne Cordeiro/TN
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Tiago Monte
Cocal do Sul

Nada melhor do que chegar em casa, após um dia de trabalho, e conseguir relaxar. Ou, então, aquela sensação de tranquilidade dos aposentados que, após uma vida inteira de contribuição, relaxam e aproveitam a chamada “melhor idade” no conforto do lar. Essa não é a realidade de diversas famílias de Cocal do Sul. Elas residem em áreas de ocupação, também conhecidas como “áreas verdes”. São locais proibidos de receberem construções, porém, com diversas casas construídas de forma ilegal.

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Uma das situações mais delicadas está localizada na rua Ernesto Bettiol, no bairro Brasília. Lá reside Verônica Bratti. Aos 67 anos, ela mora na região há quase 40 anos. Aposentada, ela mora junto com uma filha, de 31 anos, e dois netos: um de 17 anos e outra de 2 anos. Além do terreno não ser legalizado, a casa em que ela reside está caindo. “Precisa arrumar tudo. Está tudo podre e caindo e a gente não tem condições de arrumar. A prefeitura deu a casa, há mais de 30 anos, e agora estou lutando para ver se arrumam, mas está difícil. O terreno é área verde, de ocupação”, relata.

Os quatro moradores sobrevivem com um salário em torno de dois mil reais. Desta forma, em diversos meses, a necessidade aumenta ainda mais. “Sou só aposentada e chego a ficar sem comida. Recebo doações do Cras (Centro de Referência de Assistência Social) e da Igreja Quadrangular. Eles me ajudam bastante também com roupas”, comenta.

Apesar do problema com as necessidades básicas, a mulher quer mesmo é que a casa seja reparada. “Falta tudo, mas o que eu mais queria é que a prefeitura arrumasse a minha casa. Está caindo tudo. Não da nem para guardar comida nos armários. Se alguém quiser ajudar, a gente aceita. Está muito complicado, inclusive, meus móveis estão todos quebrados”, destaca Verônica.

Filha engrossa o coro por melhoras

Outra das filhas de Verônica, Marinês Florêncio da Silva, de 47 anos, engrossa o coro no pedido da mãe. “A gente já pediu ajuda direto para a prefeitura, mas eles dizem que não dá certo. A casa está caindo aos pedaços. O certo era desmanchar tudo e fazer de novo, mas ninguém ajuda”, pontua.

A casa foi cedida à Verônica no mandato de Ítalo Rafael Zaccaron, o Tito, porém, segundo a filha, de lá para cá, nada de manutenção. “A casa foi dada na época do Tito, um prefeito maravilhoso que ajudou na época, mas isso faz uns 30 anos. De lá para cá, nada de manutenção. Já estive na prefeitura várias vezes pedindo ajuda, afinal o terreno é de área verde. Então, eu queria que eles ajudassem”, diz Marinês.

A instalação elétrica da residência só está funcionando devido à uma boa ação da Coopercocal.“Através do Belha, o presidente, que nos ajudou a fazer a instalação e foi de coração. A gente agradece muito”, comenta Marinês.

A situação da residência está abaixo da precariedade. “A casa está caindo aos pedaços. Esses dias ela (Verônica) caiu no banheiro porque tinha uma parte que precisa arrumar. A hora que chove molha tudo dentro de casa. Salva só um pedacinho. Agora vem o verão, temporal, e corre o risco de desabar tudo. Eu vim aqui desmanchar uma parte que está quase caindo e temos medo que caia na cabeça da menina”, enfatiza a filha de Verônica, fazendo referência à sobrinha de dois anos, que mora com a avó.

Marinês só tem um desejo: que a mãe tenha uma moradia digna para viver. “Quem me dera conseguir uma melhora nessa casa. Seria o melhor presente que eu poderia ganhar na minha vida. Alguém arrumar a casa da minha mãe. É o presente que eu mais desejava”, ressalta, sem poder conter as lágrimas. “Quem quiser doar material de construção, mão de obra ou qualquer ajuda para vir arrumar, a gente aceita com o maior prazer”, completa Marinês. O telefone de contato para doações é o (48) 99989-2213.

O caso já é de conhecimento da prefeitura. “Estamos dando assistência legal e tudo mais o que é necessário. Estamos procurando alternativas para resolver essa questão“, comenta o Secretário de Assistência Social de Cocal do Sul, Juarez Fogaça, o Jura.

Sem benefícios, a situação se complica ainda mais

No bairro Jardim Elizabeth, vive o eletricista José Paulo da Rosa de 46 anos. Embora a residência dele esteja em boas condições, o terreno também está localizado em área de ocupação. O homem vive no local há 12 anos com o filho, Paulo Ricardo, de 19 anos.
José Paulo está desempregado e diz que não chega a ficar sem comida, mas agradece por não ter que pagar aluguel. “Eu faço um ‘biquinho’ ali, outro ‘biquinho’ aqui… Como eu sou eletricista, tem bastante serviço, mas a gente tem que segurar os ‘troquinhos’ que entram para comprar comida. A sorte é que eu não pago aluguel, senão a situação seria bem mais difícil”, diz.

Antes do início da pandemia do coronavírus, José Paulo trabalhava com carteira assinada, mas o serviço que realizava está parado. “Eu trabalhava como eletricista no batalhão do Corpo de Bombeiros de Içara. Estava fazendo a parte elétrica de lá. Hoje está tudo parado e preciso viver de ‘bico’”, comenta.

Devido ao desemprego, ele e o filho chegam a viver com 800 reais por mês. “É pouco e bem justinho. Se não fosse a pandemia, eu estaria trabalhando. Por conta da pandemia, a prefeitura segurou a verba que eles tinham para a construção, então a obra parou”, diz.
Mesmo com o salário baixo, José Paulo não está cadastrado em programas do governo. E tudo em função do medo. “Eu não tava confiante nos benefícios. Fiquem em dúvida se, futuramente, seria descontado algo da gente. Eu tinha medo de ter que trabalhar mais pra me aposentar por ter pego auxilio. Esse era o medo de todo mundo”, enfatiza.

A esperança é que a situação melhore em 2021 e ele retorne ao trabalho com carteira assinada. “Se me chamarem, eu volto, mas, em principio, enquanto eu conseguir me manter, vou continuar assim. Fichado está muito difícil. Um lugar que pagava três mil, hoje paga, no máximo, 1.500 reais”, destaca.

A reportagem completa da série “Na linha da pobreza” você pode conferir nas páginas de hoje do Tribuna de Notícias.

 

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