No Dia Internacional do Cooperativismo, um bate-papo sobre o tema

Professor do Curso de Economia da Unesc, Dimas Estevam, fala sobre os principais impactos das cooperativas na questão socioeconômica das regiões onde estão inseridas

Foto: Lucas Colombo/Tribuna de Notícias

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Lucas Renan Domingos 

Criciúma

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Este é o primeiro sábado do mês de julho. A data, todos os anos, é um momento especial para as cooperativas do mundo inteiro. É que o dia foi marcado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Internacional do Cooperativismo. Em alusão a comemoração, o jornal Tribuna de Notícias elaborou um material especial para falar sobre o tema.

A primeira entrevista foi com o Dimas Estevam, professor do Curso de Economia da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) e um pesquisador sobre as cooperativas. No bate-papo abaixo, ela falou sobre o nascimento do cooperativismo, seu crescimento e impacto na sociedade.

Confira o caderno completo sobre o Dia Internacional do Cooperativismo na edição de fim de semana do jornal Tribuna de Notícias. Nele foram apontados iniciativas cooperativistas na região de Criciúma que geram resultados econômicos e sociais para as comunidades onde estão inseridas.

TN – O que de fato é o cooperativismo?

Estevam – O cooperativismo surgiu a partir da crise do sistema capitalista no século XIX, em Londres, na Inglaterra, em virtude das desigualdades sociais, da concentração de renda e do desemprego. Os trabalhadores se organizaram e formaram a primeira cooperativa. Depois, esse movimento começou a se espalhar por todo o mundo, que é o movimento cooperativista conhecido hoje. É uma forma de organização de produção que não possui base somente no capital, mas principalmente nas pessoas. É um grupo de pessoas com um objetivo comum.

TN – O cooperativismo ainda é uma tendência?

Estevam – Se calcula hoje que haja no mundo 1 bilhão de pessoas cooperadas. Mas se a gente colocar que as famílias hoje são formadas aí por três ou quatro pessoas, então, em média, de três a quatro bilhões de pessoas são atingidas pelo cooperativismo. Analisando que a população mundial é de aproximadamente 7 milhões de pessoas, isso se torna um número expressivo. Isso mostra que o cooperativismo está crescendo. E se fizermos uma análise socioeconômica, os locais desenvolvidos e com qualidade de vida são onde as cooperativas mais surgem. É o caso do Canadá, que possui um dos maiores IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e tem a maior proporção de pessoas cooperadas por milhares de habitantes.

TN – Por que existe essa relação de locais desenvolvidos com o surgimento do cooperativismo?

Estevam – Porque o cooperativismo ele não está focado apenas na questão econômica. Ele leva em consideração, principalmente, os aspectos sociais. O cooperativismo não é uma associação de capital, de dinheiro. É uma associação de pessoas em primeiro lugar. O próprio aprendizado gerado pelo cooperativismo, favorece um desenvolvimento de uma região por uma perspectiva mais social, do que econômica. Uma empresa visa sempre o lucro. O cooperativismo, lógico, precisa ter resultados para que as cooperativas sobrevivam. Mas ele é focado em outros objetivos sociais. Esse é o aspecto que diferencia as cooperativas. Essa relação, então, de cooperativismo e desenvolvimento está cada vez mais em estudo.

TN – Que ações sociais acontecem no cooperativismo?

Estevam – As cooperativas são formadas por associados. Aquele capital que a cooperativa tem, ele é dividido entre os sócios. Se são mil famílias associadas, são mil proprietários, que é diferente de uma organização empresarial. A cooperativa ela já é fundada de uma necessidade de resolver um problema econômico. Porque se eu tenho capital, eu abro a minha empresa. Não vou convidar outros para fazer. Agora, se eu não tenho, a saída é a coletividade.

TN – Por que o cooperativismo é forte na nossa região?

Estevam – Todos os pequenos municípios têm alguma cooperativa, porque possuem um impacto importante no desenvolvimento da nossa região. Vamos pegar um exemplo como os agricultores de arroz. Quase toda a produção desse grão ela está articulada, organizada a partir de uma cooperativa. Um produtor de arroz sozinho, ele não teria condições de armazenar, processar e comercializar o produto. A partir do momento que ele é associado, ele ganha escala, ele ganha tecnologia. Há uma distribuição mais equitativa da renda, controlando todo o processo.

TN – Qual o tamanho do cooperativismo no Brasil?

Estevam – Eu penso que ele é muito maior do que nós imaginamos. Faltam estudos integrados sobre as cooperativas. No Brasil, por exemplo, nós temos de um lado a OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras) e temos a Unicafes (União Nacional das Cooperativas do Agricultor Familiar e Economia Solidária), que são as pequenas cooperativas. Quando é divulgado um dado, geralmente é só da OCB e não divulgam os dados de outros tipos de organização, que são as cooperativas da economia solidária, que existe em grande número no Brasil. Tem ainda uma outra parte ainda de cooperativas do Brasil que não estão ligadas a nenhuma dessas associações. Então o cooperativismo ele é muito mais relevante do que as vezes vemos nas notícias.

TN – Como as cooperativas se comportam no atual momento econômico do país?

Estevam – Muito bem. No momento de recessão, cresce o cooperativismo. E o sistema cooperativista tem uma vantagem interessante. O emprego gerado, ele é mais estável que nas empresas. Mesmo que o foco das cooperativas não seja a geração de emprego, pois seu tamanho é medido pelo número de associados, mas essa questão é importante de ser levada em consideração, dos postos de trabalho que elas proporcionam.

TN – Dá para dizer que o cooperativismo ainda tem espaço para crescer?

Estevam – Sim. Um dos exemplos de crescimento aqui na nossa região são das cooperativas de crédito. Os grandes bancos abandonaram as pequenas cidades. E no Brasil, os municípios menores são maioria. Então, nesses locais se não são as cooperativas de crédito, a população não possui acesso ao sistema bancário a não serem nas instituições públicas, como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal. Há aí margem para o sistema cooperativista crescer, principalmente no ramo de crédito. E, claro, aqui na nossa região também existem as cooperativas de agropecuárias, de energia, na área de saúde.

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