Criciúma: Parque Municipal do Morro do Céu está em situação de abandono

Na área de preservação ambiental não há controle ou orientação e Famcri admite dificuldades de fiscalização

Trilha está aberta, mas não há controle de entrada e saída (Foto: Guilherme Cordeiro/TN)
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O Parque do Morro do Céu, uma extensa área de preservação ambiental no coração de Criciúma, está abandonado. Trilhas descuidadas, restos de carvão no solo e a falta de fiscalização colocam em risco a manutenção do espaço, mas também a segurança de quem o frequenta.

Ataque do cão

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Em visita a Criciúma no último fim de semana, um morador de Imbituba leu na internet sobre o parque, uma área de preservação e, teoricamente, educação ambiental na cidade, aberto para visitantes em busca de contato com a natureza, e resolveu conhecê-lo.

Ao chegar ao local, estranhou o abandono: não havia sequer vigilância, tampouco orientação. Optou por subir o morro, quando foi surpreendido pelo ataque de um rottweiller, solto no parque, próximo ao portão de acesso às trilhas. Defendendo-se do ataque, desceu correndo a ladeira, mas levou mordidas que o impossibilitaram, durante a semana passada, de exercer as atividades laborais e sociais em seu município.

O episódio causou indignação. H.F.G procurou a Fundação Ambiental de Criciúma (Famcri) e registrou um boletim de ocorrência contra o dono do cachorro, um morador vizinho ao parque. Para a vítima do ataque, o Parque Municipal Natural do Morro do Céu não deveria estar aberto.

“O parque está muito abandonado, sem ninguém para prestar socorro, nada. O rottweiler me atacou, tomei 25 pontos, agora estou aqui que não consigo andar. É uma irresponsabilidade do dono do cachorro e da prefeitura de deixar o parque aberto sem condições de a gente frequentá-lo”, lamentou. “Era um parque muito bonito na internet. Chegando lá, vi que estava abandonado, até com o portão caído, meio estragado”, completou.

Um enclave verde no meio da urbanização de Criciúma

O Parque Municipal Natural Morro do Céu é uma área de 85,5 hectares na região central de Criciúma. É uma zona de Mata Atlântica, coberto por floresta ombrófila densa submontana, onde vivem animais de 83 espécies, entre répteis, aves e mamíferos, e uma flora de 151 espécies, nativas e exóticas. No morro também estão várias nascentes dos rios da região, como o próprio Rio Criciúma.

Desde 2008, por meio da lei municipal 5207/2008, o morro é um espaço de preservação ambiental integral e um parque aberto para visitações. Em 2011, uma parceria da prefeitura, detentora do espaço, com a Unesc, criou o Plano de Manejo, que determina as diretrizes de uso e preservação do espaço.

O plano

O Plano de Manejo foi constituído em duas etapas, segundo o coordenador do Centro de Pesquisas e Estudos Ambientais do Iparque, da Unesc, o professor Sérgio Galatto: de levantamento de dados e elaboração das diretrizes de uso.

“É um documento técnico com fundamentos nos objetivos gerais de uma unidade de conservação. Nesse documento estabelece-se o zoneamento e as normas que devem presidir no uso da área e o manejo dos recursos naturais. O plano permite implantar estruturas físicas de apoio à gestão da unidade”, detalhou Galatto.

Foi por meio do Plano de Manejo que as trilhas do interior do parque foram criadas, além do cercamento e das limitações do uso – não é permitido recolher elementos da fauna e da flora sem autorização, subir de moto ou bicicleta nas trilhas e fazer fogueiras, por exemplo. Definiu-se também pela supressão das espécies exóticas, como os eucaliptos, que atrapalham o desenvolvimento da flora nativa.

Realidade é diferente do definido em plano

Sem a presença efetiva de fiscalização – a Famcri informa que trabalha apenas por meio de denúncias de irregularidades – a realidade é, no entanto, bem diferente. Não há vigilância interna, com exceção de câmeras anteriores ao portão de acesso às trilhas. Uma rápida volta da reportagem no interior do Morro do Céu no meio da tarde bastou para presenciar um homem subindo de moto, um adolescente de bicicleta e uma dupla de amigas falando sobre as plantas do Parque e como retirá-las.

