Covid-19: Família reclama de descaso no Hospital da Unimed de Criciúma

Anderson Luiz Leonor teve que ficar em um quarto com a mãe e outra senhora, ambas positivadas com a doença, estando exposto ao vírus sem ter a doença

Foto: Divulgação
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Desde o dia 18 de julho, a família de Anderson Luiz Leonor tem lidado diretamente com as consequências do coronavírus (Covid-19). A mãe dele, Janete Sebastiana Leonor, de 78 anos, foi encaminhada ao Hospital São João Batista com suspeita da doença, porém, os filhos foram aconselhados a levar a idosa à Unimed de Criciúma, já que a unidade presta serviço ao plano de saúde que ela possui.

Com os sintomas visíveis, a confirmação veio quase que de imediato. Anderson estava acompanhado da irmã, que cuidava da mãe. Diante disso, a internação foi solicitada e a idosa precisava de um acompanhante no hospital. Por cuidar da mãe, a filha também foi infectada com a Covid-19 e começou a sentir sintomas naquele mesmo dia. “Eu saí, deixei as duas na Unimed e a minha irmã me ligou, disse que eu teria que voltar pra lá, porque ela precisava ir pro hospital por não estar se sentindo bem”, conta Anderson.

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O filho de dona Janete passou em casa, separou algumas roupas e conversou com a esposa, explicando a situação. “Ela (esposa) me disse que era suicídio eu ir para o hospital cuidar da minha mãe com Covid, sendo que eu estava com saúde e não tinha a doença. Mas eu disse que era a minha mãe, se eles estavam exigindo, eu estava indo. E eu ainda falei, ‘não fala nada que possa me magoar porque estou triste e essa situação já é difícil’. Depois disso eu fui”, ressalta Anderson.

Ao chegar na Unimed, Anderson foi levado ao quarto onde estava a mãe e lá passou as próximas noites. Além disso, recebeu máscaras e a orientação de que não poderia sair do local. “Só estávamos eu e minha mãe, eram 24 horas por dia sem sair do quarto. Eu fiquei cuidando dela, depois me deram luvas para utilizar quando fosse trocar ou levar ao banheiro, essas coisas. E a partir do domingo ela ficou ótima, ríamos, brincávamos, estava divertido”, enfatiza Anderson.

Sintomas em Anderson

Na segunda-feira, dona Janete continuou apresentando melhora, mas, na terça-feira à noite, a situação se agravou. “Ela começou a delirar, falava coisas e chamava pelo falecido marido. Eu fiquei sentado na poltrona de frente pra ela à noite toda. E nisso, pedi para minha irmã que trocasse comigo, porque eu estava começando a sentir arrepios, estava achando estranho”, conta Anderson.

O filho conta que as duas irmãs tiveram Covid-19 e pediu para Edna, que estava um pouco melhor, ficasse na companhia da mãe na Unimed. “Na quarta-feira de manhã eu não estava legal, senti arrepio mas não tinha febre, só uma sensação horrível. Nisso, a minha irmã foi para Unimed e eu fui para o Centro de Triagem, próximo ao São José. Conversei com uma médica e me deram a autorização para fazer o exame no dia 31 de julho, porque por ser pouco tempo poderia dar um falso negativo”, explica.

No mesmo dia, quarta-feira, às 17h, recebeu uma ligação. “Minha irmã havia passado mal e estava com febre e minha mãe ficou lá sozinha, e alguém tinha que ir ficar com ela na Unimed. Quando cheguei lá, ela não estava mais sozinha no quarto, tinha outra paciente que também tinha testado positivo para Covid”, enfatiza Anderson.

Indignação

Diante da situação, Anderson se sentiu indignado com a situação. Embora não tivesse o resultado próprio confirmado para a Covid-19, agora estaria ainda mais exposto ao vírus. “A enfermeira veio e conversou comigo, ela disse que iria procurar algum quarto para nós ficarmos sozinhos. Esperei por mais de uma hora, bem mais. E aí, ela veio junto com outra (enfermeira) e disse que tentou de tudo para fazer essa transferência e não tinha conseguido”, comenta.

Acusado de abandono de incapaz

Ao receber a informação, Anderson se demonstrou insatisfeito com a proposta e apontou o risco que estaria exposto ao ficar no local. “Eu disse ‘não tem condições de eu ficar com a minha mãe e outra pessoa no quarto, eu não vou ficar’. E elas disseram que não tinha lugar. Pediram para eu ficar aquela noite, que no dia seguinte viriam outra solução”, conta. Diante da conversa, ele rebateu. “Eu disse ‘eu vou ficar respirando o mesmo ar de duas pessoas tossindo?’ A mulher estava tão ruim quanto a minha mãe. Aí eu falei ‘eu vou embora, estou indo embora e não vou ficar’”, completou.

Após a reação, Anderson foi surpreendido. “Uma delas me disse assim ‘se tu for embora nós vamos te acusar de abandono de incapaz’, e eu falei ‘como assim abandono de incapaz? Vocês estão me condenando a pegar essa doença, que ninguém sabe curar e estão me obrigando a entrar em um quarto com duas pessoas doentes’”, interferiu.

Ameaçado de tal acusação, o filho de dona Janete teve que seguir com a situação e aceitou passar a noite com a mãe e a outra paciente no quarto. A equipe, então, deu um macacão branco para evitar o contágio. “A minha mãe e a outra senhora estavam tossindo bastante e eu sentia aquele com medo, medo e medo”, conta Anderson.

Saúde de dona Janete piora

Na quinta-feira à noite, a mãe de Anderson piorou. O nível de saturação não aumentava, apenas diminuía. Com o chegar da noite, o filho que estava com sintomas ainda leves de coronavírus, tinha que se manter acordado para cuidar da máscara de oxigênio da dona Janete. Além disso, os delírios voltaram.

Anderson procurou as enfermeiras para que dessem um jeito na máscara, que a senhora acabava tirando inconscientemente. “Eu falei pra enfermeira que a minha mãe estava tirando a máscara o tempo todo e se eu não visse na madrugada ela iria morrer. E ela (enfermeira) me disse ‘a responsabilidade é sua, o senhor tem que ficar acordado e cuidar da sua mãe’”. Diante da resposta, Anderson rebateu. “Eu disse: como vou ficar 24 horas acordado cuidando da minha mãe? Eu sou ser humano, se eu cochilar?”, falou.

Após interferir ligando para a Polícia, que não pôde resolver por ser uma rede privada, os agentes recomendaram que ele tentasse buscar uma alternativa. As enfermeiras, então, chamaram o médico, que constatou a necessidade de encaminhar dona Janete à unidade semi-intensiva. Nessa altura, Anderson já tinha febre e foi orientado a procurar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), já que não tinha nenhum tipo de plano de saúde, ou seja, não poderia ser atendido na própria Unimed.

Desde este momento, Anderson está em isolamento. Nisso, recebeu uma ligação da Unimed. “Eles (hospital) ligaram para minha outra irmã, a Vera, e falaram ‘se alguém se dispor a ficar com ela, vai ser bom, mas nós sabemos que os três filhos estão com Covid, então vocês não precisam ficar no hospital, nós podemos cuidar dela’. E eu pensei, enquanto eu estava são, eles me obrigaram, me exigiram a ficar lá e agora não precisam. E eu, que peguei a doença lá dentro, eles mandaram ir para a UPA”, finaliza.

Resposta da Unimed

A reportagem do Jornal Tribuna de Notícias entrou em contato com a Unimed, porém, a mesma preferiu não se manifestar sobre o assunto.

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