Nas trilhas, além de objetivos perdidos, muitos rastros de carvão queimado, uma evidência de que fogueiras são acesas com frequência no local. Na visão de Galatto, uma forma eficiente de manter a preservação do espaço – e a segurança dos usuários – é a presença de uma infraestrutura e operacionalização no parque.

“O que eu verifico é que talvez tenha que ter uma infraestrutura e um controle para implantar um programa de visitação, para que não tenha danos na estrutura física e dentro do parque”, afirma. Também ajuda e dar maior segurança humana. “Por isso é legal o controle de visitação controlada, a quantidade de pessoas que vão entrar, com horário de entrada e saída”, acrescenta.

Operacionalização

Segundo Galatto, várias dessas operacionalizações foram propostas no Plano de Manejo. O professor de Engenharia Ambiental falou sobre o cercamento do parque, etapa concluída pela prefeitura, que trouxe uma segurança importante para o interior do morro. “Nós propomos, na fase de planejamento, ações gerenciais internas, vários programas de operacionalização do parque, programas de administração e manutenção: visitação e proteção, pesquisa e monitoramento”, citou. “Não sei até que ponto foi feito”, conclui.

Atualmente, sem o ponto de controle, o parque permanece aberto 24 horas. “Para ter-se sucesso de conservação, tem que se ter essa operacionalização. Permitir às pessoas a adentrar e usufruir do parque. Isso é o legal da conservação. É um bioma e tem que ser cuidado, a preservação desse parque corrobora para a manutenção dos recursos hídricos. O parque contribui muito para a regulação do clima, o equilíbrio e a regulação de chuvas na região”, pondera Galatto.

Famcri admite dificuldades de controle

A Famcri admite que há falhas de regulamentação no parque. O órgão afirma não ter capacidade de pessoal para fazer uma vigilância presencial no espaço. De 2014 a 2019, a sede da Famcri era no Morro do Céu, uma facilitação para a fiscalização; porém, desde que se mudou para a nova sede, não há mais este controle.

“A gente não consegue ocupar por causa da estrutura. A gente teve várias ideias de deixar algo de educação ambiental, mas a gente já saiu porque a construção estava comprometida. Em relação à fiscalização, não tivemos efetivo para isso”, responde o diretor Felipe Sorato Monteiro.

Aberto

Ainda de acordo com Monteiro, na situação atual, o parque aberto 24 horas por dia – apesar da oposição da Famcri – e sem pessoal para orientar os visitantes e prevenir aos perigos impostos pela natureza, o ideal seria pelo fechamento do portão das trilhas e a proibição das visitações.

“O parque fica aberto porque no zoneamento ele pode ser visitado, mas não pode fazer a trilha. Pelo formato do parque, ele deveria ter o horário de funcionamento definido, mas a gente não consegue fechá-lo”, acrescentou. A impossibilidade deve-se ao uso do espaço para atividades religiosas no meio da noite.

Monteiro admite a dificuldade de fiscalização no parque “A gente sabe que tem a problemática de fiscalização e de visitação, mas a gente não consegue fazer nada contra isso”, afirmou à reportagem. Uma das lutas da Famcri tem sido pela reativação do conselho gestor do local, uma alternativa para redefinir o desenho de ocupação do espaço.

Projetos são estabelecidos, mas esbarram na falta de verbas para execução

A Famcri cumpriu algumas etapas definidas pelo Plano de Manejo: criou as trilhas, apesar de não conseguir fazer a manutenção, e concluiu o cercamento. “Há alguns anos faziam rally de moto lá dentro e entravam por todos os lados, não se conseguia controlar. O cercamento deu uma inibida nisso”, aponta Monteiro. Em relação às plantas exóticas, grande parte foi retirada, mas seguem lá os eucaliptos. “Tem que fazer o manejo gradativo”, justifica o diretor.

Outra ideia do órgão é a construção de um mirante sustentável. Porém, sem apoio do poder municipal, busca-se engajar em projetos de financiamento federal. “Na trilha, mais para cima, a gente tenta inserir uma espécie de mirante, mas todo sustentável, com nada que agrida a área do parque”, aponta o diretor da Famcri.

De portões abertos e com todos os problemas, o Parque Municipal Natural Morro do Céu continua como uma opção de visitação e turística, cercada pela cidade repleta de prédios e concreto de Criciúma.

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